11 agosto, 2014

Candelabro

"I'm holding on for dear life" 


Olho para baixo. A minha visão torna-se turva, a altura vertiginosa. 
Balanço de um lado para o outro até deixar de sentir. 
Aqui em cima a desilusão parece esfumar-se lentamente - talvez porque estou longe de toda a gente.
Se descer, se tentar voltar à vida real, sei que vou arrepender-me. Tudo irá voltar numa espiral desastrosa.
A dor, a incerteza, o caos da dúvida, a ânsia de ser livre. Não quero encarar essa vida. 
Não consigo. Por isso fico aqui, de olhos fechados, tentando ignorar o que me resta. 
Os meus sonhos já não são o que eram. Agora são assombrados por uma réstia de passado que me atormenta. Estarão a tentar dizer-me algo? Estarão simplesmente a tentar confundir-me? Guiar-me pelo caminho errado, levando-me a cometer um erro, um passo em falso?
Aqui é tudo estranhamente silencioso. Parece que o tempo não existe, que tudo está parado, exceto eu. Eu continuo a mover-me, mesmo sem querer. Sem saber como. E há uma calmaria total que me embala, mas que me incomoda. Isto não pode durar para sempre. Irá acabar num momento doloroso, abrupto. Em queda quase-livre. Mas não é a descida que me assusta, a queda em si. É o momento em que aterro no chão. Aí é que tudo acaba. 
Sei que não posso ficar aqui para sempre, ignorando os meus demónios, negando que eles existem. Sei que não posso continuar a esconder-me por trás da luz que me cega e do vento que me mantém em paz. Mas não quero encarar a alternativa. Ela enche-me de angústia, de um sentimento de impotência. 
Não há nada que eu possa fazer para parar o tempo. Nem aqui em cima o consigo fazer. 
Ainda é cedo...Mas tento respirar fundo e abro os olhos. Luto contra o meu instinto, luto contra a minha vontade. Isto tem de ser feito. Não quero viver na mentira, não quero viver na ilusão. Não sei ser assim, cega. Por isso sei que chegou o momento. Empurro o receio e a tristeza para um sítio obscuro - não preciso de lidar com eles agora. Mais tarde, talvez.
Olho para baixo e consigo ver tudo. Até o que não quero ver.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Muito bom mesmo. Amei. Pelas razões habituais - talvez não pela essência, mas essa só tu a conheces realmente...

"Mas não é a descida que me assusta, a queda em si. É o momento em que aterro no chão." Delicioso.

<3 Welcome back, mesmo que só por momentos.