25 dezembro, 2011

Never Let Me Go


«Deliver me»

Fecho os olhos e imagino-me aí. Imagino-te comigo, nesse lugar que já existe na minha cabeça.
Enquanto não vir nada, o tempo está parado. Dá-me um momento para fingir que não estou aqui, sozinha. Dá-me um pretexto para fugir ao assunto da distância, do tempo, do vento...Não estou de facto aqui até o sol chegar e me afogar na sua luz cristalina; até o sol me despertar para a realidade - estou presa e não posso sair, por agora.
O choque do contacto com a água fria acorda-me deste torpor imaginado (não estou lá nem cá, não estou viva nem morta), desta fantasia verdadeira que me deixa a meio caminho por qualquer direção que escolha. Não sou bem-vinda, não sou aceite, mas se tento em vão mudar o meu rumo, lá estão elas, as mãos que me prendem, as garras que me ferem até sangrar, impedindo-me de andar.
Capricho ou vontade firme. Ir ou voltar. Sempre em roda viva, giro em volta destas escolhas, à tua mercê, à espera que seja feita a tua vontade (apenas na terra). Mudo de opinião, mudo de escolha, mudo de pensamentos, mudo de papel, mudo de corpo. Acho que mudo por inteiro, dou voltas e voltas ao mundo, e quando finalmente paro para repousar, encontro-me no sítio onde estava. Sem saber. Sem agir. Sem me mover. Sem fala, por fim. Se consigo, por acaso, libertar-me e começar o caminho de volta, de novo me vejo rodeada pelas vossas sombras, pelos vossos olhares que me atormentam, que me incitam a voltar ao meu lugar. Que me assombram com recordações, palavras ou gestos, com promessas por cumprir...Aprisionada por uma eternidade, porque sim.

Observo os feixes de luz e pó que entram pela janela, que caminham pela abertura da alma: aqui a luz ocupa todo o ar que respiro, faz o tempo silenciar-se, leva tudo o que de mau há no mundo; não há outra vontade que comande a não ser a do sol, não há outra verdade que não a do momento. Aqui, neste momento, este é o futuro. Isto é tudo o que importa, tudo o que me deve interessar, é tudo o que há. Perco-me nos labirintos dos raios e imagino uma infinidade de opções, de riscos que não tomei, de riscos que podia ter tomado. Vejo as lágrimas que ficaram por chorar, vejo os risos que ainda estão por vir, vejo a esperança que será eventualmente recuperada. A escuridão nunca é eterna, nunca é definitiva, nunca será total, mesmo quando tudo parece perdido.

Eu não quero ficar aqui. Já não, pelo menos...Deixem-me ir, de uma vez; imploro-vos, rogo-vos que me ouçam...Eu não quero ficar. Deixem-me ir.

15 dezembro, 2011

Back to Black

«Mesmo enquanto lutava para manter a mortalha cinzenta em meu redor, [...] era como agarrar-me a pedaços de nuvens, que se esvaíam em névoa por entre os meus dedos. Eu podia sentir a luz a vir na minha direção...»

Vejo esta queimadura na minha mão e as lágrimas cessam. Estas marcas exteriores representam a história da minha vida, acompanham o que se passa no meu núcleo.
A luz intermitente e fraca brilha na escuridão do universo; ela já não representa o ideal de esperança que habitava em mim, ela já não encarna o que há de bom no mundo - a felicidade, a ingenuidade, o sonho, a magia. Os restos disso ficaram no corpo antigo.
O que me interessa por agora é o escuro que ilumina o meu caminho há algum tempo...o preto nem sempre é luto, nem sempre é dor. E isto, à semelhança da cor, não é tristeza nem tão pouco mágoa. É o vazio constante, é a dormência iminente que está sempre à espreita, decidida a instalar-se. As lágrimas afagam o ego, dão-lhe espaço para respirar; trazem alívio temporário que se converte numa paz exausta, cansada.
Mortifico a alma para que o corpo finja arrepender-se, revivo a agonia da lembrança só pelo facto de ter essa necessidade de sentir; afasto a luz esporádica que surge, tento manter a distância suave do calor, da alegria, dos que importam, porque sei que facilmente me tirariam deste poço onde me encontro, levando consigo a noite constante, dissipando-se.
Tenho de agarrar-me às trevas com todo o meu ser, devo permanecer neste inferno pessoal durante mais algum tempo, até já não ter essa vontade. É algo inato, indiferentemente útil e preciso para mim. É o que me mantém a salvo.
Os cortes, as feridas, as queimaduras...elas só representam a mudança forçada que me encheu - tiraram-me tudo o que tinha de melhor, a minha essência preciosa, o que me enchia de luz. O que valia a pena em mim. Não restou nada, roubaram o que não havia, o possível e o impossível. O puro, o são desapareceu, já não anda por aqui.
Chegaram as trevas, a luz apagou-se.

[Frase destacada: José Saramago]

02 dezembro, 2011

V Império (prólogo)

«Ó Portugal, hoje és nevoeiro...»

Ao ler os gloriosos feitos, ao reviver a História criada, eu acredito.
Ao redescobrir as minhas raízes e o meu orgulho extinto, eu acredito.
Ao imaginar como um dia este sítio foi uma nação de gente forte, eu suspiro de alívio...
Afinal, ainda nos corre no sangue o que em tempos guiou Portugal para o caminho certo, afinal ainda há esperança para o que se encontra desesperado; eu sei, no fundo da minha alma lusitana, que um dia voltarei a sorrir quando pronuncio o nome do meu berço; eu sei que um dia eu voltarei a orgulhar-me ao dizer que nasci no pequeno retângulo que acolheu heróis durante milénios.
Sinto, por vezes no ar, alguma névoa dos tempos áureos, dos tempos em que o tempo passava magnanimamente devagar, só para que os feitos dos meus egrégios avós pudessem ser enaltecidos. Para que pudessem ser falados para todo o sempre, de boca em boca, de geração em geração.
A essência ainda habita em mim. A certeza ainda me toma com um brilho nos olhos e esperança no gesto, de que um dia esse império renasça das cinzas; ele irá chegar...Aguardo.

To be continued...

23 novembro, 2011

Pulsação

Faltou-me um coração. Faltou-me a vontade de sentir.
Os trovões ecoaram no céu azul e trouxeram a desgraça consigo. Trouxeram o fim dos tempos, trouxeram o vento e a separação perpétua.
A chuva veio e alagou o que havia pelo chão, alagou as nossas vidas e pôs-nos a lutar contra a maré, contra todas as adversidades, um contra o outro.
A uma ínfima distância, consigo ainda sentir os impulsos elétricos que nos preenchem, que nos percorrem, o choque de não sentir a tua pele contra a minha. A carga positiva a atrair o seu oposto, do meu para o teu. O arrepio ingénuo que me faz querer ir a correr para ti.
Sinto-me violada...Sinto que todo o meu ser e o meu corpo e a minha mente me odeiam, por não ter feito nada. Por me ter deixado arrastar nesse trilho de lama que me guiou até este vazio onde os dias parecem nunca ser demasiado pequenos. Onde o tempo não passa, de todo. Tenho vontade de arrancar qualquer pedaço de mim que não faz cá falta, que apenas se encontra a mais; não sei se é dor física, não sei já o que é dor, mas este sangue não devia correr em mim.
Sangue do meu sangue, foi no sangue partilhado que nos unimos, primeiro tu, depois eu. O sabor levemente ácido do metal na minha boca, existências para sempre partilhadas.
O para sempre não existe, e contudo, podia jurar que esse momento vai viver para além de nós. Vai viver na minha memória, vai viver na tua, vai ficar marcado no tempo de nós. Há um ser que já não pertence a ninguém, mas que nos contém em si; é um ser que paira no ar, à nossa volta, sempre a causar danos irreparáveis em mim...É essa força invisível, mas imparável, que me puxa, inevitavelmente, para ti. É essa luz sombria que me atrai, que me guia pela escuridão até ver o teu rosto. Não sei com que energia (não restou nenhuma) me consigo manter afastada. A maré veio ajudar, porém, todas as células em mim lutam para não eclodir na tua direção, que me chama a todas as horas.
Algo de outro mundo, sobrenatural, que me impele para ti, algo que não sei nem quero explicar...Algo que é pura eletricidade, processos químicos que tu despoletas no meu corpo. É a vontade de caminhar até ferir os pés, até rastejar no mesmo sangue que tu provaste, só para sentir o toque quente da tua mão na minha.
Faltou-me um coração. Não me pertencia, era o teu.

11 novembro, 2011

01 novembro, 2011

The Little Things Give You Away

«Adão, inocentemente, admitiu que fora a sabedoria de Eva, e não a sua: "Ela deu-me o fruto da árvore, e eu comi."»

Alto, belo, despreocupado, e fundamentalmente, inocente de uma forma que não se pode fingir. Ingénuo de uma forma enternecedora, preciosa.
Cansado de não conseguir decifrar, cansado de não escolher um caminho, continuas nesse estado desassossegadamente intemporal onde vives rodeado de um turbilhão humano, que após palavras e gestos incansáveis, nunca pára. Nesse leito imortal e dourado tens à tua volta sentado o Amor, a Paixão, a Tentação, a Luxúria e o Desejo, todas as mulheres da tua vida. Lentamente, nessa dança irreal e doentia, vão-te asfixiando segundo a tua vontade, até as pequenas coisas te levarem para longe desse mundo.
O Amor representa em si tudo o que é importante sentir, viver. Contém em si a beleza da felicidade e a tristeza da desilusão, mas sem ele, estarias perdido. Ele é algo que, apesar de tudo, nunca mudará; ele não se altera, passando por metamorfoses várias, mas deixando sempre a sua essência a pairar no ar sobre ti.
Paixão, caprichosa e inconstante, desperta em ti a vontade de não saber o que se quer. Num instante amas, no outro odeias com uma calma intensamente natural, pelo simples facto de poderes ter o que queres. Mantida a uma distância sempre razoável, ela vai e volta consoante a tua vontade, e está sempre pronta a servir de fonte para a tua eterna sede de afeto.
Misteriosa, atrativa e sempre a uma distância segura para não ser apanhada (inalcançável), temos a tua Tentação. A voz que te sussurraria segredos condenáveis, se quisesse; voz que, onde quer que esteja, faz com que a tua cabeça se vire à sua procura, mesmo no meio do nevoeiro. A sensação geral é a de querer, é a de ter, embora saibas que não é real; é a sensação de querer possuir o que mais ninguém pode, é o desafogo de encontrar um corpo quente sempre disposto a ouvir, mas não a adorar. Ela que não finge, que não se rege pelas tuas leis, parecendo-te apetecível só porque não a podes ter.
A Luxúria que transpira exuberância, excesso, sensualidade para a tua vida, como uma brisa suave e inevitável que não queres recusar encaixa-se na perfeição na espiral levemente auto-destrutiva que é a tua vida. Respira confiança, a mesma que te faz desejá-la; respira simpatia e felicidade, qualidades que, como qualquer fragrância hipnotizante, servem para te atrair. Prende-te na sua teia intoxicante de aparência e, com o teu consentimento, não te deixa mais sair. Nunca mais.
No fim de tudo, independentemente do resto, o teu Desejo derradeiro conjuga-se na vontade de querer ter o que, acima de tudo, nunca será teu. O cobiçar de carne que após o toque se encontra fria como mármore, a que desperta o apetite voraz de desejar sempre mais, quando o nada é a única realidade que conheces. Passas assim metade da tua vida, a ansiar pelo dia em que a barreira do intocável se desvaneça, para poderes alcançar o teu paraíso.
Nesta atmosfera em que o tempo passa muito, muito lentamente, vês à tua volta uma grande parte do teu ser, imortalizado pelas sensações que tens e que nunca irás ter, pelos sentimentos que demonstras, e pelos que escondes no teu interior mais profundo.
E, ainda que sejam a causa da tua morte rápida ou indolor, nunca poderias deixar ir as cinco coisas que dão ânimo à tua vida, que te mantêm o coração a bater, dia após dia. Nunca poderias abdicar do que, no fundo, não é teu, embora estejas viciado a um nível quase impercetível. A necessidade é demasiada, o querer impõe-se demasiado alto. E assim continua o ciclo decadente que um dia acabará por te destruir.

«Por um só homem entrou o pecado no mundo»

30 outubro, 2011

"Into the wild"

«Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth.»