30 setembro, 2010
Papel Principal
Tive a coragem de chegar até aqui.
Mas no segundo em que piso a linha, uma voz começa a soar na minha cabeça.
Ensurdecedora. Uma voz que me grita para voltar atrás.
Uma voz que me diz que não devo fazer isso, que não devo arriscar mais nada.
Essa voz faz-me repensar tudo o que decidi fazer. Faz-me querer dar um passo atrás e deitar tudo a perder.
Decido ignorar os meus medos e receios, decido calar essa voz que me persegue nos confins de mim. Decido calar essa razão inconformável e dou um passo, e outro e outro depois de passar a linha.
Aqui estou. Aqui me queriam, e agora?
Estou à vossa mercê. Estou no meio deste palco gigantesco, escuro, com um foco de luz brilhante apontado à minha pequena figura, enquanto todos vocês me observam.
O que querem que faça? Que ponha em prática a personagem que desejam? Que vista esse papel que não é o meu?
O que acontecerá se eu cair no vazio sem fim, neste buraco negro que está a meio do palco? Neste espaço em branco que está dentro de mim. O que me acontecerá então?
Vão-me deixar ficar perdida a cair para sempre ou vão-me erguer, levantar-me e ajudar-me a levantar voo até ao sítio onde pertenço?
À medida que me habituo a este espaço que agora é o meu lar, vou-me acostumando à fragilidade que ele trás. Vou-me habituando às luzes que me abrem os portões dourados para os sonhos.
Será aqui que eu pertenço? Não sei.
Fecho os olhos e olho para dentro de mim. Precisava de fazer esta viagem há muito tempo. Mas estarei pronta para fazê-la com todos vocês a estudarem-me? Não. Não estou.
É que esta voz que consegui silenciar brevemente voltou com ainda mais força para me atormentar.
Sai daí, corre e nunca mais voltes; diz-me ela sem parar, uma e outra vez a soar na minha cabeça como um eco que devo seguir.
Porquê? Sei que é sempre assim. Quando consigo dar um passo em frente o abismo à minha frente também avança na minha direcção pondo-me em cheque.
Decido não lhe dar importância e dou outro passo. De um lado para o outro ando no palco, agora eu assumindo o controlo, estudando-vos a vocês. Cada pegada de ar que deixo torna-me mais confiante e em breve já terei deixado o meu corpo. Em breve estarei num estado líquido que se apodera de mim e que me faz perder todo o medo. Que me faz perder todo o receio de me afogar em vergonha, de me elevar nesta espiral.
Esta noite decidi calar a voz para sempre. Decidi que neste palco quem vai comandar as minhas emoções sou eu, e não outra pessoa qualquer.
Vou-me desfazer em pedaços até voltar a ser inteira, vou tornar-me em neblina de fumo e vou conseguir criar um eclipse de toda a luz deste palco que me dá vida.
Vou chegar até onde quiser, sem ter de fingir, sem ter de me esconder.
Tenho de voar, tenho de tentar pelo menos uma vez, tento de experimentar, tenho de não ter medo de viver.
Tenho de dar tudo por tudo, demonstrar o que valho, mesmo que não consiga alcançar nada.
Tenho de criar, tenho de inventar mundos, tenho de tornar tudo possível, até ao pano de fundo descer.
24 setembro, 2010
Cold Silence
Porque o ódio é sempre fácil. Ele cresce numa pequena semente e a partir daí, ninguém a pode parar. Cresce, vai crescendo e quando dou por mim, odeio tudo o que me acontece, tudo o que me está a acontecer. Não é a verdade que me revolta. Não. Nem tampouco é a ideia que a verdade trouxe. É somente a mudança negativa que veio para ficar, é a ideia de que tudo podia ser melhor se um dia o Homem o tivesse querido.
É este silêncio que me gela as veias, que chega à minha cabeça e ao meu coração, parando-os num só bater. Tornando-me cega a algo que já nem eu consigo ver.
Este silêncio funcionou como um despertar de sentimentos, de coisas escondidas, de algo que está seguro por apenas ruínas do que já foi belo. Foi esse silêncio acumulado que destruiu todos os caminhos que levavam à compaixão, todos os caminhos que levavam a algum lado. E agora? Agora... Agora já não resta nada para além de pedaços de madeira queimados. Eu própria ateei o fogo e vi-os arderem, no reflexo dos teus olhos. Os mesmos olhos que se não estivessem tão ocupados com o seu reflexo, veriam o que estava a acontecer mesmo à sua frente. Tudo o que alguma vez existiu, já foi queimado. Só restam cinzas. Cinzas de nós, cinzas de infâncias esmorecidas, cinzas de amor de ódio que violentamente abrem as feridas do meu coração e que ardem como sal. Passou tudo por ti. Não te apercebeste? Esteve sempre à tua frente, de todas as vezes em que chorei até adormecer, de todas as vezes em que a tua injustiça me deixou sem ar, de todas as vezes em que te recusaste a ouvir através dessa barreira que te impede de dar razão a alguém que não sejas tu. E para que me importam agora as tuas lágrimas? Onde estavas tu para limpar as minhas quando precisei? Estavas ocupado a construir e a aperfeiçoar o teu ser. Estavas tão centrado em ser eterno que não reparaste que as paredes começaram a ruir, até ficarem amontoadas no chão, à minha frente.
Para que me importa agora que fiques triste ao reparar que eu não vou olhar para trás, nunca mais? Deixa-me simplesmente morrer aqui, derreter ao sol, ao lado das chamas que eu criei para te apagar. Ao lado das memórias que tinham de ser soltas, para viajarem pelo vento.
Deixa-me aqui, na escuridão, onde ninguém possa ver as lágrimas de sangue que de tanto correrem, ficaram marcadas no silêncio dos meus olhos.
A minha sobrevivência está nas mãos do meu eu criador, do meu eu sofredor, está dentro da minha alma a capacidade de me mover acima do materialismo, do cinismo, da vossa capacidade arrogante de se considerarem superiores. Não conquistei um trono, nem conquistarei. Quero encontrar a verdade e nela me apoiar, quero viver um caminho por mim guiado, e guiar todo aquele que vê nos meus passos sensatez, e vontade de fazer deste mundo melhor.
As minhas lágrimas secarão...Deixarão marca. Mas acabarão por desaparecer sobre a pele, e eu, consciente da minha razão, daquilo em que acredito, triunfarei na minha verdade, na Verdade que quero atingir. Não preciso que me coloquem véus negros à volta dos meus olhos, nem que construam paredes que me frustrem os movimentos...Não somos uma ilha, mas não queremos ninguém que nos fira com falsas luzes, falsas crenças, e não toleramos hipocrisia. Somos humildes de alma, capazes de sentir e viver como filósofos que viveram apenas da vida...E não toleramos cegos aperfeiçoados. Não toleramos a mentira. Não toleramos que sejam o vosso pior eu. O que queremos está dentro da espiral que ruge nos nossos corações...Não tememos ser monstros...Tememos sim, monstros que se julgam melhores que todos os outros, e que esses sim!, são capazes das piores catástrofes. A todos vocês, que brilham de contentamento nesse vosso silêncio frio, a mensagem que deixamos é só uma:
Façam o esforço de aprender connosco, porque nós já muito aprendemos convosco.
[Agradecimento muito especial ao Diogo Garcia, meu querido irmão por me dar mais uma vez a honra de criar arte ao seu lado. É sempre uma honra!]
07 setembro, 2010
Se me pudesses ver agora...
À minha frente, até perder de vista, está esta familiar estrada.
A estrada que não tem nome porque todos a esquecem.
O caminho que ninguém quer lembrar ter percorrido.
As mesmas árvores que parecem esperar longamente por alguém que não chega,
As mesmas pedras da calçada que choram de tanta gente as ter pisado, sem qualquer lembrança.
E após um caminho sinuoso e torturante para quem quer alcançar algo, chegamos a casa.
A casa, velha e cansada. A casa que por fora não saúda ninguém, a casa que, já farta de sofrer, desistiu há muito de tentar.
E claro, antes de entrar no jardim temos o portão enferrujado, que um dia foi vermelho vivo e que agora se encontra despido de qualquer cor ou vida.
Esse portão range ao abrir, e o vento muitas vezes adorava enganar-me, fazendo-o ranger sem ninguém entrar.
Ao passar a ombreira da porta sinto um silêncio mortal a invadir-me. É-me familiar.
Consigo ouvir todas as palavras ditas e todas as palavras que ficaram por dizer.
Consigo ouvir os momentos que aconteceram e sobretudo os que ficaram por acontecer.
Que raio de vida foi esta? As memórias estão fragmentadas, soltas e perdidas no tempo.
Será que o que recordo foi real ou será que sonho após sonho eu inventei a vida que queria ter tido?
Será que os montes e serras verdejantes estão só na minha cabeça? Será que as canas de açúcar, altas e orgulhosas não passaram de um delírio?
Será que todas as noites de estrelas cadentes e cometas, vistas do telhado foram criadas por mim?
A tempestade nasce dentro de mim. As ondas das memórias colidem com as ondas de solidão, de mágoa, de felicidade e de raiva. Crescem e colidem, criando esta maré que me atormenta.
Subo as escadas lentamente, lembrando-me do sentimento que outrora sentia ao subi-las todos os dias.
Lembro-me que a cada degrau a minha esperança aumentava. Talvez quando chegasse à porta, alguém viesse por mim. Talvez alguém se lembrasse e me viesse salvar deste túmulo.
Claro que isso nunca aconteceu, nunca ninguém veio. Nem por mim, nem por motivo nenhum.
Ninguém me salvou. E tive de ser eu a salvar-me. Tive de impedir-me de me afogar. Tive de ser eu a abrir a porta e ir-me embora, sem olhar para trás.
Mas essa estrada que ninguém recorda é tão traiçoeira que mesmo quando estamos a ir embora, parece não ter fim.
Curva atrás de curva, atrás de curva ela parece nunca acabar.
Agora, sentada neste banco no que foi há muito muito tempo o meu refúgio, sinto-me esvaziada. Sinto que só através das recordações, a casa e a estrada conseguiram sugar toda a vida de mim.
Corro pela escada abaixo e abro a porta. O vento arrepia-me, por ser tão frio, mas respiro aliviada por não sentir mais aquele ar abafado e venenoso.
Olho uma vez mais para a entrada sombria da casa, e sem pensar duas vezes fecho a porta com um estrondo, para sempre.
À minha frente, pela última vez, a estrada que nunca ninguém recorda. Para quê? Para quê recordar uma estrada que não leva a lado nenhum? Que não leva a nada.
De coração mais leve que nunca, os meus pés parecem flutuar e a estrada que nunca ninguém lembra chega ao fim, sem eu dar por isso.
Foi a última vez que entrei naquela casa abandonada, foi a última vez que toquei naquele portão enganador e foi a última vez que percorri esta estrada esquecida.
Desta vez é que foi. Confrontei os meus demónios escondidos numa gaveta poeirenta, e não pretendo voltar a tirá-los de lá.
Se me pudesses ver agora, aqui a enfrentar os meus medos, a reviver o que sempre tentei esquecer, não acreditarias.
Eu, a voltar aqui, a este sítio, a esta prisão que só me desgastou anos a fio. Seria impossível convencer-te que estava aqui de livre vontade.
Se soubesses tudo o que quis voltar atrás e fazer de novo, tudo o quis dizer, mas que não pude, todas as coisas de que me arrependi, não pensarias o mesmo. Tive de voltar aqui, não por escolha, mas porque teve de ser, para poder continuar.
E se me pudesses ver agora...
06 setembro, 2010
O correr do rio
Ouvi os sinos tocar bem alto.
Gritavam o que mais ninguém conseguia ouvir, para além de mim.
Simbolizavam o tempo de mudança repentino que me invadiu,
Simbolizavam a minha metamorfose desejada.
Ao lado, o rio corria e eu deixei-me ir com ele.
O vento revolveu-me o cabelo e por breves momentos deixei de existir.
Parada, a minha existência entre o correr do rio e o próprio vento.
Até o ar que respiro consiste em moléculas da mudança em si, o que posso eu fazer?
É algo que se embrenhou no meu ser, talvez conscientemente. Ou talvez não.
Quem diria... Eu, a pessoa comum que odiava mudança.
Já não odeio? Acho que não. Não na maioria.
Mudei-me. Consegui tornar-me diferente sem me anular e agora estou por toda a parte onde o vento sopra, onde um rio corre, onde os sinos tocam.
Em torres bem altas, por cima de igrejas, em jardins, em praias, em cidades.
Em ruínas do que já foi outrora colossal.
E até em ruínas do que costumavam ser pessoas.
Fecho os meus olhos e vejo o que não está lá. Eu continuo a ver.
Vejo pedaços de vidas que não me pertencem, vejo memórias que não são minhas.
Vejo a realidade e a fantasia, vejo o terror e o extâse.
Vejo sorrisos, vejo felicidade, vejo magia, vejo momentos.
Composta por intervalos, vírgulas e capítulos, vidas passadas e futuras.
Vidas alheias e a minha vida.
Penso e sei, experimento e arrisco.
Arrisco e dou o salto para o outro lado. Será que vale a pena?
Percorro galáxias, a voar pelo espaço, perto de estrelas e da lua e do sol, mais perto do que ninguém.
Renovo-me quando me desfaço em cinzas, mas renasço sempre. Dia após dia, dor após dor, queimadura após queimadura.
E ouço os sinos a tocar, bem alto, causando em mim uma mistura de melancolia com esperança que me enche de energia.
Vejo o rio correr, lenta e suavemente, causando um som que me embala até me tornar parte dele.
Vejo o rio correr, e eu, corro com ele.
31 agosto, 2010
Hold my Heart (2)
For real, not just temporarily. Not just pretending to hold it, long enough to drop it on the floor, right in front of me.
Not even I can know for sure. How could I? It's always changing, sometimes so strong and guarded that no one is allowed to enter. So strong that amazes me, so strong that is unreachable to strangers.
Other times, it's so fragile that I'm afraid it breaks just by beating. So desperate for something more that the walls I created soon fall apart. So vulnerable that tears fill my eyes by just the thought of simple things like being alone, by an existence so empty of meaning that no one would even notice I was here one day. By the lack of truth in people's lives these days, by the loss of good values, by the huge loss of all kind of important things that don't seem to matter anymore.
Did I get lost in between? One day I woke up and things were different? Or was it growing without me knowing about it?
Either way, I find myself confused about things I wasn't. That I shouldn't be. That I'd never even thought about, before.
Am I growing? Is it growth that's affecting me? It may be. Does growth make everything look bigger, darker and scarier? Yeah...I think so.
It's just...Every night I get in my bed and before I can fall asleep, I close my eyes and all these images and colours and thoughts run through my mind. Scary ones, happy ones. But both of them fill me with a mixture of despair and anxiety to live. Not sure if it's a good mixture, but I feel it in my heart. I feel it. And I have to think about other things, easier ones to let my brain rest.
Even my dreams are corrupted with the real world. I am not allowed to dream about my own. Not anymore. Can't pretend no more that hope solves things, that the truth is pretty. That the reality isn't cruel. That life, is like we wanted it to be.
How do we find the balance between the fear and hapiness? Do we have to share it with the people that love us? Or do we keep it to ourselves?
Maybe all we need to find is someone we can trust. Someone who is right for us. Someone who can, by the end of the day, hold our heart.
Does anybody know how? Can't I don't want to let go, too soon.
To be continued...
24 agosto, 2010
This is not a love story. It's a story about love. (1)
Are any of those three possible? I couldn't say.
I'm not one of them, trying to achieve by words, something that doesn't make any sense or follows normal rules. There are no rules in love, except the ones from the heart.
We know love can be difficult and hardworking.
It leads us through pain, loneliness and mourning, satisfaction, hapiness and euphoria while doubt and jealousy take control in a gigantic spiral of restlessness.
Have I felt like that? Maybe once, but not really.
I never felt my heart jumping in my throat,
I never felt anxious butterflies trying to escape from my stomach,
I never felt an electric shock from toe to head just by touching someone.
I never felt my world stopping and falling apart just by looking at someone!
Yeah... I know. How can I be sure that those are the real symptoms of love?
The answer is strangely simple: I'm not. I can't be sure.
By now, I don't know anything. Not about love anyway.
I had big plans about this text. About the message I wanted to send, about the spirit of it. To spread the word that love is a great thing. That all you really need is love. But then, I started watching that theory coming undone right in front of me. That great love of mine only brings pain and destruction...
I'm not even sure if I believe in love, now, but the truth is...I don't know.
It's alway messy and hard.
I wanna believe though! I do! Just can't be sure if I should.
Until then, I'll have to search and learn more about it.
Will I be able?
To be continued...
21 agosto, 2010
Ao longe o mar
O céu coberto de nuvens e
Nem vestígio do sol.
Teria sido um dia perfeito,
Não fosse o facto do calor infernal
Me causar um entorpecimento
Que me deixa sem forças ou vontade.
A janela está completamente aberta
Mas nem uma brisa chega para baixar
A temperatura da minha pele que queima,
Pedindo, implorando por arrefecimento urgente.
A lua sorri-me em sinal de agradecimento.
É que hoje, eu matei o sol.
Matei-o, mas não me arrependo.
E o vento? O vento...
Esse não chega, nunca mais chega.
Começo a ficar impaciente.
Este calor de outro mundo
Já-me está a gastar, está-me
A dividir em pedaços.
Consigo mesmo sentir a água a evaporar-se,
A deixar o meu corpo através dos meus poros.
Não tarda, também eu sou vapor.
Saio de casa, o ambiente continua denso.
Sinto-me perdida, sem destino, com necessidade
De nadar pelo meio deste calor palpável.
Mas subitamente ouço-o à distância.
É o meu farol, a minha salvação.
Corro para o alcançar.
Corro até deixar as minhas pernas para trás.
A noite é acolhedora, apesar de escura.
Trás-me um sentimento de paz e felicidade,
Bem como de gratidão da lua que agora me guia
Para que eu possa atingir a única coisa que de momento
me move.
Já posso até imaginar...
As rochas, a areia e ao longe, o mar.