29 janeiro, 2010

Reconstrução

Podia falar da tragédia.
Podia escolher a tristeza, a pobreza ou a dor.
Podia retratar a miséria que está espalhada pelas ruas do mundo.
Eu podia escolher esse caminho, o mais obscuro, o mais chocante.
Mas escolhi outro. Aquele em que prefiro acreditar.
Aquele que parece nunca ser uma solução, embora seja sempre.
Eu podia ter escolhido outro caminho qualquer, outro que me poupasse a todas as coisas más.
Fizeram-me diferente do que teria sido. Através da experiência fui trabalhada de várias maneiras, por várias pessoas.
Mas, como disse, não foi esse que eu escolhi.
Afinal, o que seria de mim se tivesse tido outro percurso que não o meu?
Estaria perdida na pele de outra pessoa, no meio das suas coisas, das suas pessoas. No meio da sua vida.
Podia andar a subir montanhas, poderia ser um cometa ou até uma partícula de ar.
Havia uma hipótese de eu ser qualquer outra coisa, mas não sou.
Sou só isto, eu.
Descer vales, viajar pelo Mundo todo a pé, fazer milagres.
Mas no fim de contas, sou só eu. Simples, às vezes derrotada e perdida. Outras, sou vencedora e optimista, pronta a receber mais vida e luz em mim.
Na verdade, às fecho-me na minha concha escura, onde só posso ver o interior da minha alma.
Finjo que quando abrir os olhos, após os ter fechado por instantes, tudo (mesmo o que não sei nem conheço) ficará melhor.
Ficará no lugar onde pertence.
E que o Mundo vai voltar a girar na sua órbita certa.
Sim, eu podia escolher a tragédia.
É um facto muito provável.
Podia fazer como muita gente. Simplesmente cair e ficar a ver de braços cruzados.
É o que todos esperam depois de alguém levar tantas estaladas desse mesmo caminho escolhido.
Mas eu levanto-me sempre.
Sacudo o pó e as cinzas e não demoro a começar a reconstruir o destruído.
Sim, eu podia escolher a tragédia.
Mas em vez disso, escolho a esperança, porque essa, nunca acaba.

22 janeiro, 2010

Ponto de Luz

Sente o sabor de ires contra a corrente do vento.
Sente a liberdade de cada passo que te aproxima cada vez mais do teu objectivo.
Só vês pequenos pontos de luz.
Primeiro ao longe, e depois, aproximando-se mais, tornando-se a iluminação da tua jornada.
Perdes-te no som que toca mesmo ao teu ouvido, que te incita a prosseguir.
Observas os carros que passam por ti.
Também eles trazem pontos de luz que te aquecem por dentro.
Podias estar dentro de qualquer um desses carros, mas em vez disso, escolhes, como sempre, o caminho mais cansativo, o mais difícil.
Porque se não fizesses essa escolha, não serias tu.
A cada passo, a cada vez que pousas o pé no chão, à tua velocidade, sentes o coração a bater mais forte, o sangue a correr mais depressa.
E desafias tudo e todos.
Corres até te esqueceres de ti.
Estás irritado, frustrado.
Irrita-te quem é feliz e irrita-te quem não é. Pensas que não devem sentir-se assim, porque não têm motivos.
Mas nem tu os tens, não é?
Odeias porque vês a miséria à tua volta e odeias a pobreza.
Odeias quem vive, odeias quem morre.
Odeias todos os que te rodeiam, mas também amas.
Não consegues viver com eles, nem sem eles.
Irrita-te quem luta por viver, irrita-te quem entrega a sua vida numa bandeja.
Suportas os olhares que te lançam ao longo do percurso.
Aguentas o olhar e só o baixas quando ninguém está a ver.
Sentes culpa, remorsos. Sabes que os olhares são castigo.
Estás tão revoltado contigo que sentes vómitos. E vomitas para tentar soltar o veneno que se apodera de ti. Mas ele não sai, não sai!
E então continuas a correr, até te esqueceres de ti.
É que pensar é doloroso, por isso não o faças, apenas.
Quase chegaste a pensar naquilo, quando algum carro se aproximou demais. E isso deixa-te transtornado, com nojo de ti.
Quase O desafiaste, e por isso choras e pedes-Lhe perdão.
Pedes que Ele te perdoe, que Te guie.
Pedes salvação, pedes força.
Tu não passas de um mentiroso vulgar, és algo inútil. Reles, sem valor.
Acalma o teu espírito...Já nada te importa.
Deixas que os anjos e demónios segurem no teu coração e lutem por ele.
Quem queres realmente que ganhe? Assim já tinhas desculpa...
Mas já nada te importa.
Eles magoam-te, tu magoa-los. Tu não sabes o que sentes e isso enerva-te.
Estás frustrado, irritado, revoltado.
E pensavas que a revolta já tinha passado...
É tanta a raiva que brota de ti, que o mundo à tua volta podia implodir.
Achas que não vais aguentar.
Pensas, mais do que nunca naquilo que não queres.
Tudo te enerva, tudo te irrita.
Passas pelos hipocritas que te acenam. Sorris com malícia. Estão tão perdidos!
Mas não estás tu também perdido?
Estagnaste. Talvez num patamar acima, mas ainda assim, deixaste de alcançar algo maior, quando te perdeste pelo caminho.
Pedes salvação e ajoelhas-te porque, por momentos, pensaste naquilo que sabes não poder querer, não podes ter.

15 janeiro, 2010

Máscara

Sobe os degraus devagar e respira fundo.
Sabes que a partir do momento em que rodares a chave na fechadura, vais ter de mudar.
Não vais poder parecer triste e calado.
Vais ter de falar alegremente para que todos sintam que está tudo como devia estar.
Vais ter de fingir que nada está mal, mesmo que nada esteja. Só tu o sentes.

Sobes os outros degraus, desse sítio repetitivo e às vezes parecido com uma prisão.
Respiras fundo porque sabes que a partir do momento em que eles te virem, vais ter de pôr um sorriso na cara.
Vais ter de falar alegremente, de rir alto e de blasfemar contra as coisas comuns.
Tudo o que querias era um pouco de paz, para fingires que o mundo todo não existe, só tu.
Tu e o vazio, onde não há chuva, ou calor ou pessoas ruidosas que se limitam a pensar em si, mesmo quando pensam ajudar os outros.
Onde não há falsidade, mentiras, intrigas e conversas de circunstância.
Aproveita então, agora, o silêncio e tempo que tens para respirar, tudo o que não há quando eles estão por perto, em dias como este.
Se sabes a verdade, como podes viver na mentira?
Como podes simplesmente pôr essa máscara e seguir em frente como se estivesses bem?
Podias deixar de fingir que tudo à tua volta não te confunde, a maneira deles pensarem, agirem, serem...De ver o mundo, tudo à sua volta. Revolta-te, faz-te confusão. Não consegues perceber, verdadeiramente.
Estás rodeado de gente que não gostas e gostarias de poder parar de fingir o contrário.
E então fazes isso, mas em breve todos te perguntam o que se passa e tu não estás pronto para responder a isso.
Dizes apenas - nada - e continuas a andar.
Talvez sejas assim, à parte. Ou talvez, nesses dias tudo pareça juntar-se contra ti.
Tudo o que está mal pareça maior; todos os problemas e infelicidades sejam realçados.
Ninguém compreende, respeita ou ajuda.
Talvez poucos o façam, mesmo assim, são muitos escassos.
Esquece o que te dizem, o que pensam, o que sentem, o que fazem...
Concentra-te apenas em nada.
Só queres que o dia acabe, porque o próximo deverá ser melhor.
Só queres adormecer, porque depois não terás de pensar mais. Apenas terás de viver o sonho.
E se sabes a verdade, não podes, viver na mentira.

13 janeiro, 2010

Distância

Falar e pensar é extremamente diferente.
Por isso, é que essas palavras passam muitas vezes pela minha cabeça, e eu não demonstro qualquer tipo de mudança exterior, embora no interior, muita coisa mude.
Mas é só quando eu as digo, que todos percebem o que sinto.
É só aí que tudo o que é pensamento, talvez sonho, passa a ser real. Passa a ser verdade.
E eu sei isso. Achas que não sei?
Eu tenho noção. A toda a hora. A todo o momento.
Tento evitar essas palavras, para não perder o controlo. O meu controlo.
É muito diferente e que queria que percebesses isso.
Pensa....Tenta...
Imagina o pior que pode acontecer. O pior que podes sentir.
Maior que tu, maior que eu. Maior que nós.
Algo tão natural como respirar.
Algo tão incontrolável, que só de pensar, sinto logo o meu coração a bater mais rapidamente.
Perco a noção de tudo, e tudo parece diminuir porque me falta o ar e torna-se difícil respirar.
Imagina sentir isso. Imagina o que eu sinto.
Sei que é difícil compreenderes, por isso não vou gastar muito mais tinta nisso.
Queria que estivesses aqui, comigo.
A partilhar toda a beleza que me é oferecida.
A chuva, a cair; a embater em poças de água límpida; a rolar pelos parapeitos e pelas janelas.
A sentir o vento que quase arranca as árvores do chão; que quase arranca o meu espírito de mim, e leva-o para bem longe.
Desejava mesmo que estivesses aqui, agora.
Mesmo ao meu lado, bem perto, em vez de longe.
Mas mesmo longe, conseguiste ajudar-me a distrair daquelas palavras, duas palavras que causam este peso que arrasta o meu coração pelo solo.
Sim, é o que sinto. E sei que talvez não fosse justo pedir-te que percebesses, visto que também tu sofres.
Mas, é diferente.
Tu estás aí, por livre vontade, e eu fiquei sem ti, por acaso, não por escolha.
Foste-me tirado!
Sim, é o que sinto. Sim são as palavras que me doem mais, mas são as mais importantes:


Eu amo-te

10 janeiro, 2010

Barulho de Fundo

O burburinho cresce e vai crescendo.
Vai ficando cada vez mais forte. Insurdecedor.
Acalma-me os nervos, acalma-me o coração. Este ruído.
Faz-me sossegar. Faz-me não pensar.
Entro em transe, simplesmente. Esqueço tudo, largo tudo. Perco tudo. Mas ganho, também.
E sei que isso importa, tem de importar.
O barulho cresce, até se tornar em barulho de fundo, sempre a tocar na minha cabeça. Melodia incansável, imparável.
E cresce, sobe bem alto e vai crescendo.
Música relaxante que nunca pára de tocar cá dentro.
De repente, reparo. Algo está diferente.
Há menos ruído, não há nada. Está vazio, silencioso.
E agora? Fico sozinha. Abandonada desse conforto.
Para onde foi? Para onde vai?
Que vai ser de mim?
Como posso recuperá-lo?
E subitamente, o barulho de fundo volta.
Primeiro baixinho e lento.
Depois mais alto, até crescer de volta.
E torna-se tão familiar; acostumo-me tanto, que o perco de vista.
Torna-se som natural do meu meio.
De facto, não devia voltar a este ciclo de vício, que quando acaba, deixa-me desamparada, perdida, sozinha.
Mas sei que sem ele, não consigo progredir. Não consigo continuar. Fica tudo demasiado sossegado, abandonado.
O meu barulho de fundo é traiçoeiro, e abandona-me frequentemente.
Deixando-me sozinha.
Mesmo quando ele não está lá, eu sei que devia estar. E isso conforta-me.
E ainda agora tinha voltado, mas já partiu outra vez...
O burburinho foi desaparecendo, apenas deixando o silêncio e o seu eco.

06 janeiro, 2010

Epifania

Consegui ver-me. Como num filme doentio e tenebroso.
Estava deitada, ali no chão.
Quis gritar, mas não me ouvi.
Quis mexer-me, mas não me alcancei.
Quis chorar, mas não consegui.
Quis salvar-me, mas não pude.
E então, fiquei ali a olhar-me, a pensar no que se seguiria, o que se iria passar.
Pensei no que estava a acontecer, mas não encontrei resposta.
Eu, sozinha no chão, sem ninguém à minha volta para me socorrer.
Para me confortar o corpo doente e mutilado. A alma, essa está amolgada, mas não doente...
E enquanto estava ali deitada, petrificada, imóvel, sem me conseguir mexer, percebi.
Talvez não tudo, mas uma parte.
E soube nesse momento que tinha de me levantar.
Tinha de sair dali, tinha de conquistar mais, fazer o que não soube, querer o que não pude.
Soube nesse momento que era isso, e isso apenas que tinha de fazer.
Mas o tempo já estava a contar e a chegar ao fim.
Tinha de me apressar.
A muito custo, finalmente consegui abrir os olhos.
E deve ter sido, provavelmente, a coisa mais difícil e dolorosa que já fiz.
Senti o cheiro a queimado, o cheiro a sangue. Senti o cheiro da tragédia.
Olhei para o céu e soube que ainda faltava a parte mais complicada.
Tinha de me levantar e caminhar para escapar daí.
Tentei erguer-me, mas as forças falharam-me.
Tentei mexer-me, mas o meu corpo traíu-me.
Tentei chorar, mas não consegui.
Tentei salvar-me, mas não pude.
Então comecei a perder a esperança, e o meu coração parou de bater, a pouco e pouco.
E os meus olhos ficaram a fitar o céu estrelado, para sempre...






Medo
Adrenalina
Pavor
Agitação
Ocorriam à minha volta, mas só queria que me deixassem em paz.
Ouvi uma voz e vi uma luz.
Elas disseram-me: bem-vinda de volta.

28 dezembro, 2009

Metros Quadrados

Palavras. Que disseste. Que devias ter dito.
Palavras que não significam nada.
Que mudam com a distância e que se perdem no tempo.
Elas não provam nada. Não trazem nada real.
Talvez só a comunicação. Mas é um meio falso, enganador. Dissimulado.
Quanto tempo dura a palavra amo-te?
E para sempre? Pode ser tão efémuro...
Ouço os teus passos. Ecoam no meu passado e no meu presente. Futuro não sei.
Sei apenas que nada é garantido. Nada é provável. Nada é certo.
Vejo o brilho do sol através deste vidro, janela transparente. É como a minha alma.
Deixa passar a luz e a felicidade.
Ouço os meus passos a ecoar no teu futuro.
Este apartamento está vazio e poeirento. Não há nada aqui.
Só o sol que inunda todas as divisões até já não haver penubra aqui. E em mim.
Se te atirar uma corda, sobes até cá a cima?
Vá, trepa lá. Faz esse esforço.
Mão, mão, pé, pé, mão, pé. Um atrás do outro, um atrás do outro, atrás do outro...
E tentas, tentas, tentas. Puxão atrás de puxão, avanças mas não consegues sair do sítio.
Não consegues alcançar este lugar. Não me consegues alcançar. O teu futuro.
E que importa o passado ou o presente?
Tudo o que me interessa está cingido nestas paredes. Nestes metros quadrados.
Alcança-nos! Engana o tempo e o espaço.
Sobe até aqui e sente o sol a bater-te na cara, comigo.
Eu vejo a tua luta, aqui de cima, mas assim que aqui chegares, tudo vai ser melhor.
Eu estou aqui. E o que passou, acabou. Ficou para trás.
O que se passa agora, vai passar. E tudo o que sobra sou eu, somos nós. O futuro.