Podia falar da tragédia.
Podia escolher a tristeza, a pobreza ou a dor.
Podia retratar a miséria que está espalhada pelas ruas do mundo.
Eu podia escolher esse caminho, o mais obscuro, o mais chocante.
Mas escolhi outro. Aquele em que prefiro acreditar.
Aquele que parece nunca ser uma solução, embora seja sempre.
Eu podia ter escolhido outro caminho qualquer, outro que me poupasse a todas as coisas más.
Fizeram-me diferente do que teria sido. Através da experiência fui trabalhada de várias maneiras, por várias pessoas.
Mas, como disse, não foi esse que eu escolhi.
Afinal, o que seria de mim se tivesse tido outro percurso que não o meu?
Estaria perdida na pele de outra pessoa, no meio das suas coisas, das suas pessoas. No meio da sua vida.
Podia andar a subir montanhas, poderia ser um cometa ou até uma partícula de ar.
Havia uma hipótese de eu ser qualquer outra coisa, mas não sou.
Sou só isto, eu.
Descer vales, viajar pelo Mundo todo a pé, fazer milagres.
Mas no fim de contas, sou só eu. Simples, às vezes derrotada e perdida. Outras, sou vencedora e optimista, pronta a receber mais vida e luz em mim.
Na verdade, às fecho-me na minha concha escura, onde só posso ver o interior da minha alma.
Finjo que quando abrir os olhos, após os ter fechado por instantes, tudo (mesmo o que não sei nem conheço) ficará melhor.
Ficará no lugar onde pertence.
E que o Mundo vai voltar a girar na sua órbita certa.
Sim, eu podia escolher a tragédia.
É um facto muito provável.
Podia fazer como muita gente. Simplesmente cair e ficar a ver de braços cruzados.
É o que todos esperam depois de alguém levar tantas estaladas desse mesmo caminho escolhido.
Mas eu levanto-me sempre.
Sacudo o pó e as cinzas e não demoro a começar a reconstruir o destruído.
Sim, eu podia escolher a tragédia.
Mas em vez disso, escolho a esperança, porque essa, nunca acaba.
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