Consegui ver-me. Como num filme doentio e tenebroso.
Estava deitada, ali no chão.
Quis gritar, mas não me ouvi.
Quis mexer-me, mas não me alcancei.
Quis chorar, mas não consegui.
Quis salvar-me, mas não pude.
E então, fiquei ali a olhar-me, a pensar no que se seguiria, o que se iria passar.
Pensei no que estava a acontecer, mas não encontrei resposta.
Eu, sozinha no chão, sem ninguém à minha volta para me socorrer.
Para me confortar o corpo doente e mutilado. A alma, essa está amolgada, mas não doente...
E enquanto estava ali deitada, petrificada, imóvel, sem me conseguir mexer, percebi.
Talvez não tudo, mas uma parte.
E soube nesse momento que tinha de me levantar.
Tinha de sair dali, tinha de conquistar mais, fazer o que não soube, querer o que não pude.
Soube nesse momento que era isso, e isso apenas que tinha de fazer.
Mas o tempo já estava a contar e a chegar ao fim.
Tinha de me apressar.
A muito custo, finalmente consegui abrir os olhos.
E deve ter sido, provavelmente, a coisa mais difícil e dolorosa que já fiz.
Senti o cheiro a queimado, o cheiro a sangue. Senti o cheiro da tragédia.
Olhei para o céu e soube que ainda faltava a parte mais complicada.
Tinha de me levantar e caminhar para escapar daí.
Tentei erguer-me, mas as forças falharam-me.
Tentei mexer-me, mas o meu corpo traíu-me.
Tentei chorar, mas não consegui.
Tentei salvar-me, mas não pude.
Então comecei a perder a esperança, e o meu coração parou de bater, a pouco e pouco.
E os meus olhos ficaram a fitar o céu estrelado, para sempre...
Medo
Adrenalina
Pavor
Agitação
Ocorriam à minha volta, mas só queria que me deixassem em paz.
Ouvi uma voz e vi uma luz.
Elas disseram-me: bem-vinda de volta.
1 comentário:
Para o bem ou para o mal, neste mundo nem sempre tudo acaba bem.
Uns gostam outros não...mas a nossa vontade muitas vezes vale de nada ou de pouco.
E gostei deste poema.
A verdade é que por vezes um Epifania não chega na vida...porque voltamos ao que eramos, e nesse caso a lição não foi aprendida.
Mas adorei a tua descrição. Todo o texto está magnifico! Todo ele sem excepção.
E sabe bem ver que às vezes na vida acaba tudo bem.
Obrigado. Keep going, spiral out.
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