22 janeiro, 2010

Ponto de Luz

Sente o sabor de ires contra a corrente do vento.
Sente a liberdade de cada passo que te aproxima cada vez mais do teu objectivo.
Só vês pequenos pontos de luz.
Primeiro ao longe, e depois, aproximando-se mais, tornando-se a iluminação da tua jornada.
Perdes-te no som que toca mesmo ao teu ouvido, que te incita a prosseguir.
Observas os carros que passam por ti.
Também eles trazem pontos de luz que te aquecem por dentro.
Podias estar dentro de qualquer um desses carros, mas em vez disso, escolhes, como sempre, o caminho mais cansativo, o mais difícil.
Porque se não fizesses essa escolha, não serias tu.
A cada passo, a cada vez que pousas o pé no chão, à tua velocidade, sentes o coração a bater mais forte, o sangue a correr mais depressa.
E desafias tudo e todos.
Corres até te esqueceres de ti.
Estás irritado, frustrado.
Irrita-te quem é feliz e irrita-te quem não é. Pensas que não devem sentir-se assim, porque não têm motivos.
Mas nem tu os tens, não é?
Odeias porque vês a miséria à tua volta e odeias a pobreza.
Odeias quem vive, odeias quem morre.
Odeias todos os que te rodeiam, mas também amas.
Não consegues viver com eles, nem sem eles.
Irrita-te quem luta por viver, irrita-te quem entrega a sua vida numa bandeja.
Suportas os olhares que te lançam ao longo do percurso.
Aguentas o olhar e só o baixas quando ninguém está a ver.
Sentes culpa, remorsos. Sabes que os olhares são castigo.
Estás tão revoltado contigo que sentes vómitos. E vomitas para tentar soltar o veneno que se apodera de ti. Mas ele não sai, não sai!
E então continuas a correr, até te esqueceres de ti.
É que pensar é doloroso, por isso não o faças, apenas.
Quase chegaste a pensar naquilo, quando algum carro se aproximou demais. E isso deixa-te transtornado, com nojo de ti.
Quase O desafiaste, e por isso choras e pedes-Lhe perdão.
Pedes que Ele te perdoe, que Te guie.
Pedes salvação, pedes força.
Tu não passas de um mentiroso vulgar, és algo inútil. Reles, sem valor.
Acalma o teu espírito...Já nada te importa.
Deixas que os anjos e demónios segurem no teu coração e lutem por ele.
Quem queres realmente que ganhe? Assim já tinhas desculpa...
Mas já nada te importa.
Eles magoam-te, tu magoa-los. Tu não sabes o que sentes e isso enerva-te.
Estás frustrado, irritado, revoltado.
E pensavas que a revolta já tinha passado...
É tanta a raiva que brota de ti, que o mundo à tua volta podia implodir.
Achas que não vais aguentar.
Pensas, mais do que nunca naquilo que não queres.
Tudo te enerva, tudo te irrita.
Passas pelos hipocritas que te acenam. Sorris com malícia. Estão tão perdidos!
Mas não estás tu também perdido?
Estagnaste. Talvez num patamar acima, mas ainda assim, deixaste de alcançar algo maior, quando te perdeste pelo caminho.
Pedes salvação e ajoelhas-te porque, por momentos, pensaste naquilo que sabes não poder querer, não podes ter.

1 comentário:

Diogo Garcia disse...

Gostei muito deste poema, primeiro porque de dessa forma farto parte dele, e depois, está ligeiramente diferente dos outros.
A vida às vezes exige "sacrifícios" ou mesmo sacrifícios. Nem sempre o caminho mais fácil é o melhor.

"Corres até te esqueceres de ti." Amei.

Continua ;) *