06 fevereiro, 2013

Any Way the Wind Blows

«A little light is filtering from the water flowers.
Their leaves do not wish us to hurry: 
They are round and flat and full of dark advice.»

Sinto falta daquela antiga sensação que preenchia cada célula do meu corpo com a novidade.
De olhar e ver as árvores no alto, independentes. Balançam ao vento, passeiam com ele.
Ele chega e persuade tudo e todos. Todos o desejam seguir.
De olhar e reparar nas flores, perto das minhas mãos - quase lhes tocam e anseiam por isso. Elas sentem os meus olhos, o toque fugidio e demorado que não chega a acontecer. Aqui não há pressa, ou caos, ou destruição. Só talvez da alma...Mas a solidão também atua como proteção, como um reflexo que não deixa entrar o mal do resto do mundo.
O cheiro fresco, puro, ingénuo da erva, que me chega à cintura, encanta-me. Chama por mim, canta pequenas e breves canções que apelam ao que já foi aqui vivido. Diz-me que aqui posso ter toda a paz que procuro; que aqui, a vida é como eu a pinto. Neste local, paira no ar um qualquer feitiço, algo por descobrir, por desvendar, como o segredo que se esconde no botão tímido de uma rosa.
Posso respirar livremente - há espaço para ser e imaginar. Os universos são imensos, as ideias infinitas. Algo incrível deve habitar por estes cantos da terra.
Leveza de querer, simplicidade de conseguir prever o que não está mesmo à minha frente, de bastar. De não precisar de voltas complicadas da mente de muitos, para ver o que está escrito nas entrelinhas sinuosas que formam caminhos e estradas que percorrem estes vales, aquelas serras. No fim de tudo o que existe no presente, onde não há mais nada. Onde não vive ninguém e por isso, onde o mal ainda não chegou a romper.
Lá, refugia-se a esperança arrastada por medo, a felicidade incontida, aquilo pelo qual ainda vale a pena viver.
O rio passa por mim a correr, mas não vai a lado algum. Limita-se a não desistir, porque não tem outra escolha? Ou porque escolhe fazê-lo? Traz a vida consigo, traz a ousadia, o desassombro de viver. Livra-nos da treva que paira sempre ao alcance, livra-nos do mar salgado onde tentámos em vão acabar com isto. Com esta vulnerabilidade, esta perturbação sem fim que vinha sussurrada pelas folhas das árvores, quando abanam os seus ramos exibicionistas. Esse mar não o quis, não nos quis. Cuspiu-nos de volta, cruelmente.
E assim, aqui voltei. Onde as estrelas têm uma casa e onde o oxigénio é dolorosamente saboroso. Onde a morte espreita, já cansada de esperar pelos que se opõem a deixar a luta.
Tive saudades de viver este ambiente, este refúgio verde. Tenho tristeza de não haver tanto, já não.
Mas as árvores ainda estão cá, o rio ainda corre. E eu, regresso. Relembro.

31 janeiro, 2013

28 janeiro, 2013

The Girl with the Green Dress

«Haven't you noticed me drifting, oh let me tell you I am...»


De maneira diferente, também tu vais em queda livre. Mas é mais suave, prolongada.
O sorriso está lá sempre, o olhar também, mesmo que triste. Mesmo que perdido em velhas recordações do que, infelizmente, já não volta, embora percas o teu finito tempo a acreditar que sim. Essa fé que nunca vacila destrói-te aos poucos...Quando acabar, não há mais luz em ti.
Ergueste as muralhas à tua volta, demasiado espessas, demasiado protetoras - e agora gostarias de gritar por ajuda, mas não sabes como pôr fim a essa segurança que escolheste criar. Contra o quê?! Mesmo que elas não existissem, ias decidir-te pelo silêncio; ele não causa piedade ou misericórdia em olhos também sofridos, ele não vem trazer o desassossego de alma que as palavras carregam consigo, ele não atiça o fogo que apesar de tudo ainda vai queimando lentamente o âmago do teu ser (des)iludido.
Estado de espírito enevoado é tudo o que conheces desde o início, mas o sofrimento de saber trouxe-te pelo menos a calma doentia do não-desconhecido. A realidade desde muito cedo atormentou a tua vida (demasiado cedo), já não te é possível perceber como é sonhar sem ter esse peso em cima dos ombros, que te vai empurrando para baixo, até não haver outro sítio senão o chão. Sonhavas com a liberdade, com o escape desse pesadelo tão próximo, com um paraíso irreal que precisava de existir num futuro utópico, para conseguires continuar. Com um paraíso onde houvesse espaço para seres feliz...
Gostava de acreditar que alguém te vai estender a mão em breve, que alguém vai parar, vai reparar nessas paredes tão altas que te rodeiam e destroçam o coração, e que vão mandá-las abaixo pela simples força de querer, de tentar ajudar quem se afoga há muito.
É inacreditável como, de uma maneira ou de outra, te encontras sempre nessa ténue linha entre a paz e a miséria, entre a alegria e a tristeza de viver assim - as reviravoltas abruptas do teu mundo deixam-te sem saber como prosseguir, como mudar o que não está certo. Como encontrar finalmente o santuário que tanto procuras. Essa maneira imprudente de ser, de te importares, vai mudando, vai-se alterando consoante o vento passa e te empurra quer para uma margem, quer para outra (perigosamente no precipício de cair). A vontade vai mudando, mas o vazio permanece. Inevitavelmente.
De cada vez que consegues erguer um pedaço de algo bom, algo teu, uma qualquer onda surge e arrasa o que demorou tanto tempo a levantar. Condena-te a recomeçar com o que sobrou, uma e outra vez, num ciclo interminável. Os outros riem-se da tua inocência, da tua capacidade de ver o que poderia existir, se as pessoas quisessem. Troçam da tua inútil vontade de continuar a tentar, após tudo o que veio. Da tua luta contra a maré, para te manteres à tona, quando tudo já está afundado à tua volta.
O sorriso ainda está, o olhar também, mesmo que cansado, mas o pensamento está carregado de chuva que arde e que aniquila a possibilidade de sol. 

Gostaria de saber que alguém se lembrou de ti, que alguém escolheu ajudar-te a subir essas ruínas que te acompanham, isolando-te. 
Queria que alguém te dissesse que vale a pena, que vales a pena. Para ficares e não deixares a esperança ir embora outra vez. Espero que acredites.

26 janeiro, 2013

Bright Lights and Cityscapes

«I want to wake up in a city that doesn't sleep»

A imensidão assombra-me, emociona-me. Esta magnitude dá-me alento, faz com que tudo à minha volta esteja vivo - e isso é bom.
Vagueio pelas ruas compridas e largas, deixando os meus pés governarem o caminho (deambular calmo de quem não tem pressa de ir embora). Posso até sentir a cidade a pulsar por debaixo deles, cheia de vontade de experienciar mais e melhor, a cidade para sempre enérgica, a que nunca pára. A cidade que nunca dorme, eternamente desperta.
O seu farol está há muito aceso, já guiou muitas almas perdidas ou sem esperança; ainda hoje guia. É como um fogo que não vacila, nunca extinto, que exerce uma qualquer atração que não se explica sobre quem sabe perceber essa beleza, essa fragilidade tão preciosa e segura, essa luz intemporal. Alguns conseguem respirar isso, há quem o sinta no ar - o fascínio, a expectativa, o mistério, o inesperado...É um dom.
E é então assim que se desmitifica a minha situação de adoração, de carinho genuíno por essa imagem contornada pelos prédios sem fim. É pela tentação de liberdade que ela acena ao longe, vista da ponte; é pela megalomania com que ela nos envolve, vista do cimo de um arranha-céus (lá bem no alto); é pela verdadeira mistura do que é inimaginável, um pedaço de cada mundo que eu procuro, num só (neste).
Noites infinitas de quietude, de movimento, de tudo e de nada. De saber exatamente o que se pretende, com a irresponsabilidade ingénua de o escolher. De ter a capacidade de escolher viver debaixo dessa luz tão brilhante que encandeia. Noites que são seguidas de dias ainda maiores, mais cheios, vívidos - e tudo se torna num sonho contínuo, brilhante. Enfeitiça.
A loucura jovem inebria os mais corajosos, os que se atrevem a viver nessa selva de possibilidades, nesse mar de asfalto que nunca cessa de correr (leva-nos na sua corrente, constantemente); qualquer coisa pode ser aqui alcançada, o céu, o sol, as estrelas...
Nunca foi fácil, nunca será. Nem todos correm o risco de se embrenhar nesta dádiva em forma de cidade, são poucos os que entram conscientemente neste vício da alma. Mas nos seus quatro cantos, a maravilha não acaba, a surpresa não finda de surgir de diversas maneiras. Segredo após segredo, ela revela-se na sua forma mais preciosa a quem se manteve fiel, como uma promessa intacta. 
No seu pulmão verdejante, em sossego; nas margens do seu rio; no seu centro, rodeada de caos gritante, na sua carismática azáfama, energia contagiante e elétrica ou lá bem no alto, onde o mundo parece estar à minha mercê, é onde gostaria de estar, neste momento.
O sonho não acaba por aqui...Fica por cumprir.

«If I can make it there, I'll make it anywhere...It's up to you, New York, New York»

24 janeiro, 2013

To Whom it May Concern

Muitas coisas podem acontecer numa simples volta da terra.
Nesse espaço de tempo, eu senti isto. Este algo que nunca pensei ser assim.
Saio à rua, e como após a tempestade, o mundo está mudado. Renasceu.
Inspiro este ar leve e fresco, com um travo da chuva que restou; o chão rachado mostra os vestígios do caos e da intempérie (milhares de pequenos reflexos aquáticos fitam-me do chão). As árvores foram revolvidas e acordaram de vez.
Durante um ano, as pessoas sofreram, riram, foram felizes. Perderam tudo, ganharam nada, viveram a sua vida. O tempo parou para si, mas serviu para perceberem que tudo à volta continuou na mesma...
O planeta ainda gira, os ciclos ainda se fecham e recomeçam, as pessoas caminham na rua, escolhem diversos caminhos, vão a sítios diferentes, de maneiras distintas. Ninguém fica sentado à espera de parar os ponteiros, presos numa sonolência triste de quem não consegue seguir em frente.
Sinceramente, não faço ideia de como cheguei aqui; tampouco o porquê, mas sinto o meu coração bater mais rápido a qualquer menção. O sorriso paira nos lábios a todas as horas do dia, porque está lá sempre.
Ao dormir, ao acordar, vence tudo. Apaga tudo o que devia restar.
Não sei sair daqui, mas também não o quero fazer. Sou feliz aqui, desta maneira, com este pequeno segredo que carrego comigo para todo o lado, como se fosse especial. Como se soubesse uma verdade que o mundo desconhece. Isso ilumina-me e dá-me alento quando me sinto sozinha. Porque agora, nunca o estou, realmente. Há sempre este fantasma de alguém por perto, há sempre a possibilidade do sonho - algo que não está perto nem longe, mas que eu sei que existe.
Um arrepio percorre-me de cada vez que me atrevo a contemplar o futuro, de cada vez que deixo o meu coração divagar para a lembrança do que ainda não aconteceu. Este laço de compromisso que me acompanha diariamente relembra-me da presença, mas também do que não tenho. Do que não posso ter.
Dou por mim a achar que estou louca, que isto não pode ser normal. Decerto que ninguém escolheria viver assim..Mas eu sei que, sem hesitar, faria essa escolha. A concentração dissipou-se há muito, a variedade também; só toca uma música na minha cabeça, o tempo todo. É só essa que quero ouvir, é só essa que me faz feliz. É só essa que quero.
Muitas coisas acontecem numa volta da terra, numa simples e esperada rotação.
Nesse curto espaço de tempo, aconteceu o meu medo mais desejado - eu senti isto. Este algo que nunca pensei ser possível, desta forma, este algo que me faz sentir viva. Que me faz sentir como se pudesse alcançar o céu estrelado, como se conseguisse ter força para reparar todos os estragos, apagar todos os fogos da alma...Este algo que me faz sentir assim, inteira.

07 janeiro, 2013

Dead Marshes

«There's a storm coming...»


Sinto a energia a escapar. Sinto a força a fugir pela ponta dos meus dedos.
Não tento enganar ninguém...Já não há nada aqui. O que restou?
 Réstias do que nunca chegou a existir. Sonharam demasiado alto...
A voz irónica fala-me ao ouvido, enchendo o meu espírito de veneno.
As palavras ácidas que fala são dolorosas, intoxicante-mente perturbadoras. 
Quero ouvir tudo, até ao fim. Para que doa, que queime, que comece do zero.
Mas ela pára e não me deixa; tortura-me com as imagens por pintar.
Este pântano está cheio de coisas que não vivem, já. As sombras andam aqui.
Os espíritos que já partiram, os corpos que ficaram onde não deviam...
Não me deixam sozinha. Não desaparecem, nunca. Insistem em assombrar-me.
Tento em vão soltar-me, continuar a andar, mas este chão traiçoeiro não me permite.
Faz-me ficar no sítio, rodeada de coisas que não quero ver - a realidade crua.
A crueldade, a simplicidade do mal, da peste do ser...Não foi com isto que sonhei.
A mágoa, o desespero, a liberdade de quem já não tem nada a perder...Não foi isto que quis.
Sonhámos com algo nobre, ambicioso, impiedoso (sim), mas não dessa forma;
Algo que tivesse um objetivo real, honesto, bom. Não era nossa intenção despertar o horror.
A tragédia horrível que aqui se viu e se vai ver sempre. O tempo passa, mas as marcas
Que o sangue brotado deixou, não passam. Os sulcos que as lágrimas choradas deixam,
Não desaparecem. A morte que por paira e respira, nunca se vai ausentar.
Como é que chegámos a isto? Como é que viemos aqui parar?
Pediram-nos para lutar, para não desistir, não encontrar a trégua do nosso coração. 
Mas essa trégua já não existe. Agora, já não se vislumbra o fim da monstruosidade.
Já não haverá esperança para nós e o mundo nunca deverá ser o mesmo.
A batalha foi perdida há muito, já ninguém se importa com os tambores por tocar...
O último suspiro, a última gota de suor, foram arruinados. Não há nada aqui a não ser a treva.
Sinto a energia a escapar. Sinto a força a fugir pela ponta dos meus dedos.
Podíamos ter sido grandes, e em vez disso, fomos inconscientes. Fomos irresponsáveis, impulsivos.
No meio da destruição, onde já nem se vê a luz do sol, ficamos aqui, derrotados, sabendo que fomos
Humanos.

04 janeiro, 2013

The Girl with the Red Lips

«I was alone, falling free, trying my best not to forget»


O olhar está lá, o sorriso também pode estar.
O pensamento está longe, distante daqui.
Esse sítio onde habitas é escuro, sozinho.
Assustador até. Assustadoramente abandonado.
Não tenho a certeza como foste aí parar, mas
Acho que percebo. Tudo isso te arrastou ao fundo.
Gostava de te estender a mão, gostava de poder 
Dizer-te que te vou ajudar; que vai tudo ficar bem.
Mas não consigo...Essas águas onde te afogas são profundas
Demais, o local onde passas os teus dias é demasiado longínquo.
Entraste nesse transe e a espiral que te rodeia roda muito rápido:
Já não te é possível ver a felicidade, o que é bom, simples.
O que vale a pena, o que te manterá, brevemente, à tona.
Dás um passo em falso e as paredes imediatamente desabam,
Perdes o teu rumo num segundo, e de repente, o negro da tua alma aparece.
A revolta, a incerteza, a vulnerabilidade, a fraqueza, a vontade de desistir
Voltam a ti, voltam a roubar o que não devia ser tirado.
Até aqui, até agora eles conseguem! Mesmo quando tinhas uma quase esperança,
Eles têm o prazer de destruir o que lentamente tentaste juntar.
O que lentamente conseguiste ignorar, riscar da tua vida, paira aqui e ri-se da ingenuidade.
Ri-se da tua vã tentativa de escolher o teu caminho longe da poeira, do som, da tristeza.
Gostava de poder gritar, de te fazer ver o que ainda é bom, e feliz.
E simples. Queria fazer-te ver o que te pode trazer à tona, permanentemente.
Mas escolhes involuntariamente voltar sempre a esse sítio, a essa memória.
Ao que não tem saída, ao que te irá afogar de vez. Ao que te levará para longe.
Começas a cair, e continuas, sempre em queda livre, até que o impacto te silencie.
Vais tentar gritar, então, fazer todo o barulho que conseguires.
Vais fazer-te ouvir, vais fazê-los abrir os olhos, mas ninguém repara.
Esses que te rodeiam, que fingem ver-te, não estão de facto a fazê-lo.
Ninguém vai parar, ninguém vai perder tempo a tirar-te da água.
O olhar já não vai estar, sequer. O sorriso há muito terá desaparecido...


Vou tentar o meu melhor. Quando estiveres prestes a virar as costas,
Vou fazer-te ficar. Vou abrir-te esses olhos cheios de mágoa e vou dizer-te:
Vale a pena. Vales a pena. Fica.