28 janeiro, 2013

The Girl with the Green Dress

«Haven't you noticed me drifting, oh let me tell you I am...»


De maneira diferente, também tu vais em queda livre. Mas é mais suave, prolongada.
O sorriso está lá sempre, o olhar também, mesmo que triste. Mesmo que perdido em velhas recordações do que, infelizmente, já não volta, embora percas o teu finito tempo a acreditar que sim. Essa fé que nunca vacila destrói-te aos poucos...Quando acabar, não há mais luz em ti.
Ergueste as muralhas à tua volta, demasiado espessas, demasiado protetoras - e agora gostarias de gritar por ajuda, mas não sabes como pôr fim a essa segurança que escolheste criar. Contra o quê?! Mesmo que elas não existissem, ias decidir-te pelo silêncio; ele não causa piedade ou misericórdia em olhos também sofridos, ele não vem trazer o desassossego de alma que as palavras carregam consigo, ele não atiça o fogo que apesar de tudo ainda vai queimando lentamente o âmago do teu ser (des)iludido.
Estado de espírito enevoado é tudo o que conheces desde o início, mas o sofrimento de saber trouxe-te pelo menos a calma doentia do não-desconhecido. A realidade desde muito cedo atormentou a tua vida (demasiado cedo), já não te é possível perceber como é sonhar sem ter esse peso em cima dos ombros, que te vai empurrando para baixo, até não haver outro sítio senão o chão. Sonhavas com a liberdade, com o escape desse pesadelo tão próximo, com um paraíso irreal que precisava de existir num futuro utópico, para conseguires continuar. Com um paraíso onde houvesse espaço para seres feliz...
Gostava de acreditar que alguém te vai estender a mão em breve, que alguém vai parar, vai reparar nessas paredes tão altas que te rodeiam e destroçam o coração, e que vão mandá-las abaixo pela simples força de querer, de tentar ajudar quem se afoga há muito.
É inacreditável como, de uma maneira ou de outra, te encontras sempre nessa ténue linha entre a paz e a miséria, entre a alegria e a tristeza de viver assim - as reviravoltas abruptas do teu mundo deixam-te sem saber como prosseguir, como mudar o que não está certo. Como encontrar finalmente o santuário que tanto procuras. Essa maneira imprudente de ser, de te importares, vai mudando, vai-se alterando consoante o vento passa e te empurra quer para uma margem, quer para outra (perigosamente no precipício de cair). A vontade vai mudando, mas o vazio permanece. Inevitavelmente.
De cada vez que consegues erguer um pedaço de algo bom, algo teu, uma qualquer onda surge e arrasa o que demorou tanto tempo a levantar. Condena-te a recomeçar com o que sobrou, uma e outra vez, num ciclo interminável. Os outros riem-se da tua inocência, da tua capacidade de ver o que poderia existir, se as pessoas quisessem. Troçam da tua inútil vontade de continuar a tentar, após tudo o que veio. Da tua luta contra a maré, para te manteres à tona, quando tudo já está afundado à tua volta.
O sorriso ainda está, o olhar também, mesmo que cansado, mas o pensamento está carregado de chuva que arde e que aniquila a possibilidade de sol. 

Gostaria de saber que alguém se lembrou de ti, que alguém escolheu ajudar-te a subir essas ruínas que te acompanham, isolando-te. 
Queria que alguém te dissesse que vale a pena, que vales a pena. Para ficares e não deixares a esperança ir embora outra vez. Espero que acredites.

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