03 maio, 2011
01 maio, 2011
Pano de Fundo
«I never heard silence quite this loud...»
Ruídos familiares são repetidos maquinalmente.
Mais nada se ouve para além desta tensão ruidosa.
É tão macabra a sensação de estar aqui sentada, civilizadamente, rodeada de algo que pode ser simplesmente descrito como hipocrisia palpável.
É tão irónico que por dentro rio às gargalhadas. Rio até ser tão dolorosamente engraçado, que já não tem piada nenhuma.
Pergunto-me vezes e vezes sem conta se isto está de facto a acontecer. Se não é um sonho.
Mas já não aguento este silêncio fingido. A música classicamente associada a situações de delírio continua a tocar no fundo, a mergulhar tudo o resto em silêncio ainda mais pesado.
Só me apetece levantar-me e ir-me embora. Melhor; apetece-me fazer aquilo que nunca é feito, apetece-me levantar-me e gritar bem alto aquilo que todos podem estar a pensar.
Todos o sabem, todos pensam nisso, mas ninguém se atreve a falar. Ninguém ousa sequer imaginar tal catástrofe.
É preciso levantar-me agora e finalmente soltar o eco que está cá dentro,
Cá dentro sempre a repetir o que eu quero ouvir. Aquilo que eu preciso de dizer.
E a verdade que quer tão desesperadamente brotar de mim é só uma: acabem com as mentiras! Acabem com a farsa de hipocrisia que vos cobre o rosto. Estas paredes já estão manchadas com segredos, estas memórias já estão desgastadas com ódio e revolta silenciosa.
Porque eu preferia muito mais um cenário depois da guerra do que este momento decerto imaginado por mim. Este momento parado no tempo, (monótono) que me faz pensar que estou claramente insana. Que algo de muito errado se passa.
Porque este espetáculo aterradormente atroz não pode existir. Nunca existiu...
Nós, aqui, dentro destas quatro paredes, a agir como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse bem. Como se não estivesse tudo corroído com a miséria.
Nós aqui a dissimular estabilidade enquanto os violinos tocam, no pano de fundo.
Ruídos familiares são repetidos maquinalmente.
Mais nada se ouve para além desta tensão ruidosa.
É tão macabra a sensação de estar aqui sentada, civilizadamente, rodeada de algo que pode ser simplesmente descrito como hipocrisia palpável.
É tão irónico que por dentro rio às gargalhadas. Rio até ser tão dolorosamente engraçado, que já não tem piada nenhuma.
Pergunto-me vezes e vezes sem conta se isto está de facto a acontecer. Se não é um sonho.
Mas já não aguento este silêncio fingido. A música classicamente associada a situações de delírio continua a tocar no fundo, a mergulhar tudo o resto em silêncio ainda mais pesado.
Só me apetece levantar-me e ir-me embora. Melhor; apetece-me fazer aquilo que nunca é feito, apetece-me levantar-me e gritar bem alto aquilo que todos podem estar a pensar.
Todos o sabem, todos pensam nisso, mas ninguém se atreve a falar. Ninguém ousa sequer imaginar tal catástrofe.
É preciso levantar-me agora e finalmente soltar o eco que está cá dentro,
Cá dentro sempre a repetir o que eu quero ouvir. Aquilo que eu preciso de dizer.
E a verdade que quer tão desesperadamente brotar de mim é só uma: acabem com as mentiras! Acabem com a farsa de hipocrisia que vos cobre o rosto. Estas paredes já estão manchadas com segredos, estas memórias já estão desgastadas com ódio e revolta silenciosa.
Porque eu preferia muito mais um cenário depois da guerra do que este momento decerto imaginado por mim. Este momento parado no tempo, (monótono) que me faz pensar que estou claramente insana. Que algo de muito errado se passa.
Porque este espetáculo aterradormente atroz não pode existir. Nunca existiu...
Nós, aqui, dentro destas quatro paredes, a agir como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse bem. Como se não estivesse tudo corroído com a miséria.
Nós aqui a dissimular estabilidade enquanto os violinos tocam, no pano de fundo.
30 abril, 2011
Salvação
«Help me if you can, it's just that this is not the way I'm wired...»
Como posso assistir a isto, dia após dia?
Noite após noite adormeço a pensar se
Será nisto que a minha vida se vai transformar
E só peço aos céus, rezo com fervor para que
Tenham misericórdia de mim.
Vejo-me a atravessar este compartimento
Enorme, a comparar com a vida em mim,
E penso que não pode ser só isto que existe.
Não pode acabar por aqui, não pode ser só
Isto que resta. O que restou, sem ti.
Talvez tenha de procurar mais fundo,
Tentar com mais vontade. Está bem escondido.
Aquilo que quero, aquilo que preciso de encontrar.
Algo que me faça querer respirar este mesmo ar.
Algo que me faça sentir, de todo.
Estaco no meio do quarto. Esta não sou eu.
Não é a pessoa que um dia já fui, pelo menos.
Quero isso de volta. Quero essa vontade de viver,
Quero apagar as chamas da dor que me queima por dentro,
E encontrar o que foi perdido, sem querer.
Passo a passo, caminho para este abismo inevitável.
Mas algo tem de mudar, rapidamente, antes que seja tarde.
Antes que te mate, antes que te afogue nessa mágoa que
Faz com que respirar seja mais custoso. Mais cruel.
Rezo agora por ajuda, por um salvamento definitivo.
Sei que não quero continuar, mas sei também que
Se não continuar a marchar em direcção ao precípicio,
Nada vai mudar. Nada me vai manter aqui. Nada.
Não vai valer a pena, nunca mais.
Imploro-te, não assistas a esta morte lenta e demorada.
Não assistas a este final silencioso, pacificamente.
Já é impossível apagares estas lágrimas gravadas
Na minha face, de tanto querer que me ajudes.
Já não é possível ver-te daqui, a sofreres por mim,
A quereres fazer alguma coisa, algo que alivie este
Meu coração partido.
Algo que me faça voltar à vida.
Como posso assistir a isto, dia após dia?
Noite após noite adormeço a pensar se
Será nisto que a minha vida se vai transformar
E só peço aos céus, rezo com fervor para que
Tenham misericórdia de mim.
Vejo-me a atravessar este compartimento
Enorme, a comparar com a vida em mim,
E penso que não pode ser só isto que existe.
Não pode acabar por aqui, não pode ser só
Isto que resta. O que restou, sem ti.
Talvez tenha de procurar mais fundo,
Tentar com mais vontade. Está bem escondido.
Aquilo que quero, aquilo que preciso de encontrar.
Algo que me faça querer respirar este mesmo ar.
Algo que me faça sentir, de todo.
Estaco no meio do quarto. Esta não sou eu.
Não é a pessoa que um dia já fui, pelo menos.
Quero isso de volta. Quero essa vontade de viver,
Quero apagar as chamas da dor que me queima por dentro,
E encontrar o que foi perdido, sem querer.
Passo a passo, caminho para este abismo inevitável.
Mas algo tem de mudar, rapidamente, antes que seja tarde.
Antes que te mate, antes que te afogue nessa mágoa que
Faz com que respirar seja mais custoso. Mais cruel.
Rezo agora por ajuda, por um salvamento definitivo.
Sei que não quero continuar, mas sei também que
Se não continuar a marchar em direcção ao precípicio,
Nada vai mudar. Nada me vai manter aqui. Nada.
Não vai valer a pena, nunca mais.
Imploro-te, não assistas a esta morte lenta e demorada.
Não assistas a este final silencioso, pacificamente.
Já é impossível apagares estas lágrimas gravadas
Na minha face, de tanto querer que me ajudes.
Já não é possível ver-te daqui, a sofreres por mim,
A quereres fazer alguma coisa, algo que alivie este
Meu coração partido.
Algo que me faça voltar à vida.
25 abril, 2011
April Rain
It's so peaceful. It's so quiet here.
I stand now, oblivious, in the middle of nowhere.
I stare at the sky welcoming a dark storm and I feel whole.
I feel like I have nothing to lose.
I hear the wind whispering through the trees, making me feel happy. Safe.
I stay here and nothing else matters. The world is now still, no one dares to move. No one dares to breathe.
Time stopped and somehow, old forgotten songs come back to me. They travelled through my planet and then returned to me, in order to make me smile, even when there's no rain pouring down.
I wish I owned the sea. I would be near it all the time, forever. Enjoying the bliss that comes along with the breeze. Enjoying the sight of other people running from the storm.
Hiding from the wonderful April rain.
The same rain that fills me with joy and makes me believe that everything and anything is possible. That my dreams are just around the corner, waiting for me to arrive.
The same rain that will bring you back to me. Someday.
I stand now, oblivious, in the middle of nowhere.
I stare at the sky welcoming a dark storm and I feel whole.
I feel like I have nothing to lose.
I hear the wind whispering through the trees, making me feel happy. Safe.
I stay here and nothing else matters. The world is now still, no one dares to move. No one dares to breathe.
Time stopped and somehow, old forgotten songs come back to me. They travelled through my planet and then returned to me, in order to make me smile, even when there's no rain pouring down.
I wish I owned the sea. I would be near it all the time, forever. Enjoying the bliss that comes along with the breeze. Enjoying the sight of other people running from the storm.
Hiding from the wonderful April rain.
The same rain that fills me with joy and makes me believe that everything and anything is possible. That my dreams are just around the corner, waiting for me to arrive.
The same rain that will bring you back to me. Someday.
16 abril, 2011
Breaking Free
Algo novo, algo não anunciado nasce dentro de mim.Um elemento estranho, pouco familiar gera-se no meu ventre.
Alguma coisa borbulha de novidade pelas minhas veias até estalar no meu coração.
Escrevo agora torto em linhas tortas e não me importo. Já percebi que a perfeição não se alcança.
Já percebi que a perfeição não é algo a que tenhamos acesso. Por muito que implorem, por muito que gritem, por muito que peçam, por muito que rezem.
Essa perfeição que nos enche os sonhos desde que nos lembramos é apenas uma ilusão. É apenas algo que nos faz querer mais, até nos conduzir a uma tortura lenta e a uma morte certa. Não só física, é claro.
Agora já não me esforço por me conter dentro destas correntes que me impediam não de ser livre, mas de pensar por mim. Que me impediam de dar um passo para fora das linhas estabelecidas.
Queriam que a minha vida fosse de alguma maneira a preto e branco. Queriam ter todos os segundos planeados, tudo preparado de maneira a que nada me fizessse alguma vez acordar desta dormência.
Tiraram-me tanto, que já nem os sonhos são meus. Mas isso chegou ao fim. Algo aconteceu. Algo que despertou. Algo que já não pode ser silenciado.
Assim, atiro para trás das costas o futuro e os planos, atiro a vossa opinião nunca pedida e os vossos falsos julgamentos, que me atormentaram durante tanto tempo. Assim, ganho asas e alcanço o céu. Alcanço as estrelas e a lua e tudo o que eu quiser.
Não queriam que vivesse na dura e sóbria realidade? Pois aí a têm. Cansei-me de tudo e antes que fosse tarde de mais, revoltei-me.
Senti que algo dentro de mim nascia. Algo inesperado e necessário.
E com isso, soltei-o dentro de mim com toda a sua força, observando a destruição que causava com a sua passagem.
Cansei-me de esperar pela perfeição, pela obsessão do que está certo. Cansei-me de ver que isso não tráz nada de novo. E assim, deixei-me tomar por algo que não controlo.
Deixei-me possuir por este novo desejo de ser aquilo que nunca fui. De ser aquilo que nunca ousei ser.
Quis quebrar todos os vidros que continham a minha essência, quis derrubar todos os muros que protegiam a minha vida, amarrada a algo que já não existe.
Quis uma mudança drástica daquilo a que chamava vida. Agora, aqui só há o vazio. Já não me encontram neste sítio, controlado, encurralado.
Se perguntarem por mim, digam que voei.
[Frases a itálico: Mia Couto e Alice Vieira]
13 abril, 2011
Coração Negro
Acusaram-me de ter um coração negro. Um coração que no fundo, apesar de ser normal, se apresenta no fim da sua vida.
É um coração que sente (mas pouco);
É um coração que bate (lentamente);
É um coração que vive, indeterminadamente.
Este meu coração é capaz de sentir amor, é capaz de sentir compaixão. É capaz de sentir medo e raiva (muita raiva).
Este coração é capaz até de sentir paz (embora reconheça a guerra constante à sua volta).
Mas se eu tenho um coração negro, alguém o criou. Eu não nasci assim.
Até eu já fui, outrora, resistente ao cepticismo e ao cinismo. Também eu já fui contra essa membrana que nos serve para impedir o mal de entrar. Ou o bem de sair?...
E agora? Agora o que resta é um coração (mal) usado. Agora o que sobra é algo que já nem reconheço. É algo que, eventualmente, me irá acabar por matar.
Olho à minha volta e percebo que se não fugir em breve, vou ser apenas um ser automato, sem alma, sem vida em mim.
Sem ouvidos que me liguem ao mundo exterior;
Sem olhos para ver a beleza restante que me prendia à humanidade;
Sem boca que servia, no mínimo, para me expressar (o que impedia o coração de implodir, até não restar nada).
Em breve ficarei aqui, ser que vagueia pela terra, simplesmente para não parar de todo. Ser que respira porque não consegue retirar o ar dos pulmões poeirentos, nem que consegue lembrar-se da última vez que viu, ouviu ou falou. Da última vez que sonhou sem ver os seus sonhos desfeitos, totalmente destruídos à sua frente.
Como é que a vida (isto a que chamarei vida) poderá significar alguma coisa para mim? Eu não vou sentir nada (nunca no sentido verdadeiro de sentir) nem nunca sairei do mesmo sítio, por muitos quilómetros que tente percorrer.
Condenada a cair pelo mesmo precípicio, vezes e vezes sem conta, nunca vou encontrar o seu fundo, por mais que queira. Por mais que reze e peça aos céus para que isto acabe.
Com este vislumbre de um futuro sombrio, tento agarrar-me à esperança que (por agora) ainda tenho, sabendo que se não o fizer, mais ninguém o fará por mim.
E sinto que se não escapar agora às garras cegueira e da injustiça, vou ver essa oportunidade a levantar vôo e a deslizar por entre os meus dedos.
Sentada no chão, sem conseguir respirar, fico a ver o meu reflexo, pensando se algum dia o meu coração deixará de ser negro. Porque pensava que a raiva já tinha ido toda embora. Pensava que a revolta já tinha escorrido toda para fora do meu peito, e no entanto, durante todo este tempo, ficaram dentro de mim, a manchar o meu coração de algo que não me pertence.
De algo que não me devia pertencer.
E se sei que este coração não é meu (por direito) e que ainda bate (por pouco), sei pelo menos que o negro que o preenche, nunca irá desaparecer.
['Coração Negro' - ideia fornecida por B.V. Obrigada pela inspiração!]
É um coração que sente (mas pouco);
É um coração que bate (lentamente);
É um coração que vive, indeterminadamente.
Este meu coração é capaz de sentir amor, é capaz de sentir compaixão. É capaz de sentir medo e raiva (muita raiva).
Este coração é capaz até de sentir paz (embora reconheça a guerra constante à sua volta).
Mas se eu tenho um coração negro, alguém o criou. Eu não nasci assim.
Até eu já fui, outrora, resistente ao cepticismo e ao cinismo. Também eu já fui contra essa membrana que nos serve para impedir o mal de entrar. Ou o bem de sair?...
E agora? Agora o que resta é um coração (mal) usado. Agora o que sobra é algo que já nem reconheço. É algo que, eventualmente, me irá acabar por matar.
Olho à minha volta e percebo que se não fugir em breve, vou ser apenas um ser automato, sem alma, sem vida em mim.
Sem ouvidos que me liguem ao mundo exterior;
Sem olhos para ver a beleza restante que me prendia à humanidade;
Sem boca que servia, no mínimo, para me expressar (o que impedia o coração de implodir, até não restar nada).
Em breve ficarei aqui, ser que vagueia pela terra, simplesmente para não parar de todo. Ser que respira porque não consegue retirar o ar dos pulmões poeirentos, nem que consegue lembrar-se da última vez que viu, ouviu ou falou. Da última vez que sonhou sem ver os seus sonhos desfeitos, totalmente destruídos à sua frente.
Como é que a vida (isto a que chamarei vida) poderá significar alguma coisa para mim? Eu não vou sentir nada (nunca no sentido verdadeiro de sentir) nem nunca sairei do mesmo sítio, por muitos quilómetros que tente percorrer.
Condenada a cair pelo mesmo precípicio, vezes e vezes sem conta, nunca vou encontrar o seu fundo, por mais que queira. Por mais que reze e peça aos céus para que isto acabe.
Com este vislumbre de um futuro sombrio, tento agarrar-me à esperança que (por agora) ainda tenho, sabendo que se não o fizer, mais ninguém o fará por mim.
E sinto que se não escapar agora às garras cegueira e da injustiça, vou ver essa oportunidade a levantar vôo e a deslizar por entre os meus dedos.
Sentada no chão, sem conseguir respirar, fico a ver o meu reflexo, pensando se algum dia o meu coração deixará de ser negro. Porque pensava que a raiva já tinha ido toda embora. Pensava que a revolta já tinha escorrido toda para fora do meu peito, e no entanto, durante todo este tempo, ficaram dentro de mim, a manchar o meu coração de algo que não me pertence.
De algo que não me devia pertencer.
E se sei que este coração não é meu (por direito) e que ainda bate (por pouco), sei pelo menos que o negro que o preenche, nunca irá desaparecer.
['Coração Negro' - ideia fornecida por B.V. Obrigada pela inspiração!]
02 abril, 2011
Silenciada
«Cause these boys only listen to me when I sing, and I don't feel like singing tonight, all the same songs..»«Não posso viver fechado numa sala de pânico / amordaçado, sem poder soltar o meu cântico / que me mantém único e autêntico...»
«Kiss today goodbye, the sweetness and the sorrow..»
«We all got a song that we're meant to sing...»
«Please, please, please let me get what I want, this time...»
Amordaçada, temporariamente. Sem voz para me expressar, sem vontade de ver o mundo noutro tom para além do cinzento, espero na escuridão pelas luzes que irão iluminar o meu caminho de volta a mim. Descansa.
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