Acusaram-me de ter um coração negro. Um coração que no fundo, apesar de ser normal, se apresenta no fim da sua vida.
É um coração que sente (mas pouco);
É um coração que bate (lentamente);
É um coração que vive, indeterminadamente.
Este meu coração é capaz de sentir amor, é capaz de sentir compaixão. É capaz de sentir medo e raiva (muita raiva).
Este coração é capaz até de sentir paz (embora reconheça a guerra constante à sua volta).
Mas se eu tenho um coração negro, alguém o criou. Eu não nasci assim.
Até eu já fui, outrora, resistente ao cepticismo e ao cinismo. Também eu já fui contra essa membrana que nos serve para impedir o mal de entrar. Ou o bem de sair?...
E agora? Agora o que resta é um coração (mal) usado. Agora o que sobra é algo que já nem reconheço. É algo que, eventualmente, me irá acabar por matar.
Olho à minha volta e percebo que se não fugir em breve, vou ser apenas um ser automato, sem alma, sem vida em mim.
Sem ouvidos que me liguem ao mundo exterior;
Sem olhos para ver a beleza restante que me prendia à humanidade;
Sem boca que servia, no mínimo, para me expressar (o que impedia o coração de implodir, até não restar nada).
Em breve ficarei aqui, ser que vagueia pela terra, simplesmente para não parar de todo. Ser que respira porque não consegue retirar o ar dos pulmões poeirentos, nem que consegue lembrar-se da última vez que viu, ouviu ou falou. Da última vez que sonhou sem ver os seus sonhos desfeitos, totalmente destruídos à sua frente.
Como é que a vida (isto a que chamarei vida) poderá significar alguma coisa para mim? Eu não vou sentir nada (nunca no sentido verdadeiro de sentir) nem nunca sairei do mesmo sítio, por muitos quilómetros que tente percorrer.
Condenada a cair pelo mesmo precípicio, vezes e vezes sem conta, nunca vou encontrar o seu fundo, por mais que queira. Por mais que reze e peça aos céus para que isto acabe.
Com este vislumbre de um futuro sombrio, tento agarrar-me à esperança que (por agora) ainda tenho, sabendo que se não o fizer, mais ninguém o fará por mim.
E sinto que se não escapar agora às garras cegueira e da injustiça, vou ver essa oportunidade a levantar vôo e a deslizar por entre os meus dedos.
Sentada no chão, sem conseguir respirar, fico a ver o meu reflexo, pensando se algum dia o meu coração deixará de ser negro. Porque pensava que a raiva já tinha ido toda embora. Pensava que a revolta já tinha escorrido toda para fora do meu peito, e no entanto, durante todo este tempo, ficaram dentro de mim, a manchar o meu coração de algo que não me pertence.
De algo que não me devia pertencer.
E se sei que este coração não é meu (por direito) e que ainda bate (por pouco), sei pelo menos que o negro que o preenche, nunca irá desaparecer.
['Coração Negro' - ideia fornecida por B.V. Obrigada pela inspiração!]
1 comentário:
bela inspiração :)
está bastante bom , continua <3
Rita
Enviar um comentário