16 abril, 2011

Breaking Free

Algo novo, algo não anunciado nasce dentro de mim.
Um elemento estranho, pouco familiar gera-se no meu ventre.
Alguma coisa borbulha de novidade pelas minhas veias até estalar no meu coração.
Escrevo agora torto em linhas tortas e não me importo. Já percebi que a perfeição não se alcança.
Já percebi que a perfeição não é algo a que tenhamos acesso. Por muito que implorem, por muito que gritem, por muito que peçam, por muito que rezem.
Essa perfeição que nos enche os sonhos desde que nos lembramos é apenas uma ilusão. É apenas algo que nos faz querer mais, até nos conduzir a uma tortura lenta e a uma morte certa. Não só física, é claro.
Agora já não me esforço por me conter dentro destas correntes que me impediam não de ser livre, mas de pensar por mim. Que me impediam de dar um passo para fora das linhas estabelecidas.
Queriam que a minha vida fosse de alguma maneira a preto e branco. Queriam ter todos os segundos planeados, tudo preparado de maneira a que nada me fizessse alguma vez acordar desta dormência.
Tiraram-me tanto, que já nem os sonhos são meus. Mas isso chegou ao fim. Algo aconteceu. Algo que despertou. Algo que já não pode ser silenciado.
Assim, atiro para trás das costas o futuro e os planos, atiro a vossa opinião nunca pedida e os vossos falsos julgamentos, que me atormentaram durante tanto tempo. Assim, ganho asas e alcanço o céu. Alcanço as estrelas e a lua e tudo o que eu quiser.
Não queriam que vivesse na dura e sóbria realidade? Pois aí a têm. Cansei-me de tudo e antes que fosse tarde de mais, revoltei-me.
Senti que algo dentro de mim nascia. Algo inesperado e necessário.
E com isso, soltei-o dentro de mim com toda a sua força, observando a destruição que causava com a sua passagem.
Cansei-me de esperar pela perfeição, pela obsessão do que está certo. Cansei-me de ver que isso não tráz nada de novo. E assim, deixei-me tomar por algo que não controlo.
Deixei-me possuir por este novo desejo de ser aquilo que nunca fui. De ser aquilo que nunca ousei ser.
Quis quebrar todos os vidros que continham a minha essência, quis derrubar todos os muros que protegiam a minha vida, amarrada a algo que já não existe.
Quis uma mudança drástica daquilo a que chamava vida. Agora, aqui só há o vazio. Já não me encontram neste sítio, controlado, encurralado.
Se perguntarem por mim, digam que voei.

[Frases a itálico: Mia Couto e Alice Vieira]

4 comentários:

Anónimo disse...

É impressionante, desde o primeiro indício de vida de um ser são construídos planos à sua volta, sonhos (inacabados) de outrem que os fazem tão nossos que nem ousamos duvidar. Idealizam, não uma, mas A imagem a teu respeito, sentes a pressão de seguires os "teus" sonhos, de os preencheres, pois é obvio que só te sentirás realmente feliz quando os realizares. Ah, esses sonhos que te encorralam mais e mais, por cada passo que dás na sua direcção, e continuas a encorralar-te até perceberes que esses sonhos, esses ideais de perfeição que foram sendo construidos ao longo do teu caminho, que te foram incutidos, não eram de todo teus, e até lá, vives na maior das ilusões, és miserável.

O maior feito do ser humano é perder o medo de voar!

Anónimo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Carmo disse...

Sair do anonimato, percorrer o rumo que nos traçam e aceitar as adversidades... por mais complicado, díficil e injusto que seja, nós, humanos destinados ao que não queremos, temos de saber contornar o que de pior nos fazem e o que de mais tétrico nos acontece... Porque só assim podemos ''adormecer'' em paz, em profunda certeza de que antes de amármos alguém, nos amamos a nós próprios. Cá eu, na minha racionalidade demasiadamente exercida, limito-me a voar quando durmo, quando sonho ou simplesmente quando vejo alguém que amo a sorrir! :')

Diogo Garcia disse...

Às vezes estamos reticentes a uma leitura de qualquer tipo...mas como tu já disseste: ainda bem que li este texto. Para mim um dos melhores de sempre - o melhor da "actualidade". O texto está perfeito, no seu todo. Às vezes quando lemos\escrevemos temos a sensação de estar a ler\escrever algo que já foi de alguma forma frisado...mas não neste caso, o que escreveste foi único e isso não tem valor. Desta vez é a minha vez de dizer: amei o ritmo, amei a evolução do texto. O texto vai crescendo, numa espiral, até à altura da rebentação. As frases utilizadas encaixam mesmo à medida.
A perfeição pode não ser atingível, mas tu conseguiste aqui provar o contrário. Os meus parabéns.
Revolta-te contra o que achas que está errado, sempre!, e sê tu própria que é o teu melhor eu.
Mais uma vez fechaste com chave de ouro; e conseguiste sair, não fugir, mas sair, de um sítio onde não pertencias...A sério, amei.
You are a perfect circle, in your own way.

(Keep going...)
A re-sentir:
"Escrevo agora torto em linhas tortas e não me importo. Já percebi que a perfeição não se alcança."
"Cansei-me de esperar pela perfeição, pela obsessão do que está certo. Cansei-me de ver que isso não tráz nada de novo."
"Quis quebrar todos os vidros que continham a minha essência, quis derrubar todos os muros que protegiam a minha vida, amarrada a algo que já não existe."
(entre outros)