A janela aberta deixa-me relembrar
O inverno já por agora perdido.
Já passou e nada o traz de volta.
(Talvez a terra...)
Estou aqui no escuro e o vazio
Regressa. Não veio para ficar.
Traz-me notícias do mundo,
Imagens do que há p'ra viver.
Há uma certa doçura na inevitabilidade,
Na maneira como o planeta gira.
Sorrio ao pensar na vida, nas
Possibilidades que estão em nós.
(Ou estaremos nós nelas?)
Fecho os olhos porque não o vejo assim;
Não caminho dessa maneira, não falo
Como gostariam que falasse. Não me
Moldo à vossa vontade...Esse é o crime.
Apesar das trevas da noite, vejo tudo
Claramente, como se subitamente tivesse
Acordado de um sonho profundo e calmo.
Como se tivesse compreendido algo
(finalmente!).
O arrepio sobe pelos meus braços, pelo
Meu coração. Descobri o segredo do mundo,
Abri a caixa que todos insistem em fechar.
Não o posso deixar ir, nunca mais. Nunca.
Estou imersa na quietude das horas mortas,
Em que todos dormem quando deviam viver;
Em que todos abraçam o sono como a paz
Aguardada durante o dia. Há paz aqui...
Sinto o mundo estático, à minha mercê.
À espera da minha ordem para retomar o
Seu caminho - está parado, porque também
O tempo está. Ninguém está por perto neste momento
(só eu e a música).
O vazio não durou muito. Foi substituído
Por algo que não consigo compreender, ainda.
Uma calma suave, uma alegria tímida iminente,
Um pouco de vida, um pouco de tudo o que falta.
E o que falta, depois de tudo? Depois do barulho,
Depois da guerra, depois do ódio, depois do gasto
Ridículo do precioso tempo? O que resta, pois, senão
O maior segredo de todos, a fonte que ainda brota?
O que de facto interessa, embora ainda seja subestimado -
A ideia de amar, a capacidade de ser amado e todas as
Variáveis que advêm da beleza inerente ao ser humano;
O amor e o que ele faz por nós, dando-nos alma, dando-nos vida.
(quer doa ou faça sorrir)
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