30 março, 2010

O Inimaginável Mundo

[Continuação de O Início]

Estou noutra dimensão.
Estou longe do sítio de onde vim.
Muito longe.
Embora não tenha a certeza de onde vim.
Onde era aquela sala que continha a minha essência, a minha vida?
Já não interessa.
Dou um passo em frente que consolida a minha decisão.
O ar é muito abafado e quase consigo sentir chamas abrasadoras
A tocarem-me superficialmente.
O chão é árido e seco e nem com toda a água do meu mundo ele ficaria saudável.
Não se vê ninguém à volta e o ar é tão pesado que tenho de parar para respirar.
De repente começa a chover fogo e tenho de me abrigar num alpendre de uma casa abandonada e bastante velha.
Este sítio será habitável? Porque não parece habitado.
Entro da casa que tem tábuas a tapar as janelas.
O rádio está ligado e pergunto-me se estará alguém em casa.
Deve estar.
Ouço barulhos vindos de outra divisão e dirijo-me para lá.
Vejo o que poderia ser um jantar normal de família.
Simplesmente não é porque cada um está ocupado com as suas coisas, sem reparar nas outras pessoas. Porque se dão ao trabalho de estar na mesma mesa?
Há gente a falar ao telefone, outros a ler revistas ou a enviar mensagens.
Já todos pararam de fingir, de criar o ambiente que no meu planeta ainda é mantido por uma questão de segurança.
Já abraçaram o seu lado egoísta e podem finalmente ser eles próprios.
Pigarreio e aceno, mas quando eles olham para mim vejo as suas expressões a mudar.
Não de falso choque ou embaraço, mas sim de pura descrença e quase inveja.
Olho para baixo e constato que estou nua aos olhos de todos.
Evito um grito de vergonha e saio a correr.
A chuva já abrandou e atrevo-me a caminhar debaixo dela. Estranhamente é libertador.
Olho à volta, e embora tudo pareça abandonado, não há sinais de destruição.
Agora há mais gente na rua que me olha com assombro, com admiração. Não há reprovação nos seus olhares.
Porque eu sou transparente, e apesar de vir de um planeta poluído, eu sou sã.
Sou transparente das coisas que eles gostariam de poder esquecer. Porque já se entregaram à luxúria, à dúvida, à inveja, ao egoísmo, ao fútil. E agora já não conseguem pensar sequer noutras coisas senão o próprio ser.
Pela primeira vez questiono se de facto este era o meu caminho certo para mim.
Estou sozinha, perdida, nua e por mais roupas que vista, continuo destapada.
Claro que este é o caminho. De outra forma, não me faria questioná-lo.
E então percebo.
Este é o meu mundo, se lhe tirarmos toda a beleza, tabus, hipocrisia, engano, aparências...
Aqui já não é preciso fingir que nos importamos.
Aqui já não é necessário darmos uso à falsidade, mentira e etiqueta.
Isto é o inimaginável mundo que eu sempre vi.
Aqui é onde eu realmente pertenço porque sempre consegui conviver à parte de um universo corrupto.
Porque fui eu que o construí, e embora não o saiba, foi feito à imagem da minha utopia. Se temos um mundo degradado, ao menos que se acabem com as farsas!
Isto é o meu inimaginável mundo e faz parte do não-imaginado, que há em mim.

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