Grito aos sete ventos.
Grito o que mais ninguém ouve.
Grito o que sinto. Solto-o cá para fora.
Sou olhada, mas não vista.
Sou ouvida, mas não escutada.
Mexo-me, mas não sou notada.
Aí está a chave.
Não perguntes, lê nas entrelinhas!
Está lá tudo o que precisas.
Está lá o que o uma voz me sussurra ao ouvido,
Todos os dias.
Uma voz que vem de dentro.
Voz que tento combater, que tento esmorecer, mas não consigo.
Porque se alimenta das minhas fraquezas, das minhas incertezas.
Ninguém me consegue ler, e no entanto, eu escrevo-me
Várias vezes, tantas vezes...
Percebe, por favor, percebe-me!
Eu não sou assim tão indefinida.
Eu não sou assim tão complexa.
Só peço que leias o que lá está, o que eu não te posso dizer.
Tens de descobrir por ti próprio.
Já aprendi finalmente a comunicar.
Ou melhor, reaprendi esse instrumento que me tem ajudado
A ajudar. E a ser ajudada.
Não sei porque é que o esqueci ou pus de parte,
Mas agora que o tenho de volta, tenho de o praticar.
Ajudas-me? Preciso mesmo que me descodifiques.
Já te dei todas as pistas possíveis, agora és tu que tens de perceber o resultado.
Mas nem há possibilidades infinitas...É básico.
Se somares dois com dois, onde quer que estejas, será sempre quatro.
Eu sou como essa soma.
Quanto mais dás, mais recebes. E eu não sou complicada, como vês.
Estou só à espera que alguém venha, e por milagre, me compreenda.
Me leia e diga que está tudo bem. Que é normal sentir-me assim.
Eu grito aos sete ventos.
Grito porque eles ouvem o que eu digo.
Grito porque eles me respondem com o que lhes disse,
E isso faz-me sentir menos sozinha, menos deslocada do contexto.
É verdade que sempre gostei de cruzar os limites e de ir mais além.
Passar as barreiras impostas. Mas tirando isso, sou fácil de entender.
Consegues ler-me, finalmente?
Basta perguntares ao vento, e ele dirá o que precisas de saber.
1 comentário:
Sei que demorei a comentar. Sinto-me patético. Se existe alguém que merece se comentado e lido, que merece um esforço da parte do leitor para ser compreendido, esse alguém és tu.
Este poema tem o ritmo perfeito. É um poema muito bonito que mistura uma nostalgia embrulhada em tristeza e felicidade, luta e saudade. Está perfeito. Continua a gritar ao sete ventos, nunca deixes de escrever por nada deste mundo, a tua escrita é fabulosa e faz muita falta ao mundo, à sua maneira, quer pela sua beleza, sentido de honestidade, ideais de mudança, tudo.
Não somos assim tão complexos como nos mostramos ou como pensam de nós...nem tudo é o que parece, e nem tudo por vezes corre com planeado.
A reter:
"Sou olhada, mas não vista.
Sou ouvida, mas não escutada."
"Ninguém me consegue ler, e no entanto, eu escrevo-me
Várias vezes, tantas vezes..."
Já te li, e é normal sentires-te assim. Nunca penses que ninguém te vê, nunca.
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