30 março, 2012

29 março, 2012

Revelação

Reflito no escuro, de madrugada.
A janela aberta deixa-me relembrar
O inverno já por agora perdido.
Já passou e nada o traz de volta.
(Talvez a terra...)

Estou aqui no escuro e o vazio
Regressa. Não veio para ficar.
Traz-me notícias do mundo,
Imagens do que há p'ra viver.

Há uma certa doçura na inevitabilidade,
Na maneira como o planeta gira.
Sorrio ao pensar na vida, nas
Possibilidades que estão em nós.
(Ou estaremos nós nelas?)

Fecho os olhos porque não o vejo assim;
Não caminho dessa maneira, não falo
Como gostariam que falasse. Não me
Moldo à vossa vontade...Esse é o crime.

Apesar das trevas da noite, vejo tudo
Claramente, como se subitamente tivesse
Acordado de um sonho profundo e calmo.
Como se tivesse compreendido algo
(finalmente!).

O arrepio sobe pelos meus braços, pelo
Meu coração. Descobri o segredo do mundo,
Abri a caixa que todos insistem em fechar.
Não o posso deixar ir, nunca mais. Nunca.

Estou imersa na quietude das horas mortas,
Em que todos dormem quando deviam viver;
Em que todos abraçam o sono como a paz
Aguardada durante o dia. Há paz aqui...

Sinto o mundo estático, à minha mercê.
À espera da minha ordem para retomar o
Seu caminho - está parado, porque também
O tempo está. Ninguém está por perto neste momento
(só eu e a música).

O vazio não durou muito. Foi substituído
Por algo que não consigo compreender, ainda.
Uma calma suave, uma alegria tímida iminente,
Um pouco de vida, um pouco de tudo o que falta.

E o que falta, depois de tudo? Depois do barulho,
Depois da guerra, depois do ódio, depois do gasto
Ridículo do precioso tempo? O que resta, pois, senão
O maior segredo de todos, a fonte que ainda brota?

O que de facto interessa, embora ainda seja subestimado -
A ideia de amar, a capacidade de ser amado e todas as
Variáveis que advêm da beleza inerente ao ser humano;
O amor e o que ele faz por nós, dando-nos alma, dando-nos vida.
(quer doa ou faça sorrir)

27 março, 2012

Schism

«Nevermind, I'll find...»

Alguém como tu - constato o que foi perdido porque vai a andar mesmo à minha frente. Quando estou longe, encerrada no meu mundo protegido não custa tanto imaginar o que acabou; ao longe não vislumbro a voz, o riso, o olhar que me ajudou a superar os momentos mais negros da minha existência. Ao longe, não passa de um sonho que se vai esfumando com a distância.
Tenho pena que as linhas se tenham tornado indefinidas, turvas. Lamento o que não resultou e não o que poderia um dia haver; já começo a fatídica viagem de sentir falta do que não existiu, em vez de sentir falta do que houve...De todas as vezes, penso que esta é a pior. Ainda não é a que dói mais (embora no futuro isso talvez venha a acontecer), mas sei que esta foi a que veio abalar mais as estruturas do meu ser, foi a mais errada, a que terá mais repercussões na pessoa que eu sou e na que serei (ou não).
Quando algo está certo neste mundo terrivelmente iludido, quando as peças realmente encaixam, somente pela segunda vez, não está na nossa natureza esquecer isso e deitar a felicidade para trás das costas. Geralmente. Mas também ninguém disse que somos perfeitos, que sabemos sempre o que é melhor para nós próprios (ou será que o melhor também passará por deixar ir essa luz?), que aproveitamos sempre as hipóteses que nos são dadas de sentirmos que pertencemos a esse sítio.

Não te preocupes, decerto que nunca vou encontrar alguém como tu...Ou talvez sim. Não é possível sabê-lo agora, é impossível imaginar essa possibilidade irreal. Ainda estás por perto, as tuas lágrimas ainda custam, as tuas palavras silenciosas ainda cortam como gelo, os sorrisos não correspondidos cansam como um fardo inevitável que carrego. O silêncio é o pior de tudo, porque faz tanto barulho que me ensurdece; o silêncio apenas traz consigo tudo o que não está lá, embora esteja. Tudo o que não está, mas devia.
Será loucura ter isto nas mãos, contemplar como será a vida sem ti, e mesmo assim, deixar-te ir? Deixar-te ir sem uma palavra esclarecedora, uma razão lógica, um motivo que seja forte o suficiente? Não...Acho que, no fundo, sei que a decisão foi a correta e tu deste-me a prova pela qual esperei tanto tempo, pela qual desesperei dia após dia.
Quando ouvi este piano, quando ouvi estas palavras, percebi que estranhamente estava em paz com o nosso fim irreparável. De facto, não há nada que possa apagar a incerteza, a raiva, a traição, o sentimento de rancor que perdura no ar como uma sombra, não me deixando recordar o que havia de bom - bloqueando as memórias felizes. As horas passavam e o tempo parecia não existir à nossa volta...Agora o tempo parece adensar-se, torna-se espesso e não me deixa respirar quando estou ao pé de ti.
Estraguei-te. Estraguei-nos, sem querer. Possivelmente dos piores arrependimentos que tenho, provavelmente dos piores erros que cometi (mesmo sem querer), melhor pessoa que perdi.

Constato o que sobra, constato o que não há...E no final de tudo, depois de um dia em que não soube saber o que sentia, sei que não vou encontrar mais ninguém como tu.

25 março, 2012

Falsa Profecia

«You're such an inspiration for the ways that I will never ever choose to be...»

Ajusto os meus olhos a esta escuridão branca, a este pedaço de mentira. Não posso crer que haja traços tão assustadores dessa terrível cegueira, e ainda assim este papel não desaparece; as palavras não se tornam mudas, a tinta não se torna invisível.
Sinto o choque da náusea, a dor da incompreensão a espalharem-se pelo meu corpo. Pergunto-me como será possível ter vivido neste estado de torpor absoluto, neste labirinto sufocante de hipocrisia, de mentiras, de um falso messias. Outrora te amei, talvez tenha chegado a atingir um nível de adoração incerta. E depois acordei da dormência vil, do veneno impossível de superar.
Depois abri os mesmos olhos incrédulos e reparei no mundo à minha volta; reparei na podridão que enche o teu ser; reparei na maneira opressiva como vivias a vida; reparei, por fim, na simplicidade com que destruías a vida dos que rodeiam. Não te interessa quem vive ou morre, quem sofre ou quem chora - só te interessa a tua pessoa e o teu plano irreal de viver nesse mundo utópico, ridículo.
É muito triste pensar no que sobrou...Evito fazê-lo. Quando contemplo o que há e o que devia haver em vez disso, quando contemplo o que devia ser e não é, aí perco uma parte de mim. E morro por dentro, e choro, e grito e finjo implodir o mundo para conseguir respirar. Para conseguir continuar a viver mais um dia.
A lista interminável de coisas más que sinto por ti não chega para demonstrar o meu ódio, o meu desejo de te esquecer, enterrar, apagar. A maneira como cuspo o teu nome ou a forma como te desprezo não são suficientes para te afastar da minha vida, das memórias arruinadas por ti. O arrependimento da proximidade e do afeto não podem ser negados, mas o que houve em amor não se compara ao que há agora em rancor, repulsa.
A única solução para te fazer entender o que sinto é só uma - dizer a verdade, a triste verdade. E não é terrivelmente triste saber que o único vestígio de algo que pode ser infimamente bom é a mera compaixão? A pena que nunca devia ser sentida por nós...
É triste de facto viver todos os dias num ambiente que está poluído por sentimentos escuros e pela compaixão da tua fraqueza de espírito. É triste...
O passado está todo tingido, a infância tem de ser negada. O engano acabou; não sobrou mais ninguém.

«All the pictures have been washed in black...»

24 março, 2012

Beautiful Mess

«Here we are...we're still here»

Já não sei o que me motiva. Não sei o que continua a fazer sentido; já nada está no lugar certo, onde pertence.
Para mim isto passa a ser uma vivência surreal, crua, irreparável. É cruel, demonstra-nos a verdadeira matéria que nos enche e nos une, ao mesmo tempo afastando-nos. Os arranhões, as feridas que sangram indefinidamente e os cortes permanentes são mútuos, causados neste campo de qualquer coisa que, subitamente, foi tornando num local de guerra. À nossa mercê caprichosa jogamos com as vidas dos outros, como se não passassem de algo descartável...Brincamos com o que eles sentem, com o intuito de os magoar, com o puro objetivo de verificar os seus limites.
Quando é que isto vai acabar? A desconfiança, a manipulação, a discórdia...Existem inúmeros caminhos por percorrer, hipóteses por explorar, vidas diferentes que poderiam ter sido vividas se não fosse o rancor que corrói qualquer sentimento de compaixão, a mágoa reprimida, a traição ou a mentira dissimulada que corrompem os nossos seres. É a falta de sensibilidade que nos desune e destrói o que podia haver.
Esta paisagem é-me muito familiar, estes sentimentos são-me tão conhecidos que poderiam ter sido inventados por mim...Como aconteceu isto sem eu ter dado conta? Penso que a solução jaz na medida mais óbvia, mais absoluta.
Decomposição do que já não aguenta viver mais, fim do veneno que sobrou no cenário após a batalha. Para quê fingir que não o vemos, quando ele esteve sempre à nossa frente, mostrando-nos a opção certa, real.
Foi bom enquanto durou, foi um caos bonito de se viver, tanto por ser necessário, como indispensável - está na nossa natureza causar estragos em quem nos é próximo. No entanto, há que perceber quando o momento do adeus chega; o silêncio inquieto (incoerente) denunciou-o. Fim da linha.

22 março, 2012

Dream 4

«Dream a little dream of me...»

Momento tão natural como respirar, cena tão familiar como qualquer rotina.
Não sabia que sonhava, embora o meu ser o soubesse; nunca poderia ter essa audácia se não fosse apenas um sonho...Através de outrem a verdade tão irreparavelmente límpida veio ao de cima como palavras soltas ao vento que esperam alguém que as ouça. Não diria que foi chocante ouvi-las ecoar fora de mim, mas foi definitivamente uma breve dor perfurante seguida de uma sensação de alívio incrível; a leveza instalou-se em mim como uma expiração de ar fresco, que veio para ficar.
O mais triste foi a simplicidade do impacto, foi a leviandade da tua reação, a presteza com que aceitaste o destino, a injustiça da decisão. A facilidade com que aceitaste a conclusão de que era o fim (nem valeu uma questão, uma palavra, um aperto no coração pela mágoa do que se perdeu...), de que os caminhos estavam agora separados de vez.
Que alma é que consegue essa proeza? Que capacidade é essa de nem sequer olhar para trás, uma última vez para contemplar uma história acabada, um fim inesperado? A ideia gelada de que, num segundo interessa, mas no outro seguinte já está esquecido perturba-me, mantém-me triste num lugar onde devia ter a possibilidade de ser feliz.
A franqueza saiu involuntariamente e doeu...Ouvir as palavras, de facto, serem ditas foi demasiado corajoso para ser verdade, mas eu acreditei ter acontecido; pensei-me livre, pensei-me na direção certa para o conforto da aceitação.
Acordo.

20 março, 2012

Lado a Lado

«I can't tell you what it really is, I can only tell you what is feels like...»

Primeiro vem o sorriso óbvio, habitual.
Depois a dor agonizante, rápida, inesperada.
O sorriso apaga-se, é a vez das lágrimas;
Vêm, uma por uma, pintar o meu mundo.

Será ódio, raiva, incompreensão?
Será mera frustração, rancor, desespero?
Já não sei conviver com esta figura de silêncio
Gelado que se instalou. A sombra do passado
Que paira por aqui, sempre...

Não consigo fingir que não vejo o que falta,
Já não aguento assistir a este teatro grotesco,
A esta farsa, tentativa de negar o inegável, inevitável.
Para que fingimos que isto não é o fim? Instalado.

Devo gostar da maneira como dói, como arde,
Como me tortura; devo gostar de saber tudo
Isto como uma mentira horrível, como um falso
Pedaço de vida. Miserável vivência que não foi real.

Sorrio, não porque ignoro o que não é,
Mas porque sei precisamente que isto não é nada.
As questões que assombram os meus sonhos são
Demasiado perturbadoras, não quero pensar nelas.

Evito imaginar nestas possibilidades porque elas só
Servirão para enterrar algo que me ajudou a viver,
Mesmo quando era eu que estava enterrada. Morta.
Pareceu iluminado durante uns tempos - não durou.

Agora seguimos em frente, sabendo o que não-foi;
Os caminhos prováveis, as hipóteses que nunca serão.
Seguimos e fingimos que ainda existe, que o que
Resta não é só mágoa, dor dilacerante...Fingimos que não
Vemos o fim, para que ele não nos veja a nós.

Escapámos?