30 outubro, 2011

"Into the wild"

«Rather than love, than money, than faith, than fame, than fairness... give me truth.»

28 outubro, 2011

Ruínas

Os pavimentos cansados veem-me chegar.
A brisa gelada corre debaixo de um sol caloroso e as folhas castanhas enchem a rua com um toque de harmonia silencioso.
O chão molhado que me viu crescer ecoa agora os meus passos lentos e cuidadosos. Há pequenos momentos que param o tempo - este é um deles. Não sei que dia é nem em que ano estou. Sei apenas o que sinto e nem isso é muito claro. Não vejo a vida, momentaneamente, pelo que ela é.
As divisões capturam uma luz minha diferente e à medida que percorro cada uma, o silêncio intensifica-se, esfumando-se; começa a esmagar-me vagamente, alimentando a solidão.
O vazio acalma-me, dá-me alento, dá-me uma paz desastrosamente necessária. No entanto, enche-me também de nada, dando-me tempo de ver os espaços em branco que não deviam existir. Dá-me o silêncio majestoso das lágrimas.
O veneno tem de soltar-se de alguma forma - a repulsa óbvia vive em mim, assombrando-me, fazendo sangrar o que temporariamente havia sarado. Faz-me querer rasgar os vestígios de ti, queimar-te da minha vida definitivamente.
A raiva, o ódio, a revolta, a tristeza, a mágoa, a alma dorida...Tudo se intensifica com a tua indesejada presença; tu destróis o meu contentamento esporádico. Tu és o que está mal na minha existência.
Os cortes são tão profundos, tão antigos, tão assustadores. A frustração é maligna, tão doentia, corrompe-me...Só quero que acabe.
Tento ver sentido nisto, tento encontrar razão nalguma coisa, de todo. Eles não aparecem, bem como o alívio.

Estrutura simples, útil, crucial. As paredes, o chão, o teto, não me dizem nada. Não significam nada e o nada toma conta daquilo a que chamo vida.

23 outubro, 2011

Alegria Líquida

Eternal Sunshine

Leves pontadas de alívio surgem, como estremecimentos que me fazem crer por segundos.
O terror dissipa-se e vislumbro um futuro onde há esperança; porque nem tudo é mau, achei que estes preciosos momentos, embora raros, devem ser preservados para a essência não se extinguir de todo.
Não está na minha natureza viver rodeada de trevas e escuridão, eu pertenço na luz do vento e na leveza da chuva; eu paro sempre na última estação - no acreditar. No não ter medo de achar que o impossível ainda acontece, e isso, excecionalmente, traz-me algo bom para recordar mais tarde.
Os tambores voltam à vida e por breves instantes, tudo está bem. Há paz e até um caminho de felicidade pouco nítido. Talvez mais tarde...

Senti que hoje merecia celebrar, não o que sobrou, mas o que irá regressar a mim. As coisas boas, as coisas que realmente interessam, as pessoas que fazem parte de mim. A vontade de voar, de sentir o ar a inundar-me de alegria, fazendo-me flutuar para longe. O querer imaginar fora das sombras; o lugar que consegue sempre relembrar-me do calor que só a derradeira casa nos fornece...A sensação de ser eu outra vez a tomar as decisões, e não a mágoa.

A esperança viveu hoje em mim e em vocês. O sentimento de fé foi curto, mas marcou a sua presença. Nem tudo está morto.

19 outubro, 2011

Hometown

«Round my hometown, memories are fresh»

Olhos tristes...Olhos tão profundamente tristes.
Olhos de avelã, que contêm muita mágoa afogada, refletida nesses dois lagos sombrios que fitam a lua, agora.
A ver as folhas graciosas a caírem até ao chão, a ver o vento ganhar vida para arrasar o medo e a solidão. O frio percorre-a como uma pequena lâmina que perfurou o coração há muito. O frio não cessa, por muito que ela se esconda.
As luzes velhas e gélidas da cidade presenciam o seu sofrimento esquecido, afundado com o que restou do seu sorriso. Elas não contam a ninguém, e ela sabe-o. Está a salvo.
Os espasmos de vazio esmagam-na, mas é a assustadora incapacidade de ajuda que lhe impede a respiração; que a destrói aos poucos.
É incrivelmente assustador como ninguém pode abafar o sentimento de tormento, ninguém pode acalmá-la, embalando-a num suave estado de paz. Ninguém, digam o que disserem. Só resta esperar, só resta pedir aos céus por algum calor, algo sólido para se agarrar.
Cinge-se com os abraços, tentando esquecer essa onda de pânico que a atinge como a morte - os sonhos para onde foram? A verdade destruída jaz aos seus pés, cansada de fingir ser algo que nunca poderá ser. O conforto interior que existia quando via uma tempestade iminente ainda se mantém, mas trémulo.
O piano soa bem perto. Traz consigo uma quase esperança que ajuda a passar o choque do momento, mas não dura uma lua cheia. Não dura o suficiente, nada é o suficiente. Reza com alento para que ele chegue, mas sabe-o melhor que ninguém...Ele não vem.
À luz frágil e sóbria dos candeeiros, ela chora e espera que o vento venha e leve os pequenos restos de sal para longe.

18 outubro, 2011

Believer

A fé é uma coisa estranha...

Agarro-me à dor. Foi o que sobrou.
O otimismo evaporou-se no fogo do meu olhar; posso tentar sentir algo que não isso, mas não consigo.
O ódio vem à superfície imediatamente, a raiva corre num rio contaminado, sem fim.
Penso que tenho de afastar a dor (talvez física), mas até essa me salva ocasionalmente. Foi o que me restou, moldou tudo consoante a sua passagem.
Os pulsos abertos deixam o sangue liberto, o sangue demasiado pesado, demasiadamente meu.
Olho outra vez e os cortes não estão lá. Sararam como milagre.
A queimadura interna permanece - agonia, horror, o caos - tudo me habita. Só isso ficou.
Arrependi-me dos meus pecados? Confessei a minha alma, purifiquei-me a tempo? Achei que sim. Mas a necrose ficou. A podridão engoliu a esperança embrulhando-me numa escuridão cancerosa; metamorfose tardia, enganosa, dolorosa. Os lábios sangram da força dos dentes, sem parar, até já não sangrarem.
Os cortes renascem onde já existiam, a mutilação é auto-preservativa. É um mecanismo tentador, familiar.
Ciclo vicioso que se aproxima, o abismo chama o meu nome como nunca o fez...Jamais tinha sentido esta capacidade de não conter a luta interior que me abala a todas as horas; o sentir que se encaixa pacificamente nos limites mínimos de sensibilidade; nada supera o pouco que sinto, com uma intensidade débil.
Em queda livre até à derradeira dor, até à não morte crucial, não conseguirei encontrar a génese do torpor. A pele arrancada, despida, as órbitas rasgadas, num banho de sangue que me devia ver (re)nascer.
Este viver tem tempo contado, não o questiono. Contudo, até lá, o meu corpo obriga-me a ir mais fundo; a aceitar a dádiva do sofrimento que se mistura com a loucura e, a certo ponto, com a sensação calmante do macabro - o corpo dorido, podre por dentro. Já não me reconheço no reflexo; demasiados danos, estragos irreparáveis. Acabada.
Algo me invade, não sei se é luz ou escuridão, mas não é, definitivamente, algo novo. Prazer culpado, rancor inacabado. Fim eminente.
O sangue escorre pelas paredes, mas eu estou inteira. Por agora?

14 outubro, 2011