11 maio, 2011

10 maio, 2011

Ausente

«We could've had it all...we almost had it all...»

Aos poucos vou recuperando a vida,
Lentamente, vou ouvindo de novo
A voz da razão a chamar por mim.
A impedir-me de voltar aqui.

Ouça-a a ribombar aos meus ouvidos;
Questiona-me, interroga-me do porquê...
Não lhe ligo nenhuma: aqui as palavras
Deixam de ter interesse. Importância.

Como queres que te explique? Como queres
Que te diga, como queres que me desculpe?
Os meus actos não foram meus...Não foram.
A culpa podia ser minha. Talvez seja.

As palavras aqui não interessam. Já não.
O feitiço quebrou-se finalmente.
Como um relógio parado no tempo, ouvi
O seu vidro a estilhaçar-se. Libertando-me.

Tudo voltou ao mesmo. Convenço-me?
Mais importante, conveço-te a ti? Voz
Que pode ou não ter-me trazido de volta.
Que me relembrou de como eu era.
Antes de ele me acontecer. Antes da prisão
voluntária.

Sigo em frente. Convenço-me? Convenço-te,
Pequena voz em mim?
Libertei-me mas ele não me quer deixar ir.
Será que eu quero?...

08 maio, 2011

Desassossego

O cheiro do fumo da vela ainda aqui ficou
A pairar no ar.
Esta maneira espectacular de como fazem
O saxofone sofrer melancolicamente,
Enche-me de paz. Por fim.

O céu em tons que não se definem está indeciso.
Se espreitar pela janela, vejo que hoje o mundo parou.
Todos se mexem, mas devagar, sem saberem o seu
Destino. Todos continuam a caminhar.

Levanto-me e respiro fundo; se estiver sentada
Vou acabar por fazer o que não quero.
Se ficar confinada a este frenético espaço,
Muito em breve morro de solidão.

O vento sussurra até mim pelas árvores;
Ele já não quer saber de mim. Anda por aí...
Por todo o lado, anda até pelos sítios onde a
A minha mente vagueia, longe...

À minha frente vejo o veneno no copo,
Sei que o tenho de beber para terminar.
Vejo a chama acesa da vela que arde agora
Pela vontade de viver, e lentamente, tento
Não perturbar o enredo. Tenho não respirar.
Adeus mundo! Adeus desassossego.

07 maio, 2011

Sopro do coração

[Mais uma colaboração contigo. Obrigada por me ajudares a fazer história, mais uma vez...E o prazer é todo meu!]

Não sopra a usual brisa na rua onde sofro,
Sou eu sozinho, eu e as minhas pegadas,
E a minha única companhia, a solidão.
Alguns esperam um só sopro
Por mais suave que este seja...
Que mais ninguém veja tudo o que eu sempre quis...
Um vendaval, força extrema, sem receio
De abalar tudo à sua volta...capaz de penetrar pedra...
Mas eu jamais fui a excepção à regra.
O destino para comigo é castigo
E a sorte cega...
Agora, que me entendi nesta paixão morta
De quem já não sabe amar
Espero, como vós, apenas um sopro no coração...
E espero que, no fundo, esse sopro reavive a minha alma outrora apaixonada.
Espero que consiga trazer de volta a minha essência sonhadora, que acreditava na exaltação do sentimento humano.
Que acreditava que a felicidade é possível,
Que acreditava que os riscos valem a pena, no fim de tudo.
Porque passou tanto tempo desde que usei o meu coração para amar, que achava que ele tinha parado.
Estava já enferrujado, coberto com o pó das lembranças e eu pensava que nunca mais ia senti-lo a bater. Mas esse momento aconteceu e aos poucos, consigo senti-lo a voltar à vida.
Este sopro encheu-me de vontade para alcançar o céu.
Encheu-me de uma motivação incrível que me faz rir quando vejo a chuva a cair ou quando vejo o sol a esconder-se no horizonte. Subitamente sinto-me mais leve, sinto-me capaz de carregar o mundo inteiro sobre os meus ombros porque tudo é possível. Até o final feliz de que eu estou à espera há tanto tempo...
Mas já nem sonhar é como outrora...
Um jogo, um desafio, uma construção no caminho
Da vitória...Calei-me; tudo o que preciso agora
É de divindade em forma humana,
Alimentar uma qualquer chama
E voltar a casa
Sabendo que tudo fiz para
Recriar e viver o sentimento soberano.
Porque sem isto
Sou pouco mais do que ninguém.
É o que sou... é o que sinto,
E neste procurar faminto,
Daquilo que quero, daquilo que preciso,
Só não quero morrer na espera.
Nesta espera que nunca acaba.
Que parece nunca acabar.
Eu tento procurar aquilo que quero,
Mas isso é exactamente aquilo que não posso ter.
É tão ordinário que me causa um sabor amargo nos lábios.
É tão verdadeiramente irónico que me causa arrepios...

É tão verdadeiramente cruel e real
Que sinto uma pontada no coração.
Uma pontada que espalha o veneno do rancor,
Dentro de mim. Cheguei até aqui! Fiz o que melhor sabia,
Só para chegar e sentir o chão a fugir debaixo dos meus pés.
Aqui me queriam, desejavam a minha presença.
Queriam regozijar-se com a minha dor. Com a minha falta de vida.
E agora? Agora devo continuar a sonhar?
Agora dizem-me que devo seguir em frente, à procura de algo mais?
Algo que me preencha por completo, algo que me leve a sentir, de todo.
Saber o meu destino não foi algo que eu tenha pedido. Não é algo de que me orgulhe.
Apenas me tortura, dia após dia, arrepio atrás de arrepio, saber o que muitos sonham em saber.
Se vou ser feliz amanhã, se vou conseguir amar algum dia. Se vai ser possível algum dia sentir um sopro no coração que me empurre de volta à vida.
Que me encha de vontade de continuar a lutar contra o qual eu tenho a certeza que se vai suceder.
Como poderei alguma vez vencer a inevitabilidade? Como poderei libertar-me algum dia desta prisão que eu própria criei, dentro destas paredes?
Fui eu que me fechei aqui, distante de tudo. Afastada de todos os que me pudessem ferir com as suas lanças de desilusão. Afastei-me antes que a desconfiança esgotasse.
E assim fiquei, isolada do sentimento humano, completamente alheia ao que ainda faz o coração bater.
Agora tudo o que quero é recuperar algum do tempo perdido, partindo o espelho que encerra o passado.

Agora tudo o que espero, é um sopro do coração, que me faça reviver...

03 maio, 2011

01 maio, 2011

Pano de Fundo

«I never heard silence quite this loud...»

Ruídos familiares são repetidos maquinalmente.
Mais nada se ouve para além desta tensão ruidosa.
É tão macabra a sensação de estar aqui sentada, civilizadamente, rodeada de algo que pode ser simplesmente descrito como hipocrisia palpável.
É tão irónico que por dentro rio às gargalhadas. Rio até ser tão dolorosamente engraçado, que já não tem piada nenhuma.
Pergunto-me vezes e vezes sem conta se isto está de facto a acontecer. Se não é um sonho.
Mas já não aguento este silêncio fingido. A música classicamente associada a situações de delírio continua a tocar no fundo, a mergulhar tudo o resto em silêncio ainda mais pesado.
Só me apetece levantar-me e ir-me embora. Melhor; apetece-me fazer aquilo que nunca é feito, apetece-me levantar-me e gritar bem alto aquilo que todos podem estar a pensar.
Todos o sabem, todos pensam nisso, mas ninguém se atreve a falar. Ninguém ousa sequer imaginar tal catástrofe.
É preciso levantar-me agora e finalmente soltar o eco que está cá dentro,
Cá dentro sempre a repetir o que eu quero ouvir. Aquilo que eu preciso de dizer.
E a verdade que quer tão desesperadamente brotar de mim é só uma: acabem com as mentiras! Acabem com a farsa de hipocrisia que vos cobre o rosto. Estas paredes já estão manchadas com segredos, estas memórias já estão desgastadas com ódio e revolta silenciosa.
Porque eu preferia muito mais um cenário depois da guerra do que este momento decerto imaginado por mim. Este momento parado no tempo, (monótono) que me faz pensar que estou claramente insana. Que algo de muito errado se passa.
Porque este espetáculo aterradormente atroz não pode existir. Nunca existiu...

Nós, aqui, dentro destas quatro paredes, a agir como se nada tivesse acontecido. Como se tudo estivesse bem. Como se não estivesse tudo corroído com a miséria.

Nós aqui a dissimular estabilidade enquanto os violinos tocam, no pano de fundo.

30 abril, 2011

Salvação

«Help me if you can, it's just that this is not the way I'm wired...»

Como posso assistir a isto, dia após dia?
Noite após noite adormeço a pensar se
Será nisto que a minha vida se vai transformar
E só peço aos céus, rezo com fervor para que
Tenham misericórdia de mim.

Vejo-me a atravessar este compartimento
Enorme, a comparar com a vida em mim,
E penso que não pode ser só isto que existe.
Não pode acabar por aqui, não pode ser só
Isto que resta. O que restou, sem ti.

Talvez tenha de procurar mais fundo,
Tentar com mais vontade. Está bem escondido.
Aquilo que quero, aquilo que preciso de encontrar.
Algo que me faça querer respirar este mesmo ar.
Algo que me faça sentir, de todo.

Estaco no meio do quarto. Esta não sou eu.
Não é a pessoa que um dia já fui, pelo menos.
Quero isso de volta. Quero essa vontade de viver,
Quero apagar as chamas da dor que me queima por dentro,
E encontrar o que foi perdido, sem querer.

Passo a passo, caminho para este abismo inevitável.
Mas algo tem de mudar, rapidamente, antes que seja tarde.
Antes que te mate, antes que te afogue nessa mágoa que
Faz com que respirar seja mais custoso. Mais cruel.
Rezo agora por ajuda, por um salvamento definitivo.

Sei que não quero continuar, mas sei também que
Se não continuar a marchar em direcção ao precípicio,
Nada vai mudar. Nada me vai manter aqui. Nada.
Não vai valer a pena, nunca mais.
Imploro-te, não assistas a esta morte lenta e demorada.
Não assistas a este final silencioso, pacificamente.

Já é impossível apagares estas lágrimas gravadas
Na minha face, de tanto querer que me ajudes.

Já não é possível ver-te daqui, a sofreres por mim,
A quereres fazer alguma coisa, algo que alivie este
Meu coração partido.

Algo que me faça voltar à vida.