24 junho, 2010

Chamada Perdida

«Apeteceu-me estragar algo belo»

Com este instrumento encostado ao ouvido encontro-me absorta em pensamentos.
Sinal após sinal, após sinal, após sinal mantenho a esperança de que alguém do outro lado irá atender.
Na miséria me encontro e não sei sair dela. Como cheguei aqui, como cheguei a este ponto?
Não tenho ninguém e agarro-me à ténue satisfação de ouvir um sinal de chamada seguido de muitos outros.
Estou deitada a olhar pela janela à espera que ou a sorte ou a morte cheguem. À espera de qualquer coisa que apague esta apatia que me come viva, este entorpecimento melancólico que eu quero arrancar do meu peito com as minhas próprias mãos.
Isto nem é tédio, porque nem isso eu sinto. Não é inveja, não é revolta, não é tristeza nem ciúme. É a falta disso tudo. É o olhar pela janela aberta para ver que um simples lençol ao vento tem mais vida do que eu. Eu estou só a ver a vida passar sem mim.
Estou deitada à espera que a ajuda caia do céu, como um milagre, como algo que apesar de tudo eu gostaria

*

Petrificada, com os olhos fixos no céu azul, com o telefone a escorregar da minha mão eu jazo no chão duro. Com o corpo frio e com o coração já muito farto de bater.
Mas ainda tive tempo para ouvir algo, ainda houve espaço para sentir:
-"JOANA!! JOANA, O QUE FOSTE FAZER?!" - a tua voz soou como uma alma do outro mundo completamente despedaçada. Pegaste na caixa vazia e entreaberta dos comprimidos e começaste a chorar.
Choraste pelo que não soubeste ver, choraste pelo que não soubeste dizer na altura certa.
Eu ainda consegui derramar uma lágrima límpida e dizer em voz quase inaudível:
-"É tarde de mais....acabou para mim."
Viste que ainda estava a respirar, mas por muito pouco. Agarraste-me com toda a tua força e pegaste no telefone. Quando o encostaste ao ouvido para pedir ajuda pudeste ouvir uma voz dizer:
"-Bem - vindo ao voice mail, deixe mensagem após o sinal..."
Olhaste para mim e choraste ainda com mais fervor ao ver a vida desaparecer de mim, lentamente no final mais trágico que alguém poderia prever.
Choraste pelo que podias ter feito, choraste porque se tivesses tido esse pequeno gesto de atender o telefone, podias ter salvo uma vida. A minha vida.
(bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip bip)

«Where were you?»

23 junho, 2010

Gravidade


«Aquele que voa tem de poisar nalgum lugar:isso é partir e não voltar»

Voa pássaro, voa! Voa como nunca voaste, voa como nunca sonhaste voar!
Sem olhar para trás, sem pensar no passado, simplesmente voa!
Para que hás de ficar? Para sentir a tua pequena alma cravada com mágoa e o teu pequeno coração cheio de veneno? Para sentir as tuas lágrimas doces a empurrar-te ainda mais contra o chão?
Não....! Não fiques, vai simplesmente.
Sente a leveza do ar que te transporta, sente o alívio que te rodeia depois da tenebrosa tempestade. Não penses mais no que passou, pensa no que ainda se vai passar.
Paira no tempo, devagar. Não tens para onde ir, nem sabes para onde queres ir, mas no fundo sentes que só precisavas de sair de lá para poderes ser livre, para poderes viver.
Porque é que teve de ser assim? Afinal o que fizeste para merecer essa vida enjaulado, encurralado por grades gigantes de aço gelado?
És inocente, és ingénuo, não conheces a maldade do mundo, ainda. Não conheces nada da realidade que te rodeia mas já sabes que pelo menos esta deve ser muito melhor à vida que estás habituado, não é assim?
Oh meu querido pássaro, quem me dera poder ajudar-te! Quem me dera poder acolher-te na minha humilde casa que é quente e fazer-te sentir seguro e feliz!
Não demores a arranjar um sítio onde pertenças, por favor. Não demores a aterrar em segurança num local onde possas ser tu próprio, onde não tenhas essas algemas frias a cortar-te os movimentos e a prender-te as asas. Deixa-te ser assim, sozinho por uns tempos. Deixa-te ser assim sem ninguém que te faça doer o músculo mais emocional do teu pequeno corpo. Deixa-te ser....simplesmente.
Foge, enquanto podes. Foge daqui para fora enquanto estas paredes ainda não ruíram com o ódio, com a revolta, com o rancor. Foge enquanto este chão ainda não foi inundado pelas fendas de desconfiança, tristeza e desilusão. Bate as asas e levanta voo, sem nada a temer. Sem sentir a gravidade que te impele para cima, e não para baixo. Que te incita a voar mais rápido para esqueceres aquilo que foi a tua vida, até agora. Se isso bastasse...
Depois de te afastares o suficiente, aterra, e nunca mais voltes para aquele sítio. Imploro-te. Corta as amarras que eu nunca soube cortar e voa, para bem longe!

13 junho, 2010

Dinamite

Eu movo-me, tu persegues-me sempre
Por instinto, hipnotizado.
É mais forte que tu, eu sei,
Estás sob o meu poder, magnetizado.

A electricidade entre nós é permanente,
Culmina numa autêntica chama,
Explosão de dinamite envolvente
Que nos preenche por completo.

Alguma coisa tem de mudar
E vai mudar em breve:
Sinto-me muito perigosa,
Nunca me senti tão viva ou leve.

Caminho sobre vidros e destroços
Mesmo a suplicar por dor e perigo,
Mas algo se acende em mim, uma luz,
Uma sede e um profundo calor.

Sim quero! Não quero não!
Já nem sei! Onde ficamos?
Eu movo-me, tu persegues-me
E agora, quando paramos?

Estou paralisada mas cheia de energia,
Nem tento explicar, não é normal.
É físico, é químico,
É pura magia.

12 junho, 2010

365

Este ano aprendi a partilhar,
Este ano aprendi que falar ajuda,
Aprendi que chorar acompanhada é melhor,
Aprendi a valorizar o que tenho, enquanto posso,
Este ano aprendi o que os amigos significam para mim,
Aprendi a gostar da mudança,
Consegui deixar ir e mudar de direcção,
Aprendi que o ser humano ainda é imprevisível,
Aprendi mais de vinte letras de músicas,
Cantei-as mais de setenta vezes,
Aprendi a ser diferente do que era,
Aprendi a aproveitar o momento,
Aprendi a lutar pelo que quero,
Compreendi que o mais importante realmente não se compra,
Consegui conhecer gente maravilhosa,
Este ano aprendi a fazer coisas sozinha,
Aprendi a respeitar o silêncio,
Aprendi vocabulário em pelo menos duas línguas,
Este ano li um livro de 414 páginas em três dias,
Li Eça de Queirós e Saramago,
Tive debates interessantíssimos,
Este ano percebi que prefiro o Inverno ao Verão,
Percebi que tenho mais potencial do que esperava,
Este ano aprendi a aceitar um não e obstáculos,
Aprendi que basta querer para conquistar,
Este ano aprendi a ver o melhor das pessoas,
Este ano aprendi factos aparentemente inúteis,
Este ano, aprendi a ser feliz!
Este ano aprendi muita coisa...É certo. Foi um longo ano cheio de experiências, sentimentos, descobertas, vitórias e derrotas que não trocava por nada, NADA deste mundo!

09 junho, 2010

Ao Sabor do Vento

«If I could tear you from the ceilling, I'd freeze us both in time»

«How long do you go to be gone, you are anyway the wind blows in»



Por onde hei de começar? Pela parte onde a culpa é minha?
Talvez por aquela onde sou responsável por tudo. Talvez.
Mas abri a janela, vi o céu de um tom cinzento palpável e senti a chuva penetrar-me.
Ando impenetrável ultimamente e já estou farta. Farta deste vazio que ora me preenche com alegria, ora me deita ao chão como um tsunami de mágoa.
Nem consegui escrever frases que soubessem bem no papel; nem consegui ver as imagens e palavras que surgem antes do texto. Nem consegui chorar e se me ri, foi para não derramar lágrimas de chumbo que me enterrariam no solo.
E se fechasse os olhos, estaria a repetir-me? Estaria a adiar, a esconder-me, a evitar-te? Talvez... Estaria a passar-me por cega. Por aquela que não quer ver.
Não posso dizer-te a verdade, mas pelo menos não te minto sobre isso. Minto sobre outra coisa qualquer. Sobre o cheiro a terra e a chuva que paira no ar; sobre a sensação de ouvir o riso daquelas pessoas, que me parece música; sobre a maneira como os sonhos estão a diminuir em mim.
O cinismo reina. Agora já não é a raiva que me governa, já não é a revolta que me move. É a falta de mim, a incapacidade de me confrontar com essa verdade.
Eu não quero ser assim. Eu quero procurar por mim em cada canto e esquina para deixar de ser uma estranha que encontro todos os dias.
As palavras morrem, acções são feitas e decisões são tomadas sem o meu consentimento verdadeiro.
Sinto-me impotente, trancada neste monstro de apatia, de inveja, de sarcasmo e ironia. Onde fui parar?

Paro para pensar se é assim que sou feliz. Com água suja e imunda a cair do céu. É assim? Às vezes nem me compreendo. Pergunto-me se alguém compreenderá.
Tu estás em todo o lado... Em cada sopro do vento e eu, só desejo ir contigo
para
me



encontrar.

29 maio, 2010

Coração de Cristal (continuação de Konstantine)

Rodeada do nada, confortada com o silêncio do vento.
Podias estar perdida, mas isso não te interessa, queres é viver o momento.
Sorris e fechas os olhos. Nada te faz falta, nada te impede de vires aqui. Não deixaste nada por dizer ou ouvir, tudo foi dito e feito.
Sol ou chuva, frio ou calor, vens a este sítio sempre que podes. Faz-te acreditar que estás mais perto do céu. Faz-te crer que ainda tens algo a perder.
Sorris e corres. Não foges de ninguém porque ninguém te quer apanhar nem tu queres ser apanhada. Corres pelo prazer de sentir o incrível sabor do vento nas tuas vias respiratórias. Corres pela sensação de sentir as ervas altas a tocar-te levemente na ponta dos dedos.
Estás num mundo só teu que apesar de tudo tem muita gente. Como consegues apagar o mundo inteiro só com a tua presença? Como é que consegues criar essa aura à tua volta, esse brilho de felicidade que irradia de ti, esse cheiro a flores do prado que a tua pele absorve, esses olhos que brilham tanto que às vezes acreditava serem estrelas?!
Fecho os olhos e capto a visão do prado contigo a dançar no teu vestido de pregas, a rir bem alto, com o cabelo a gritar de energia ao sabor do vento feroz.
Sim eu lembro-me. Eras tu Konstantine, foste sempre tu.
E eu via-te deliciado, com um sorriso de originar um clarão no meio da noite escura, só por te poder ver feliz.
Mas isso era no tempo em que para ti, eu não passava de uma tela em branco, uma figura ofuscada pela tua enevoada presença.
Nesse tempo eu era apenas um rapaz que só ansiava pelo dia em que te podia ver ser livre. Era aí que a minha felicidade residia.
E mesmo quando te tinha nos meus braços, nunca esqueci aquela imagem que retratava a tua essência. Aquela era a tua alma, o lugar onde pertencias.
Por vezes acreditava completamente que tinhas nascido em cima de uma nuvem, do ventre de um anjo e que os deuses te tinham colocado nesse prado, até eu te encontrar. Estavas lá à minha espera, não foi Konstantine?
Que saudades tenho de te olhar nos olhos e sentir que conhecia o fundo do teu mar interior. Que saudades!
Apesar delas, sei viver com as nossas memórias. São tantas e tão vívidas que davam para encher salões inteiros com imagens e palavras.
São tão verdadeiras que fazem com que o meu coração me caia aos pés para se estilhaçar.
E os cortes que os vidros fizeram?! Que dor que me causaram! E ainda assim, mal os senti, tal era a mágoa e o desespero.
Nem os senti...Não faz mal Konstantine, eu já voltei a colar todos os pedaços.
Bons sonhos.

To be continued...

25 maio, 2010

Para Além de Mim (later-alus?)

[Pequeno tributo a uma grande música e sobretudo a uma grande BANDA. As citações seriam infindáveis porque para mim, esta letra é toda ela divina, sem nada a acrescentar, sem nada por modificar. É perfeita e cada frase, cada palavra contém elevação. Se quiserem, e devem!, vão ouvi-la. Vão de certeza aprender ou compreender algo novo. Cultivem-se!]


Estava a ser embalada, estava a deixar-me ir.
No preto, no branco e depois, no vermelho
Fui embalada, fui iluminada pela mão que me guiou.
Fui guiada? Ou cheguei até lá por mim própria?
Não sei dizer. Acho que nunca ninguém saberá.

Em cada frase, em cada palavra, em cada nota
Musical eu senti os universos que nunca vi.
Os sonhos que nunca sonhei, as pessoas que
Nunca conheci e os sentimentos que ainda
Só penso em viver.
Se vi isto tudo? Sim. E muito mais.

Eu vi para além do concreto, eu vi para além
Do abstracto, eu vi para além de tudo!
Eu conquistei o que todos sonharam conquistar,
Eu fui além da terra e além do mar.
Eu fui onde mais ninguém vai.

Como fui lá parar? Nem eu sei.
Sei que segui a espiral ascendente que me
Levou a criar mais, a querer mais.
Que me levou a sentir o momento, o meu momento.
Que me incitou a gritar mais alto até superar o som.

Caminhei, subi, exausta de me arrastar.
Exausta de carregar o meu ego já destruído
E em chamas. Cheguei até lá, e esperei.
Esperei que alguma coisa acontecesse. Qualquer coisa.
Depois de me gastar em esperas inúteis, finalmente
Percebi.

Finalmente cheguei ao ponto onde tudo é amarelo,
Onde cheira a felicidade,
Sinto o calor que vem de dentro do planeta,
Sinto o sabor de um pedaço de céu,
Ainda com os pés assentes na terra.

Para onde vou? Para onde fui?
Se me perguntassem, diria que voei.
Mas não, consegui ir muito além do meu mundo,
Sem sair deste quarto, desta cidade, desta terra.
Consegui existir fora de mim, numa dimensão divina
Que não me pertence e que eu não controlo.

Sim, eu alcancei-a. Eu alcancei por nove minutos
A iluminação mais soberba de sempre.
O conforto mais impensável, durante escassos minutos
Foi-me concedido, e é uma viagem que pretendo continuar
A fazer, porque a espiral, não tem fim.

«Spiral out, keep going»