28 abril, 2010

Humanidade

«What is this but my reflection?»

Estou aqui mais uma vez, do lado contrário. Do lado oposto à razão.
Mais uma vez me encontro a lutar contra a corrente, com todas as forças.
Porque o faço? Acho que não sei dizer.
Só sei o que quero, só sei o que sinto, ou melhor, o que não sinto...
Perdi completamente a minha humanidade. Aquilo que ainda me ligava a todos vós.
Porque tenho tanto medo de errar, e tanto medo de sofrer, que me fechei ao sentimento. Fechei-me ao mundo. Tive tanto medo de perder, que agora perdi tudo.
E quanto menos vivo, menos sinto. E quanto menos sinto, mais desapareço. Aos poucos vocês vão-me tornando irreconhecível, enterrada no que resta de mim.
Olho-me ao espelho e penso no que sobrou. O que não foi engolido no imenso buraco negro que é a minha vida.
Porque não consigo evitar pensar, ocasionalmente, como seria a minha vida sem todas as dores e dificuldades que tive, sem todos os sonhos desfeitos, sem todas as desilusões que tive de suportar.
Se pudesse viver a vida como uma pessoa normal, da minha idade; se pudesse ainda viver na despreocupação, sem todos esses fardos pesados.
Claro que tudo o que peço, agora, é um silêncio, uma paz de espírito, uma vez ou outra. Já me habituei à ideia de não me entusiasmar, de não esperar demasiado de certas coisas ou pessoas...
Tudo o que quero é o que não posso ter; é sempre assim. Quando estão ao nosso alcance, as coisas nunca parecem tão boas. Eu sei isso!
Essa é a verdade. Mas o que é a verdade?
É...Alguma coisa que ainda me resta saber.
Por enquanto chega, disse o que tinha a dizer, nem que seja só para vir ao de cima, quando tudo o que fazem (um favor) é com que eu desapareça, lentamente.
Eu ouço esta melodia, estas palavras, e estranhamente, há um conforto estranho. Há pertença, iluminação, esperança, arrebatamento. Há amor e ainda uma recuperação, pequena recuperação da minha humanidade perdida.
E sinto-me inspirada a fazer mais, a dizer mais. A sentir mais. E é o que faço.
Não pensar tanto, mas agir; esquecer, sentir. Ser impulsiva e não antecipada em relação às coisas.
Estou aqui, como sempre, a lutar contra a corrente, contra a maré de vocês.
Como é costume, e vou fazê-lo para sempre.

«Just come and set me free»

21 abril, 2010

Noite de Primavera

É em noites como esta, em que vejo o céu limpo de qualquer estrela; o vento que apenas faz as folhas abanar ao de leve, ou os mosquitos hipnotizados pelas luzes quentes e acolhedoras da cidade, que me ponho a pensar.
É em noites como esta que me sinto em paz, com uma súbita calma dentro de mim, apoderando-se, apaziguando tudo o que está mal, cá por dentro. Sinto-me em sintonia com o Universo, sinto-me capaz de sonhar e voar, até onde quiser.
E o tempo? Esse é enganador. Ora passa a correr, ora muito devagar, mas hoje em dia, tornou-se num conceito abstracto e subjectivo. Demasiado subjectivo.
E as perguntas, que são tantas? Essas talvez terão resposta, mas em breve. Muito em breve.
O futuro reserva surpresas, mas se já estivesse preparada para todas as eventualidades, dificuldades e dores, de que me valia tentar? De que me valia viver?
Durante um tempo (muito tempo), agarrei-me à esperança de ti, mas agora sei, melhor que nunca, que não voltarás, sei o que o meu cérebro teima a contrariar em sonhos tão bons e irreais que chegam a ser pesadelos. Sei-o agora com uma certeza, e no entanto, com uma aceitação quase monstruosa.
Mas restar-me-ão sempre as memórias, não é verdade!?
Essas prevalecem, apesar do tempo, apesar das pessoas. Apesar da vida.
E apesar de tudo, não me arrependo de nada, embora tenha alguns arrependimentos.
Mas tu, não. Tu não foste um deles, de todo.
É que é em noites como esta, em que a lua me sorri, lá bem do alto, e em que eu sei que ele olha para o mesmo céu não-estrelado, à minha espera, que eu sei todas as respostas.
Nem todas as que eu quero, mas as que preciso, para já.
É em noites como esta que sinto a minha alma a dissolver-se e esfumar-se em direcção a outra galáxia, de tão leve e calma que está.
Sinto-a bem longe, mas não lhe sinto a falta porque sei que vai voltar, dentro de pouco tempo, para que eu esteja completa, de novo. Como esta noite estive.
Entretanto, fico assim...Feliz, descansada, em paz com o mundo, e com todos; mesmo depois de um dia normal ou mau, até, senti-me flutuar para fora daqui, através de um céu, de uma lua, vento ou de outra coisa qualquer. Qualquer uma seria um bom portal para mim, porque não interessa muito por onde vou, o que interessa é para onde vou.
E sei que, pelo menos, hoje, agora, estou feliz. É isso que interessa.
O amanhã não tarda a chegar, e aí, o que tiver de vir, virá.

17 abril, 2010

Santo Pecado


Sim, eu fiquei calada durante muito tempo.
Mas hoje à tarde percebi que chegara o meu tempo de falar.
Estava a ler palavras verdadeiras, palavras contra a hipocrisia; a ouvir palavras ainda mais verdadeiras, que me fizeram soltar a raiva e revolta contra vocês todos. Palavras que eu gostava de saber dizer, palavras que conheço.
E como que milagre, Deus, que deve concordar comigo, começa a chover torrencialmente, exactamente na mesma altura em que esta música me grita aos ouvidos, pelos headphones, o que eu quero ouvir, o que eu preciso de vos dizer. Deus, a expressar a sua ira ou coincidência? Eu não acredito em coincidências...
Sim, eu fiquei calada durante muito tempo. Talvez demais, até. Mas hoje eu falo, por todos nós. Nós, neste lado, oposto ao vosso.
Vocês! Com as vossas mentiras, segredos!
Vocês, com os vossos pecados! Pensavam que se escondiam? Estão muito enganados!
Fazem-me rir. Sempre que vos louvam mais, fazem-me a gentileza de descer ainda mais baixo. De fazer o impensável. Logo vocês...
Vocês que se dizem divinos, Deus na terra, a santidade contida nos vossos centros manchados pela morte, tortura, injustiça.
Vocês, que abominam o pecado, são os seus maiores adeptos. Quem diria!
Então e agora? Como arranjam desculpa pelos vossos actos?Vão se confessar aos ditos pecadores? Ou talvez, ainda melhor, possam encher o ofertório com o vosso dinheiro sujo e culpado! Talvez isso vos abra as portas do perdão das milhares de milhões de vítimas; talvez isso vos abra as portas do céu...
Podem acreditar em todas as mentiras que espalham, em todas as falsas histórias que contam, em todas as falsas estratégias para angariar dinheiro, mas no fim, nada vos poderá absolver.
Como se atrevem a proclamar que o uso de preservativo é pecado, quando a maior parte da população de África está infectada com HIV? Quando vocês abusam menores inocentes.
Como ousam rezar pelos pobres, quando possuem riqueza incalculável?
Vocês pregam contra vós próprios.
Vocês são a face do pecado, são a origem do mal.
Foram vocês, que com a corrupção, traições, segredos, mentiras e pecados tornaram este mundo neste lugar. Nesta pobreza, neste beco sem saída, neste homicídio em massa.
Vocês são a hipocrisia mais louvada de sempre.
Mas já não se podem esconder mais, tudo se sabe.
E vocês, que se julgam no alto, bem alto, vão cair, a pouco e pouco, até já não vos sobrar nada. Até caírem de joelhos e pedirem perdão por séculos e séculos de roubo, injustiça e perseguição. Mentiras, falsidade, disfarce, e pior de tudo, falsa inocência.
Depois de tudo, vão cair aos nossos pés, admitindo que estavam errados, não-iluminados. Mas estavam conscientes; estavam acordados, por isso, NADA foi sem querer, NADA foi bem intencionado.
E a humanidade estará livre daquilo que um dia foi a destruição, mascarada de salvação.

16 abril, 2010

Desencontro

Hoje ao contrário de sempre,
Comecei pelo início, e não pelo fim.
Foi diferente, foi inspirado.
Mas não pode ser sempre assim.

E connosco, alguma vez poderá?
Porque em todo lado tento encontrar-te,
Mas nunca consigo alcançar-te, chegar lá.
E olho em vão à procura,
Só para ver que é tarde demais.

Foi mais um desencontro, como outro qualquer.
Simples azar, ironia do inevitável destino.
Mas porque será que quando os nossos olhos
Se cruzam, eu sinto que é só pr'a isto que vivo?

Para te desencontrar, a todas as horas.
A todos os momentos, em todo o lado.
Porque procurar-te é tudo o que faço,
E amar-te, não é mais do que meu pecado.

Todas as noites sem dormir,
Todas as lágrimas por secar,
Toda a felicidade ainda por vir
E todas as razões do meu desgosto,
São causadas pelo nosso constante desencontro.

15 abril, 2010

Rascunho

«Deus ao criar o Homem sobrestimou a sua capacidade»

E é bem verdade. Sobrestimou-nos para o bem e para mal.
Mas em dias como estes, em que tudo o que vemos à nossa volta é miséria.
É destruição. É morte, fome, tristeza, pobreza e desgraça, é difícil manter a esperança neste mundo já condenado.
É difícil pensar que amanhã será um dia melhor, porque este, pode não existir.
Mas porque gasto o meu tempo com isto, então? Na verdade, por mais que me esforce e pense que não vale o meu esforço, acabo sempre a batalhar até ao fim, quando já ninguém batalha ao meu lado, por terem desistido há muito, neste caso, de um mundo já perdido.

Tantas eram as mudanças necessárias, mas quem sou eu para mudar o que quer que seja? Quem sou eu, para além de mera consciente, cidadã do mundo...
Isto nem passa de um rascunho, pensamento nobre por organizar; sonhos por lutar e coragem por fortalecer.
Se isto fosse uma história, eu ainda podia escolher um final feliz, mas assim sendo, estamos entregues a nós próprios, e quase nenhum bem pode advir disso.
Podíamos dormir melhor se não tivéssemos consciência? Ou ela, hoje em dia, já é só um mito do que outrora tivemos?

E eu? Que faço eu aqui, a levantar questões e temas que ninguém quer ouvir, por serem incómodos?
Estarei a ser altruísta, tentando causar um pequeno impacto no mundo, ou apenas quero ser ouvida?
Eu sei, eu sei. Isto não passa de um simples rascunho, ideias em bruto, tolas, pensamentos à toa que tento escrever.
Mas o que interessam, diz-me! O que interessam se até eu tenho medo. Se até eu sinto a fraqueza às vezes. Se até eu ignoro, por vezes, os problemas em vez de os encarar...
Todos sentimos. Todos cometemos erros, algures, alguma vez na vida. Não podemos é recriminar-nos por eles, para sempre, temos de aprender a viver com eles e sobretudo com as consequências. Será que algum dia irão conseguir?

Já nada sei. Sei somente que não passam de devaneios, coisas por pensar. Não passa mesmo do meu rascunho.

12 abril, 2010

Sem Saber

A nossa vida passa. Vai passando. Um dia de cada vez.
Parece que a controlamos, que sabemos exactamente o que acontece a cada segundo, mesmo que não planeemos nada.
E então, certo dia, acontece o que mais tememos. Acordamos e percebemos que a pessoa que costumava dormir nessa cama desapareceu, e que a sua vida mudou, sem darmos conta.
How did this happen? One minute you are there and in the next one you stare at your walls thinking how is this possible? Thinking that nothing makes sense anymore.
But it used to, before. So what changed? You.
It all start with a tiny thought, a remote possibility that grew until it became the actual change in your person, in your life.
O que outrora era o teu habitat natural é agora um mero clima hostil. Não sabes para onde te virar porque tudo te é estranho.
As pessoas que pensavas conhecer passam a desconhecidos e os sítios onde ias passam a ser meros pontos de passagem.
E então, o que certo dia parecia eterno, parecia certo e claro uma a água de uma fonte inesgotável, passa a ser uma autêntica incógnita.
Por causa de quem te rodeaste, pelas coisas com que foste rodeada. Pelo caminho que escolheste, pensando ser o certo, até que vês que há muito ele se afastou da rota pretendida.
Por isso questionas; não encontras respostas e voltas a questionar.
But somehow, it all returns to the part where once, it made sense to you. It's true. It's a fact that you cannot deny. You were once happy with those people, with that life. The life you swore you'de never chose for yourself. Not unless it was right for you. But it wasn't, was it? Never was and never will be.
That single fact proved that all your change, despite unwanted, unexpected and possibly fast, was necessary.
And you might cut your hair, hide your scars and your bruises, but it's still you that you see in the mirror, reflecting your true essence.
What changed? Everything, and possibly nothing.
You? Maybe. Or is it your perspective that changed?
Just remember, no matter what changes, one thing, always stays the same.

09 abril, 2010

Auto-Biografia?

Num prédio parado no tempo, numa rua que raramente dorme, no seio de uma comunidade não muito unida, poderão encontrar uma rapariga.
Uma rapariga num quarto, que transborda de sonhos e imaginação; felicidade e força; optimismo e esperança.
Uma rapariga normal, mas diferente; perdida, mas segura de onde está; uma rapariga que odeia injustiça e que tem pavor de estagnar.
Que mais posso dizer sobre ela?
É comum vê-la na sua varanda a olhar o céu azul, o pôr-do-sol ou o comportamento da natureza humana. Enquanto faz isso, ouve música, cantada por outros, ou por si.
O que é ainda mais comum é vê-la a rir. Sorrir, só às vezes. Só para quem/o que valha a pena.
Na verdade, acima de tudo, ela é uma sonhadora realista. Sabe que os seus sonhos não passam disso, e que não conduzem a nada satisfatório, mas fá-la feliz sonhar.
Tem sempre tudo definido e criado na sua imaginação: sensações, cores, sabores, frases, momentos.
Palavras que os filmes lhe transmitam; imagens que as músicas e os livros representam.
Impulsiva ou Pensativa? Pensativa, sem dúvida alguma.
Uma filosofa por natureza, que ama as suas paixões com fervor e deleite, defendendo sempre aquilo em que acredita.
Solidão ou Multidão? Gosta das duas, como quase toda a gente. Ambas lhe conferem os seus momentos, que ela aprecia até ao último segundo.
Chocolate ou Fruta? Chocolate! Mas não podemos negar que ela adora fruta à excepção do pêssego e do côco.
Praia ou Campo? Praia, sem sequer pensar duas vezes. É claro que o ar, o céu e a calma do campo lhe proporcionam uma paz que nada mais consegue proporcionar. Apesar disso, a praia consegue ter um efeito nela que é inexplicável, até mesmo por si própria.
Há ainda espaços em branco para os quais ela ainda não tem resposta, mas espera ter.
E então, procurem, num prédio parado no tempo, na rua que apesar de movimentada, parece imutável ao longo das décadas, num pequeno quarto de 3º andar, uma rapariga que com o seu ser e essência, mal cabe nesse mesmo quarto. Uma rapariga que apesar de tudo o que a rodeia, de todos os que a rodeiam, do mundo em que vive, ainda encontra espaço e tempo para voltar a sonhar e acreditar.
Procurem. Ela, estará à janela, à espera...

[Este texto não teve qualquer tentativa de ser mesmo uma auto-biografia, mas tive a ideia, e o texto escreveu-se praticamente sozinho. Faltam claro muitas coisas sobre mim, mas talvez num próximo texto, eu escreva o resto... :) ]