09 agosto, 2012

Expiação (fim de Konstantine)

Enterrados na areia, os meus pés não parecem reais. Não os sinto aqui, por terem andado tão longe, por tanto tempo.
As ondas vão e vêm e trazem-me o conforto de saber que algumas coisas nunca mudam, por muito que o mundo pareça perdido ou fora do sítio.
Com a suavidade típica de quem paira, consigo distinguir passos incertos no areal; passos que só quem esteja constantemente à espera de algo consegue ouvir.
Vi os seus graciosos pés primeiro, depois o seu vestido branco comprido, o seu cabelo a esvoaçar com o vento, os seus olhos claros capazes de conter tudo dentro de si.
Inicialmente não me vislumbras, absorta na beleza do oceano, do céu azul, do sol que aquece apenas o corpo, mas não a alma - viras a cabeça na minha direção e vês-me. Mais ainda não sabes quem sou. Encaminhas-te para mim e nesse momento vejo a tua luta interior (a tua face muda de nervosismo para tristeza, para um misto de alegria e remorso e disso para antecipação).
Não consigo proferir palavras, porque não consigo acreditar o quão bela tu verdadeiramente és; nem na maneira como tudo em ti faz com que o meu corpo sinta pontadas de dor e saudade...Fito apenas o teu rosto, procuro os teus olhos com os meus e tento absorver o que mudou, os estragos visíveis que causámos um ao outro. Verifico que também ela não consegue falar porque está nessa busca incessante de matar a sede de mim, do que sobrou.
E então, digo-lhe tudo sem palavras:

"Konstantine...meu amor, nem acredito que estás à minha frente outra vez! Pensei ter-te perdido para sempre, mas voltei a este lugar uma última vez, talvez para perceber o que devia fazer, agora que voltei. Ele trouxe-me a tua presença adorável...
Não vou mentir, neste longo espaço de tempo, eu mudei, tu mudaste, ambos nos tornámos pessoas diferentes. Mas o meu amor por ti não desapareceu; trago-o sempre comigo cá dentro, porque me guia e me ilumina na noite. Também não vou dizer que não existiram momentos em que me apeteceu desistir, tentar apagar-te da minha memória; o caminho até onde estou hoje não foi nem fácil, nem indolor. Ressenti-te, senti-me injustiçado por não saber as razões que te moveram, por perceber que nunca te compreendi bem. Odiei-me por não te impedir de ires. Mas depois veio a calma, a compreensão, o perdão a tudo. Até a mim mesmo e decidi vir retomar este pedaço que ficou para trás quando também eu fui."

"Nem eu própria acredito no que os meus olhos vêem aqui à minha frente, sentado no mesmo sítio onde já estive inúmeras vezes, só para te relembrar. Apesar de parecermos os mesmos, eu sei que mudámos. E sim, sei que a culpa foi minha - calculo que não pareçam as melhores razões, mas o meu coração culpado ordena-me que te diga que não foi por não te amar...Isso nunca.
Mas tive medo, medo de estragar tudo (a primeira coisa boa da minha vida), medo de sentir que preciso tanto de ti, medo de saber que és real e que a qualquer momento te posso perder, medo do futuro, da vida. Medo por mim e por ti - medo de tudo, do rumo que estávamos a levar, possivelmente demasiado, demasiado rápido. O que nós criámos assustou-me com a sua intensidade, pensei que fosse muito bom para ser real. Tu viste-me, mesmo a mim, com tudo o que é mau e melhor, com os meus segredos e sonhos; tu conheces-me e isso encheu-me de pânico...Não estava habituada a ter alguém em quem me apoiar...Estava habituada a ser sozinha.
Mas desde que fui, a minha vida tornou-se um caos miserável, uma procura sem fim, sempre a tentar ver-te em todo o lado. Sem ti, perdi-me."

Ela senta-se a uma certa distância de mim na areia e continuamos a fitar-nos. Leio a apreensão por todo o seu corpo, portanto esboço um sorriso para lhe mostrar que está tudo bem. Ela solta uma gargalhada serena, coisa que me fez tanta falta. Há coisas que nunca mudam.
-"Então...?"
-"Então..."
Ambos aprendemos, mudámos, vivemos. Fizemos o que tínhamos a fazer e por isso deixei o passado ficar no seu sítio; a mágoa ou a raiva esgotaram-se assim que compreendi que nada disso me interessava. Tudo o que eu queria era tê-la nos meus braços de novo.
-"Já não tens receio, Konstantine?"
-"Já não...Não volto a deixar as minhas dúvidas arruinarem o melhor que já me aconteceu."
-"Ainda bem, porque desta vez, não vou a lado nenhum."

Parte I - 
Parte II -
Parte III -
Parte IV - 
Parte V -
Parte VI -

01 agosto, 2012

«You and me, I can see us dying...Are we?»

26 julho, 2012

Madrugada

Madrugada trabalhosa e quente.
Madrugada que nunca mais acaba.
E para que quero eu o seu fim?
Se é nela que encontro o conforto. A paz.

O tumulto cresceu, porque já se avizinhava.
O desabar desta chuva estava fadado.
Finalmente a imensidão de tudo isto rompeu:
Palavras desencadeiam pensamentos. Lágrimas.

Existe uma tristeza bela, quase poética na verdade.
O fardo custa, é pesado, é injusto. Revolta.
Mas podia ser pior, mais cruel. Menos meu.
Esse sobra, e vai modelando quem sou. Quase sempre.

Há algo de desesperante na solidão, na dormência.
Algo de inevitabilidade no vazio que ecoa cá dentro.
Nas palavras que ardem como se o sol me ferisse o
Coração. Que nunca vão, porque são a realidade.

Quando me sinto neste impasse, neste transe de
Pura mágoa, de pura aceitação do que é, tento
Abrir um pouco de caminho para a liberdade.
Encontro-a no silêncio, na calma do exterior.

Algo que isola, pode também libertar. Entra o vento.
Entra ele, mas saio eu, de cabeça baixa, alma pesada.
Entra o ar, a capacidade de respirar fundo. De me acalmar.
Entra tudo isso, e o desespero parte em busca de outrém.

A noite escura oculta o que nunca se poderá dizer.
O que eu nunca farei, o que eu sinto cá no fundo.
Coração abranda; a chuva torrencial cessa por hoje.
A madrugada chega ao fim, e eu abraço a ideia de partir.

23 julho, 2012

Addiction

Deixaste-o cair e eu apanhei-o.
Vi-o no chão e não pude recuar.
Fiquei com o teu coração nas mãos
E vi-o consumir-se como um cigarro.

Vi-o a desaparecer à medida que o
Tempo corria, à medida que ias.
Ias percorrendo esse trajeto.
Não tenho como voltar atrás.

Estas mãos, as minhas, seguram-te,
Mantêm-te vivo. Talvez uma parte de ti.
Talvez uma parte de mim também.
Não sei o que isto é, mas ainda o sinto bater.

Foste para longe, mas é possível.
Ele palpita sobre o meu próprio sangue.
De alguma maneira, eu trouxe-te à vida.
Trouxe-te a leveza da simplicidade.

A capacidade de acreditar, de vislumbrar
O mundo como ele poderia ser, de facto.
Dei-te o presente da alegria frágil de ser;
Trouxe-te a leveza de saber o que se quer.

O meu fardo está contigo. O teu prendeu-se a mim.
Já não está nas minhas mãos, porque sumiu.
Nada que eu queira mudar fará agora diferença.
Tornei-me parte de ti, não tenho como voltar atrás.

16 julho, 2012

Diminuir a intensidade de.

«Come break me down...bury me»

Veem-na com o cabelo ao vento, com o coração cansado do peso da chuva, a alma que reflete o céu noturno ou a beleza das sombras e não conseguem lê-la. Poucos conseguem.
Olham e ficam sem saber o que é ao certo; não, não é nada simples ou concreto, é algo bem mais profundo e secreto. Talvez seja a honestidade, a falta de corrupção, a surpresa constante que fornece (o inesperado que daí advém), alguma coisa brilhante que demora a passar. Mas talvez não...Talvez seja a fortaleza sempre prestes a quebrar que mantém o mistério, o realismo cru, a espontaneidade por vezes comovedora. Talvez seja isso, não sei.
Rodeiam-na e só alguns realmente reparam, veem o que há por baixo dessa camada exterior que nunca permite que a fragilidade das profundezas chegue ao de cima, veem o que não está lá. Veem os estragos que o peso das lágrimas vai marcando - a vulnerabilidade não é fácil de aceitar, porque nos faz perder todo o controlo que julgamos ter.
Assim, consegue manter a ilusão inocente de que tem as respostas que precisa de ter, de que sabe quem é afinal ou o que realmente quer de tudo isto. Nem sempre...Com essa tentativa, evita que os olhares mais atentos ou cruéis compreendam que a triste verdade é que já não consegue respirar.
Sempre que pára, dá por si parada num espaço sem saída onde tem de dar meia volta para evitar esse fim; não consegue respirar fundo, inspirar, sentir o ar a entrar e a sair. Não lhe é mais possível pensar claramente, sem entraves que tapem a claridade, que abafem o seu espírito. Até o conseguir, vai estar sempre presa nesta maré impetuosa que não a deixa abandonar este local e que a mantém prisioneira da sua corrente: ora à tona, lutando por um suspiro, ora arrastada onde não consegue ver a luz do dia, nas profundezas.
Incapaz de findar o que foi começado, mas que se desenrolou com o tempo, sobrevive devido aos pequenos refúgios que encontra pelo caminho. Quando começou essa dita luta, não esperava que fosse assim. Nunca assim tão difícil, porque eventualmente os demónios deviam sumir da sua vida.
Vagueia para longe de todos vós, dos olhares que magoam, que instigam, que silenciam, que pressionam demasiado. Dos olhares que cortam a respiração, que sufocam até a conduzir a um buraco negro que a engole por inteiro. Asfixia.
Apertam o círculo e respiram-na, até não haver mais nada.

15 julho, 2012

Crónica de uma Velha Infância


Felizes para sempre?! Essa já é de outrora, quando o mais complicado na vida era decidir ao que brincar nesse dia.
Mas é verdade, a tentação de querer viver eternamente e (ainda por cima!) feliz assombra-nos desde que somos crianças; crescemos programadas para acreditar que num belo e soalheiro dia, um rapaz encantador nos trará prontamente um sapato de cristal ou nos fará acordar de um sono intemporal (ao qual julgo corresponder a dormência permanente da vida).
Onde é que foram buscar esta ideia absurda? De que período pré-histórico saiu o conceito de que as raparigas precisam da ajuda de um príncipe corajoso, sempre pronto a salvá-la mal ela esteja em apuros? Penso que devo chamar à atenção de que nestes ditos filmes, o conceito de emancipação feminina não existe de todo...Não pode existir.
Voltando à minha primeira questão, quem é que achou por bem inventar falácias deste género, embrulhadas num belo laço feito de corda para entregar de forma mordazmente implacável a crianças inocentes? Falando como vítima indignada desta mesma situação, digo-vos que ter recebido esta montanha de ilusões, tão nova, só me alimentou ideias que nunca deviam ter visto a luz do dia.
O que eu gostava de saber (entre outras coisas) é como é que ninguém pensa nas consequências bizarras que isto tem? Um dia, todas as jovens que entusiasticamente choraram com a aparição de tão malfadada frase final vão crescer (sim, acontecerá!) e vão fitar o vazio alheio que as rodeia, perguntando-se sobre o que tinham andado a fazer durante toda a sua curta vida, à espera do que não existe; príncipes? Deixem-me rir...
Conselho para todos os futuros cineastas da disney: não é agradável acordar um dia para perceber que tudo era uma mentira risonha, que tudo era enganador, o oposto da realidade. Enche-nos de sarcasmo, torna-nos cínicas perante o cenário que julgávamos conhecer (enterrado com o romantismo, a visão do amor ideal que não é realista); deixa-nos desfeitas, céticas.
Era uma vez uma história mal contada, mas permitam-me que a corrija - uma rapariga de classe média (o feudalismo já desapareceu há muito) que divide o apartamento com algumas amigas (as rendas estão caras, claro está!) e que conhece um rapaz num bar, que lhe paga um cocktail (talvez venha num copo de cristal, mas não prometo!), não querendo de todo viver com ela, quanto mais para sempre!
Será que foram os padrões que mudaram assim tão drasticamente, ou isto nunca aconteceu fora do cérebro utópico de algum infeliz?
Confiem em mim...Hoje em dia nada do que se vive é fantasia, isso já acabou e o que sobrou são os devaneios sonhadores de mulheres tolas que precisam de acreditar no seu final feliz. Deixem-se de contos de fadas e pode ser que um dia, num alternativo Era Uma Outra Vez, vocês sejam a segunda melhor escolha. E quem se importa? O para sempre não existe, muito menos a felicidade eterna; por isso, em vez de esperarem pelo vosso palácio ou o vosso cavaleiro andante, aproveitem a vida que têm agora, com as pessoas que já estão nela, e que talvez estejam a ser desvalorizadas por vós. Assim, pode ser que encontrem a alegria remota que tanto desejavam. Procurem-na, não esperem por ela!

The End

02 julho, 2012

Fundo do Meu Lugar

«I never lived a lie, never took a life..»

Quanto tempo demorará isto a sarar?
Dizem-me que as cicatrizes passam, mas que o sentimento nunca vai embora por completo. É o que dizem.
As queimaduras ainda perduram tanto à superfície que o simples facto de contemplar este fogo esquecido as faz arder. Faz-me lembrar o que perdi, o que não conheci, o que não tenho hoje.
Toco ao de leve nas feridas porque desejo que desapareçam, que deixem de ser um fardo para mim. Já pedi, já tentei, já tive o meu luto. Mas por mais que tente seguir em frente, algo mais forte que eu volta a trazer-me aqui - a este sítio onde o tempo não existe e as imagens e os sons das memórias ecoam desordenadamente à minha volta. Cada canto, cada pedra, cada árvore testemunhou a minha dita vida; estes, imutáveis e eternos, viram-me crescer, viram a rutura que houve, quando a minha vida como eu a conhecia mudou para sempre, arrastando consigo a sombra de mim.
Agora, passado tanto tempo, testemunham apenas o que restou - as lágrimas silenciosas, a mágoa, a frustração, os cortes que ainda têm de ser curados...
Sem querer, pego na lenha acumulada em várias vidas e atiro-a para a lareira que me consome. Talvez consiga incendiar-me por completo, talvez consiga depois apagar este fogo que não finda de me engolir.
Inferno na terra, aqui sou atormentada em todas as horas com as lembranças, com o peso das perguntas que inevitavelmente se seguem. As que nunca terão resposta. As que me irão eventualmente enterrar no monte de cinzas e pó que aqui apareceu depois do fogo se ter cansado de crescer.
Quanto tempo demorará isto a sarar? 
Dizem-me que as cicatrizes serão em breve, mas que o sentimento só o tempo pode curar.
Um dia.