23 julho, 2012

Addiction

Deixaste-o cair e eu apanhei-o.
Vi-o no chão e não pude recuar.
Fiquei com o teu coração nas mãos
E vi-o consumir-se como um cigarro.

Vi-o a desaparecer à medida que o
Tempo corria, à medida que ias.
Ias percorrendo esse trajeto.
Não tenho como voltar atrás.

Estas mãos, as minhas, seguram-te,
Mantêm-te vivo. Talvez uma parte de ti.
Talvez uma parte de mim também.
Não sei o que isto é, mas ainda o sinto bater.

Foste para longe, mas é possível.
Ele palpita sobre o meu próprio sangue.
De alguma maneira, eu trouxe-te à vida.
Trouxe-te a leveza da simplicidade.

A capacidade de acreditar, de vislumbrar
O mundo como ele poderia ser, de facto.
Dei-te o presente da alegria frágil de ser;
Trouxe-te a leveza de saber o que se quer.

O meu fardo está contigo. O teu prendeu-se a mim.
Já não está nas minhas mãos, porque sumiu.
Nada que eu queira mudar fará agora diferença.
Tornei-me parte de ti, não tenho como voltar atrás.

16 julho, 2012

Diminuir a intensidade de.

«Come break me down...bury me»

Veem-na com o cabelo ao vento, com o coração cansado do peso da chuva, a alma que reflete o céu noturno ou a beleza das sombras e não conseguem lê-la. Poucos conseguem.
Olham e ficam sem saber o que é ao certo; não, não é nada simples ou concreto, é algo bem mais profundo e secreto. Talvez seja a honestidade, a falta de corrupção, a surpresa constante que fornece (o inesperado que daí advém), alguma coisa brilhante que demora a passar. Mas talvez não...Talvez seja a fortaleza sempre prestes a quebrar que mantém o mistério, o realismo cru, a espontaneidade por vezes comovedora. Talvez seja isso, não sei.
Rodeiam-na e só alguns realmente reparam, veem o que há por baixo dessa camada exterior que nunca permite que a fragilidade das profundezas chegue ao de cima, veem o que não está lá. Veem os estragos que o peso das lágrimas vai marcando - a vulnerabilidade não é fácil de aceitar, porque nos faz perder todo o controlo que julgamos ter.
Assim, consegue manter a ilusão inocente de que tem as respostas que precisa de ter, de que sabe quem é afinal ou o que realmente quer de tudo isto. Nem sempre...Com essa tentativa, evita que os olhares mais atentos ou cruéis compreendam que a triste verdade é que já não consegue respirar.
Sempre que pára, dá por si parada num espaço sem saída onde tem de dar meia volta para evitar esse fim; não consegue respirar fundo, inspirar, sentir o ar a entrar e a sair. Não lhe é mais possível pensar claramente, sem entraves que tapem a claridade, que abafem o seu espírito. Até o conseguir, vai estar sempre presa nesta maré impetuosa que não a deixa abandonar este local e que a mantém prisioneira da sua corrente: ora à tona, lutando por um suspiro, ora arrastada onde não consegue ver a luz do dia, nas profundezas.
Incapaz de findar o que foi começado, mas que se desenrolou com o tempo, sobrevive devido aos pequenos refúgios que encontra pelo caminho. Quando começou essa dita luta, não esperava que fosse assim. Nunca assim tão difícil, porque eventualmente os demónios deviam sumir da sua vida.
Vagueia para longe de todos vós, dos olhares que magoam, que instigam, que silenciam, que pressionam demasiado. Dos olhares que cortam a respiração, que sufocam até a conduzir a um buraco negro que a engole por inteiro. Asfixia.
Apertam o círculo e respiram-na, até não haver mais nada.

15 julho, 2012

Crónica de uma Velha Infância


Felizes para sempre?! Essa já é de outrora, quando o mais complicado na vida era decidir ao que brincar nesse dia.
Mas é verdade, a tentação de querer viver eternamente e (ainda por cima!) feliz assombra-nos desde que somos crianças; crescemos programadas para acreditar que num belo e soalheiro dia, um rapaz encantador nos trará prontamente um sapato de cristal ou nos fará acordar de um sono intemporal (ao qual julgo corresponder a dormência permanente da vida).
Onde é que foram buscar esta ideia absurda? De que período pré-histórico saiu o conceito de que as raparigas precisam da ajuda de um príncipe corajoso, sempre pronto a salvá-la mal ela esteja em apuros? Penso que devo chamar à atenção de que nestes ditos filmes, o conceito de emancipação feminina não existe de todo...Não pode existir.
Voltando à minha primeira questão, quem é que achou por bem inventar falácias deste género, embrulhadas num belo laço feito de corda para entregar de forma mordazmente implacável a crianças inocentes? Falando como vítima indignada desta mesma situação, digo-vos que ter recebido esta montanha de ilusões, tão nova, só me alimentou ideias que nunca deviam ter visto a luz do dia.
O que eu gostava de saber (entre outras coisas) é como é que ninguém pensa nas consequências bizarras que isto tem? Um dia, todas as jovens que entusiasticamente choraram com a aparição de tão malfadada frase final vão crescer (sim, acontecerá!) e vão fitar o vazio alheio que as rodeia, perguntando-se sobre o que tinham andado a fazer durante toda a sua curta vida, à espera do que não existe; príncipes? Deixem-me rir...
Conselho para todos os futuros cineastas da disney: não é agradável acordar um dia para perceber que tudo era uma mentira risonha, que tudo era enganador, o oposto da realidade. Enche-nos de sarcasmo, torna-nos cínicas perante o cenário que julgávamos conhecer (enterrado com o romantismo, a visão do amor ideal que não é realista); deixa-nos desfeitas, céticas.
Era uma vez uma história mal contada, mas permitam-me que a corrija - uma rapariga de classe média (o feudalismo já desapareceu há muito) que divide o apartamento com algumas amigas (as rendas estão caras, claro está!) e que conhece um rapaz num bar, que lhe paga um cocktail (talvez venha num copo de cristal, mas não prometo!), não querendo de todo viver com ela, quanto mais para sempre!
Será que foram os padrões que mudaram assim tão drasticamente, ou isto nunca aconteceu fora do cérebro utópico de algum infeliz?
Confiem em mim...Hoje em dia nada do que se vive é fantasia, isso já acabou e o que sobrou são os devaneios sonhadores de mulheres tolas que precisam de acreditar no seu final feliz. Deixem-se de contos de fadas e pode ser que um dia, num alternativo Era Uma Outra Vez, vocês sejam a segunda melhor escolha. E quem se importa? O para sempre não existe, muito menos a felicidade eterna; por isso, em vez de esperarem pelo vosso palácio ou o vosso cavaleiro andante, aproveitem a vida que têm agora, com as pessoas que já estão nela, e que talvez estejam a ser desvalorizadas por vós. Assim, pode ser que encontrem a alegria remota que tanto desejavam. Procurem-na, não esperem por ela!

The End

02 julho, 2012

Fundo do Meu Lugar

«I never lived a lie, never took a life..»

Quanto tempo demorará isto a sarar?
Dizem-me que as cicatrizes passam, mas que o sentimento nunca vai embora por completo. É o que dizem.
As queimaduras ainda perduram tanto à superfície que o simples facto de contemplar este fogo esquecido as faz arder. Faz-me lembrar o que perdi, o que não conheci, o que não tenho hoje.
Toco ao de leve nas feridas porque desejo que desapareçam, que deixem de ser um fardo para mim. Já pedi, já tentei, já tive o meu luto. Mas por mais que tente seguir em frente, algo mais forte que eu volta a trazer-me aqui - a este sítio onde o tempo não existe e as imagens e os sons das memórias ecoam desordenadamente à minha volta. Cada canto, cada pedra, cada árvore testemunhou a minha dita vida; estes, imutáveis e eternos, viram-me crescer, viram a rutura que houve, quando a minha vida como eu a conhecia mudou para sempre, arrastando consigo a sombra de mim.
Agora, passado tanto tempo, testemunham apenas o que restou - as lágrimas silenciosas, a mágoa, a frustração, os cortes que ainda têm de ser curados...
Sem querer, pego na lenha acumulada em várias vidas e atiro-a para a lareira que me consome. Talvez consiga incendiar-me por completo, talvez consiga depois apagar este fogo que não finda de me engolir.
Inferno na terra, aqui sou atormentada em todas as horas com as lembranças, com o peso das perguntas que inevitavelmente se seguem. As que nunca terão resposta. As que me irão eventualmente enterrar no monte de cinzas e pó que aqui apareceu depois do fogo se ter cansado de crescer.
Quanto tempo demorará isto a sarar? 
Dizem-me que as cicatrizes serão em breve, mas que o sentimento só o tempo pode curar.
Um dia.

11 junho, 2012

Assombrada

«I am Jack's broken heart...»

Sentada na ponta da espiral que desce.
Ela desce à tristeza, à loucura. Ao inferno.
Viaja levianamente até encontrar onde dói. Onde sinto.
Viaja e percorre os caminhos do não-dito.

Acho que implodi, ali sentada. Parecia calma,
Quase absorta - não estava. Gritei por dentro.
Rasguei, desfiz, peguei fogo, sangrei. Máscara.
Morri, voltei à vida. Estava partida, sem saída.

O ressentimento cria um leve veneno que sabe
Espalhar-se com o passar do tempo. Realidade.
A revolta, a raiva, a compaixão, o abandono,
A dúvida, a crueldade, a náusea...Tudo não-passa.

Vão e voltam (voltam sempre), sempre em espiral
Perfeita, que nunca desiste de me levar para baixo.
De me enterrar na verdade inconsciente, obscura.
Talvez essa me consuma de vez. Claro, não vou parar.

Nunca vou deixar tudo isto ir, nunca irei conseguir
Ver o fim, a paz, o paraíso. Ter o meu descanso.
É-me impossível apagar o passado, mas também
Sou incapaz de calar o presente obstinado.

Esse presente que causa mágoa, luto por algo vivo.
Que me confunde, que me vem mostrar a minha
Humanidade. Que me irrita, pois continua a 
Surpreender-me quando não quero (constantemente).

Não sei como recomeçar. Não me é possível apagar
O feito - nem eu o queria, verdadeiramente. Só gostava
De poder saber como, ver a luz...É demasiado tarde 
Para algo nascer aqui. O sol já secou há muito:

O chão está quebrado, todos estamos, sempre estaremos.
E é o vendaval tão incrivelmente intenso de nada a
Fazer que me impede. Que me desespera, dia após dia.
Lágrima após lágrima, pedaço a pedaço.

É o castigo infernal de querer, mas ter noção de
Que não posso; de desejar, de ter esperança,
Mas ver de uma maneira doentia que nunca será.
Nunca haverá isso aqui.

Sentada na ponta da espiral, que balança.
Não sei o que sentir, quase nunca soube -
Em tempos soube agir, mas já não. Acabou.
Liberto memórias, tento manter outras comigo.
Mas todas elas já estão rasgadas.

10 junho, 2012

Metamorfose?

«This could be paradise»

O momento de silêncio propaga-se como o choque gradual que uma onda deixa atrás de si. O riso esmoreceu, o sorriso permanece apenas petrificado nos lábios, o ar que se respira tornou-se sério subitamente.
Ninguém consegue ver estas mudanças, elas não são captadas pelo olho humano (nem mesmo pelo que está atento); talvez a diferença entre o princípio e o fim se distinga pelo cheiro das coisas, pela maneira como os olhos sorriem com a presença ou como os pensamentos fluem e se interligam facilmente, abrindo caminho à quase-telepatia.
O olhar repara no que o coração sente, olhamo-nos infinitamente, queremos pintar este momento para sempre na memória eterna que nunca nos abandonará - pego-te na mão, tu tocas no meu cabelo, fazendo esta dança que tem por fim deixar uma impressão literal uns nos outros.
O agradecimento ritualístico e mudo faz com que o mundo à nossa volta perca a sua nitidez, o seu eco já não nos diz nada (aprisionados neste esconderijo de alegrias e tristezas acumuladas); penso que a solenidade deste fim é marcado pela incapacidade de descrever o que está escrito na minha cara, nos meus olhos, nas minhas mãos...Se calhar só o sorriso e a lágrima o podem fazer. Traduzir a dimensão do que sinto.
Mudaram-me, fizeram-me ver coisas que nunca poderia ter visto sozinha e coisas que estiveram sempre à minha frente; ensinaram-me algo sobre mim, sobre o valor do amor, da compaixão (também da tristeza, das coisas más), supreenderam-me pelo melhor e pelo pior. Fizeram-me rir, chorar, gritar de raiva, de felicidade...Fizeram-me ver o lado bom da vida quando tudo o que eu via era a sua treva. Criaram ambição em mim, avivaram a alma corajosa que eu tinha esquecido há muito, relembram-me que devemos seguir o nosso instinto, que devemos tentar atingir os nossos limites, esperar mais de nós, dar tudo por tudo até conseguirmos voar (alargar todos os horizontes possíveis, tentar mais e melhor, tentar estar em todo o lado).
Com vocês cresci, sofri, cresci mais um pouco. Tentei procurar o que faltava, tentei melhorar o que não estava bem...Tentei ajudar-vos, tornar o vosso mundo um pouco mais colorido, um bocadinho menos turvo, um bocadinho mais vosso, mais feliz. Não sei se falhei (decerto que não consegui parar a vossa trovoada sempre), mas quero que saibam que o foi o que quis de todas as vezes em que a tristeza ou a dor pairavam por perto.
Espero sinceramente que tenham ganho algo de mim: nada me deixaria mais realizada do que saber que pelo menos uma vez, iluminei o vosso mundo, que algum dia vos ajudei, vos fiz feliz, vos dei razões para sorrirem...Espero que um dia, com toda a distância do tempo que nos possa separar, olhem para trás e se lembrem desta viagem incrível que vivemos em conjunto - e que vamos ainda viver. Espero que relembrem e se riam, porque sabem que enquanto durámos, foi só preciso fechar os olhos e acreditar. Tudo é possível, obrigada!

07 junho, 2012

Ponteiros

É tudo tão efémero...
A vida, a felicidade, o amor.
Tudo chega e passa, vulneráveis ao vento.
Tornando tudo precário ou incerto.

Posso contemplar a segurança que finjo
Ter, posso recordar as memórias que
Tento guardar - é em vão. Tudo isso
Escapa demasiado rápido. Desaparecem.

Se tento agarrar o que importa, eles somem
Mais depressa. Só vejo o seu rasto, o que
Ficou da alegria, da tristeza, da paixão.
O pó que ficou de outra vida.

O que importa o passado, o futuro?
O presente ainda agora chegou e já vai
Embora. Vai a correr por mim, levando o
Que eu amo - quem eu amo, o que conheço.

(realidade)
O suspiro acorda-me, o bocejo desperta-me.
O grito que paira no ar relembra-me a imensidão
Do mundo, as possibilidades existentes criadas.
E é tudo tão efémero... Já acabou.