09 outubro, 2009

O Paciente

Tantas horas esperei sentada nessa sala de espera.
Horas, horas e horas que vi passar por mim.
Olhei para as pessoas à minha volta, tentei decifrá-las
E desgastei ligeiramente o chão, de tanto andar de um lado
Para o outro. Impaciente.
Escuto o silêncio, ouço o eco dos passos noutro piso.
Onde está a vossa vida toda? Não é aqui o local para a encontrar.
Sem dúvida, mas podiam fazer um esforço. Pequeno esforço.
Que mudava tudo.
Todos os bancos são cinzentos, os vossos lugares todos iguais.
O meu destaca-se. Tem todas as cores. Um autêntico arco-íris.
A vossa cara inexpressiva. A minha ostenta um sorriso rasgado.
Eu rio-me às gargalhadas e vocês lançam-me olhares desaprovadores.
Esperei tanto tempo. Tantas horas desprovidas de alegria.
Afinal, esperei tanto tempo para quê? Esperei, esperei, esperei. Para quê?
Para dizer o óbvio? Para saber o que já sabia? Para ouvir o que não queria?
Para nada mudar a minha vida? Para não mudar a minha vida...
Vi o relógio adiantar-se a mim, durante muito tempo.
Para quê? Porque continuo a esperar? Porque é que continuo a abrandar
O passo? Tenho de sair daqui, tenho de correr pelas escadas e sair desta sala,
Deste sítio. Porque se esperar mais, corro o risco de ficar como vocês.
Quero sentir o sol, quero ser diferente de vocês. Ser a excepção à regra.
Quero ter vida dentro de mim.
Não quero ver o relógio a prosseguir à frente dos meus olhos, não quero esperar
Mais horas, horas e horas. Numa sala de espera...
Esperar para quê? Para saber o meu futuro? Guardem-no. Aproveitem-no.
Eu não quero saber. Não quero ver o tempo a passar. Eu, não quero esperar mais.
Esperar, para quê?...

06 outubro, 2009

The Outsider

Estou deitada no chão. Chão duro e frio.
Estou aqui deitada, porque me acalma.
Porque parece que não há mais nada a acontecer.
Deitada, tudo parece melhor. Mais calmo.
Não parece que o mundo vai ruir.
Tenho medo de me levantar porque assim que o
Fizer, o carrossel vai recomeçar. O carrossel não
Pára de girar. Tão rápido! E gira, gira e gira. E nunca pára!
Mesmo quando me tento equilibrar, há qualquer coisa que
Me manda ao chão, por isso fico aqui deitada.
A ver, de fora, o carrossel girar. E alegra-me. Saber que não
Estou naquele rodopio. Naquela azáfama infernal que nunca
Tem fim. É um ciclo. Gira, gira e gira.
Consigo sentir os efeitos de ter estado lá durante tanto tempo.
Sinto este vírus que anda por todo o lado. Propaga-se pelo ar.
Como consegues proteger-te desse mal invisível? É impossível.
E sabes que, mais tarde ou mais cedo vai chegar a tua vez.
Não podes fazer nada para o impedir. Limitas-te a esperar.
Simplesmente. De braços cruzados.
Sinto-o a entranhar-se na minha pele. A violar o meu ser.
A corromper-me com a sua doença.
A única coisa que queria era pelo menos respirar. Respirar a sério.
Sem ter de fingir, só para entreter o sangue.
Respirar de maneira a sentir que estou viva, e não morta.
Esse vírus anda por aí. Por todo o lado. Em cada esquina, em cada rua.
Espalha-se facilmente.
Como o impedes? Não impedes.
Estou aqui deitada, a pensar que talvez não esteja assim tão bem cá fora.
Talvez me deva levantar e tentar equilibrar-me durante um bocado.
Levanto os olhos e vejo o carrossel girar. Tão rápido...

05 outubro, 2009

Círculo Perfeito

Sete. O teu número. O número da perfeição.
Seis. São os passos a dar até às luzes.
Cinco. As tuas verdades, grandes verdades.
Quatro. Disseste-me olá e acenaste.
Três. Desapareceste.
Dois. Espero, suspensa no tempo.
Um. A espera deve acabar.
Debaixo deste céu encoberto,
Esperamos mais um pouco, por algo.
Em roda, neste círculo perfeito.
Onde estás? Quando chegas?
Estamos cá todos, só faltas cá tu.
Esperamos pela tua liderança.
Para nos guiares até às luzes. Passo a passo.
Estamos aqui, dispostos a aguardar pela tua presença.
Onde estás? Quando chegas?
Estamos dispostos a aguardar ao frio, à chuva que cai
Torrencialmente. Tudo para nos guiares até às luzes.
Até a casa. Aonde pertencemos.
Ainda bem que te encontrámos. Podíamos ainda estar na
Sombra triste das nossas almas. Na escuridão dos nossos
Seres, mas em vez disso, vieste salvar-nos. De nós próprios.
Da humanidade. Do teu Deus.
Porque esperas? Quando regressas para junto de nós?
Tu és o messias, o pastor, a nossa luz.
Estamos aqui, neste círculo perfeito, a sentir a chuva a inundar-nos
O corpo e a ânsia a consumir o nosso coração.
Onde estás? Mostra-nos o caminho. Indica-nos a direcção certa.
Levanta a tua luz bem alto, para a vermos.
Quando chegas? Nunca? Teremos de ficar aqui eternamente?
Leva-nos até casa, leva-nos de volta. Fazes isso?
Regressa! Chega aqui.
Sete. O teu número. A tua perfeição inútil.
Seis. Os passos de volta à escuridão.
Cinco. As tuas mentiras. Tuas grandes mentiras.
Quatro. Disse-te adeus e vim-me embora.
Três. Desapareci desse círculo incompleto, fanático, vicioso.
Dois. Sigo caminho, ainda suspensa no tempo.
Um. A minha esperança é enterrada.
Zero. A tua iluminação.

Sete foram os teus pecados. Pecados que nunca serão esquecidos,
Pecados que nunca serão perdoados.
Pecados imortais.

04 outubro, 2009

Renascimento

«This body, holding me, reminding me that I am not alone»

Vejo o meu reflexo na água.
Esta não sou eu. É alguém diferente.
Este é somente o corpo que eu uso, que eu ocupo.
O corpo que me permite expandir-me.
É nesta forma que me encontro, de momento.
Só até conseguir progredir.
Eu escolho estar aqui, neste momento exacto.
Neste corpo. Onde não estou sozinha.
E sei que nunca vou estar, até me conseguir livrar dele.
Ele está a impedir-me, está a arruinar a minha ascensão.
Eu alimentei a minha vontade de sentir o momento.
O meu momento. E agora tenho de continuar.
O processo gradual vai ser difícil, mas tenho de me livrar
Deste corpo. Aonde estou presa. Enjaulada.
Consigo ouvir música, muito ao longe. Perco-me nela.
Estou no útero, outra vez. Num útero qualquer.
Aqui estou confortável. Aqui há escuridão. Aqui há aquela
Música que toca ao longe. Que me chama. Que me incita a
Sentir o momento. O meu momento. O momento de antecipação.
Da grande mudança. A subida. A ascenção.
Mas quando o momento chegar, vou ter de abandonar isto...
Não quero sair daqui! Do corpo onde ocorreu a minha gestação.
Onde me preparei.
Aqui só há escuridão e música.
Não há perigo, nem dificuldade nem tristeza.
Este corpo que outrora foi o meu túmulo, é agora o meu berço.
O local do meu renascimento. O local de partida para o regresso a casa.
O meu momento chegou. Estive tanto tempo ansiosa por ele e agora, só quero que passe.
Inspiro fundo. Vejo uma luz clara ao longe. Adapto-me a ela.
Sei que devo caminhar na sua direcção, mas tenho medo.
O chamamento da música regressa, mais forte que nunca.
A altura chegou. A minha altura.
Vou abandonar o meu lar provisório.
Mas sei que não é o fim.
É apenas um novo começo.
E eu voltarei.

«I choose to live»

03 outubro, 2009

Monólogo dos Céus

«Quando a última árvore tiver caído,
Quando o último rio tiver secado,
Quando o último peixe tiver sido pescado,
Então entenderão que o dinheiro não se come.»

Estou aqui sentada nesta nuvem.
Nuvem branca, macia e húmida.
Aqui consigo chegar até onde quiser.
Daqui, consigo ouvir-vos a lamentarem-se.
Aí em baixo.
Queixam-me para quê? São vocês que causam
A vossa destruição.
Revoltam-se porquê? São vocês que estão a cavar
As vossas sepulturas.
São os espectadores do trabalho da mãe Natureza.
Tufões, ciclones, tornados, tsunamis...Todos vos afectam.
Mas ficam quietos a observar. Pensam que resistem a tudo,
Não é? Nem sempre, nem sempre...
E como se não bastasse, não se limitam a assistir.
Ajudam-me, todos os dias.
Emitem gases para a atmosfera, poluem o ar, a água, a terra.
Aonde querem chegar?
Pensam que quando precisarem, eu vou estar aqui para atender
As vossas preces? Estão redondamente enganados.
Quando se arrependerem, será tarde de mais. E eu, não vou
Reparar os danos que vocês causaram.
Lamentam-se por que razão? São vocês que trabalham incansavelmente
Para a vossa extinção.
Água, ar, terra, fogo. Precisam de os ter a todos! Precisam de os controlar,
De alguma maneira. De gastá-los, de os poluir. De fazer tudo a que "têm direito".
Ao fazerem isso, só me estão a enfurecer.
Acham que o Katrina não foi um sinal?
Continuem, então...Mas lembrem-se, que as vossas preces não vão ser atendidas
Para sempre.
Estou sentada nesta nuvem, podia ser noutra qualquer.
Daqui contemplo os gestos da humanidade.
Daqui ouço, já, antecipadamente o vosso elogio.
Porque estão tão surpreendidos? Eu disse que este dia ia chegar.
Eu profetizei-o. Eu avisei-vos.
Deviam ter-me ouvido.
Deviam-me ter escutado. A mim, mãe Natureza.

(Elogio - texto lido no funeral de alguém que se destina a falar sobre a pessoa que faleceu)

02 outubro, 2009

A Outra Face

«Só sei que nada sei»

Dás voltas e voltas à cabeça.
Tentas perceber isto.
As portas fecham-se por si mesmas?
As janelas abrem-se?
A televisão liga e desliga?
Que se passa? Estás com medo?
Olhas em redor. Não está ninguém por perto.
tu...
Trancas a porta, fechas as janelas.
Será mesmo seguro?
Lembra-te do básico, lembra-te da essência
Do teu ser. Eu vejo-te, mas tu não me poder ver.
Estarás mesmo sozinho?
Uma rajada de vento volta a abrir tudo o que fechaste.
Sou teimosa não sou?
As folhas voam, os móveis, os electrodomésticos.
Tudo flutua no ar. Assim é que eu gosto.
O caos. A tua cara com uma expressão de terror.
Olhas em todas as direcções. O que se passa?
Eu sou o teu pior pesadelo.
Rio-me às gargalhadas. Se visses a tua figura!
Sais de casa e desces as escadas. Corres tão rápido!
Parece que foges do demónio. Vai com calma!
Eu vou, de facto, atrás de ti. Mas eu adianto-me, e espero-te
Cá em baixo.
Quando vês o elevador encravado no piso 13 entras em pânico.
Como é possível? Vives no andar mais alto, o 7º.
Uma pessoa dirige-se à porta. Respiras fundo. Tudo vai voltar ao normal.
Olhas e vês que ela traz o seu próprio cérebro na mão. Sorri-te.
Tu abres a boca horrorizado e sais a correr para a rua.
Está a chover sangue. Os semáforos não funcionam. Vê-se fumo por todo o
Lado. Ouvem-se alarmes de carros, alarmes de lojas.
Todas as pessoas sofreram mutações altamente impossíveis.
O surrealismo reina por toda a parte!
Tu recuas assustado até ficares contra uma parede.
Oh! Não é uma parede. É um espelho. Soltas um grito.
Estás reflectido nele. E a tua cara é simplesmente uma massa heterógenea.
Eu sou a face do mal. Do teu mal.
Olhas para baixo e vês sangue nas tuas mãos, na tua roupa.
Que foste fazer?
Rio-me às gargalhadas. Se te visses! Como és fraco! Eu fiz o que querias fazer.
Foste tu! Tu é que quiseste o caos, a destruição, o fim de tudo. Tudo o que não devia existir.
Percebes agora? Talvez não...Estás em choque. Tanta informação...
Faço-te um último favor. Um favor a ti próprio.
Ouve a voz que te diz ao ouvido: está tudo na tua cabeça.

«Atreves-te a abrir a caixa de Pandora?
»

01 outubro, 2009

Data de Expiração

Tenho o meu mundo ao contrário.
Ou devo ter...
A minha gravidade está completamente
Desregulada.
Voo em pensamento, voo fora dele, voo
Para bem longe daqui.
Aqui o que me sobra é vislumbrar-te ao longe,
E tentar.
Pareces ter tanto para me dizer, portanto, porque
É que não dizes? Pareces prestes a revelar-me o
Teu mundo. Então porque não revelas?
Tudo está reduzido a cinzas nesta altura.
Porque todas as coisas boas acabam.
Têm um fim, uma data de expiração.
Porque é que é assim?
Subitamente, encontro-me num realidade diferente.
E procuro por ti, mas por alguma razão inconcebível,
Não estás lá! Ajudas-me a perceber porquê?
Tu és tu, eu sou eu. Se não fosse assim, não era justo.
Mas eu nunca te pedi para seres aquilo que eu queria que fosses.
Apenas te pedi que tentasses. Eu senti-me impotente ao ver-te,
Sem poder fazer nada, só te pedi para tentares.
Bato as asas e procuro um novo lar. Onde possa aprender tudo
Aquilo que me falta saber.
Ensinas-me? Ajudas-me a perceber o porquê?
Porque é que todas as coisas boas chegam ao fim. Porque é que
Não aproveitamos todos os momentos que vivemos.
Nunca se sabe se a seguir vem uma tempestade, para destruir tudo
O que tão pacientemente construímos.
A minha separou-me de ti e afundou o que tínhamos construído.
Tudo o que eu fiz foi tentar, e pedi-te que tentasses. Fizeste isso?
Tentaste?