13 setembro, 2009

Para Maria

Não chores por mim.
Quando eu partir. Porque isso vai acontecer.
É inevitável, por isso, não chores por mim.
Não te atrevas a fazer-me sentir culpada!
Não te atrevas a chorar por mim!
Não te faças de vitíma! Por uma vez que seja,
Assume a tua culpa. Não a empurres para cima
De outrém, não apontes o dedo.

Odeio que me usem! Odeio que brinquem comigo,
Como num jogo.
Pensas que não sei? Pensas que não descobri?
Estás tão enganada!
Estiveste tão cega que não paraste para prestar
Atenção às pequenas coisas. Essas é que te incriminaram.
É que me mostraram quem eras realmente.
Não me mintas! Não me agarres no braço, não me impeças!
Eu vou partir...
Por isso, não chores por mim.

11 setembro, 2009

O Passageiro

Olho pela janela. Vejo os quilómetros de estrada serem percorridos.
Sentas-te à minha frente. Eu fixo o olhar em ti. Pareces preocupado, mas ao mesmo tempo, nada te afecta. Também olhas para mim e dizes: - Olá.
-Olá - respondo eu.
Ficamos assim a olhar-nos.
Levantas-te e sais do compartimento. Minutos depois, regressas ao teu lugar. Aonde pertences.
Conversamos sobre coisas que aparentemente não interessam, mas ao mesmo tempo, parece que me queres dizer algo realmente importante.
-Isto é algum teste? - pergunto.
-Porquê?
-Tem de ser, porque senão, nunca poderia continuar aqui.
-Isto é aquilo que tu queres que seja. E calamo-nos.
O silêncio reina durante algum tempo e depois volto a perguntar:
-Isto é um teste ou não?
-Achas que é? Queres que seja?
-Ainda aqui estou não é? - pergunto. Sorris e afirmas:
-Sê paciente. Sê paciente.
Olho pela janela. Vejo o tempo mudar. Aproxima-se uma tempestade. Levantas-te novamente.
Entras e sais quando te apetece, mas eu tenho de ser paciente? Assim alimentas-me a revolta...
Regressas ao teu lugar. Teu.
Olhas para mim. Dizes finalmente: -Tens de esperar. Sê paciente!
Sais do compartimento e vejo-te pela janela, na plataforma, onde te perco de vista.

Anos mais tarde, no mesmo comboio, no mesmo compartimento, onde viajei dezenas de vezes, em vão, para te encontrar, tu apareces. E eu estava a olhar para a janela.
Sentas-te e sem rodeios perguntas a sorrir: -Aprendeste a esperar? A ser paciente?
-Sim.
Abanas a cabeça:-Não, não!... Se fosses paciente não o dirias. Mas ainda sentes curiosidade de saber. Por isso dizes que és, para que eu te possa dizer. Assim sendo, não te posso contar.
Essas palavras soam na minha cabeça como um terrível sermão, ensinamento.
Olho pela janela o resto da viagem. Quando chegamos à plataforma, levantas-te e dizes a olhar para mim:
-O que desejas tanto saber, está dentro de ti. Já o sabes há muito, muito tempo. Mas conseguiste! Foste paciente.
E sais em direcção à estação movimentada.

08 setembro, 2009

Posse

Transponho o limiar da porta.
Aproximo-me da mesa, ao centro.
Vejo a encomenda. Toco-lhe.
Levanto-a e desejo metê-la no bolso.
Tu dizes-me que tem um preço.
Eu digo que sim. Digo que compreendo.
Estou pronta a mentir-te para obter aquilo
De que vim à procura. Estou pronta a enganar,
Roubar para obter o que é meu.
Meu, meu, meu....

Eu sou mais esperta do que julgas. Só quero
Aquilo de que vim à procura, depois não
Quero ficar mais um segundo aqui.
Sorrio. Bato com os dedos na mesa. Impacientemente.
Só a quero ter na minha posse e sair daí.
Dá-ma simplesmente. Dá-ma!
Acalmo-me. Respiro fundo. Olho para ti. Mas só vejo
Um par de olhos vazios. Baços. Aos quais toda a felicidade
E vida foram sugadas. Engulo em seco. Toda a ânsia de a receber,
Está a consumir-me por dentro. Gotas de suor escorrem-me
Pelo pescoço abaixo. Bato com o pé ao de leve no chão.
Não consigo controlar o monstro de impaciência que se gera dentro de mim.
Minto, roubo, engano, só para obter o que me pertence.
O que é meu, meu!

Fazes me esperar, com que fim? Dá-te prazer? Gostas de me torturar?
Não consigo aguentar durante muito mais tempo.
Olho para ti. Sorrio. Empurro a caixa na tua direcção.
Vou-me embora. Não vale a pena submeter-me a isso.
Só para obter o que pensava ser meu. Estava enganada.
Durante todo esse tempo, estava apenas a submeter-me
Ao teu teste.
Parabéns. Ela pertence-te

01 setembro, 2009

In Darkness

Na escuridão é onde me encontro. Fico em vão à espera de ser iluminada. É que por mais que tente, não consigo. Não consigo conceber certas ideias, certos princípios, certas maneiras de ver o mundo...
Será que ele está assim tão destruído e mutilado? Ou somos nós que o pintamos assim?
Está assim tão manchado pela injustiça e pela corrupção? Ou somos nós que as criamos?
Dizeres frases bonitas ou ficares comovida quando vês a pobreza retratada na televisão não chega! O facto de as dizeres, não implica que as digas com sinceridade. Actua! Não digas que vais fazer, faz mesmo! Deita-te à noite a pensar que tornaste o mundo num lugar melhor. Porque ambos sabemos que saber que não o tornámos num lugar pior, não é suficiente. Abraça uma causa, luta por ela. Abre os horizontes. Pensa para além dos limites. Mas faz qualquer coisa!...

«Push the envelope, watch it bend»



Lá no fundo, bem no fundo dos nossos seres, existe um sítio escuro e muito bem escondido que é a habitação perfeita para a raiva.
É um sítio terrível para decidires acampar lá. Eu já lá estive. E sei que por mais raiva e ódio que sintas, eles regeneram-se. E não dão lugar a outra coisa. A estrada a que a raiva leva é sinuosa. Porque te obriga a fazer e a dizer coisas que mais tarde te fazem questionar os teus próprios princípios.
O que tens a fazer é perguntar a ti mesmo se tudo o que fizeste tornou a tua vida melhor. Porque talvez só te tenha feito sentir mais perdido. Nesse caso, não mediste os meios, para atingir os fins. E isso, é o pior mal que podes fazer. Não ter noção do que podes causar. De mal ou de bem. Vês a pessoa que és, e vês a pessoa que podias ser. Qual é a tua escolha? Eu no teu caso, começava por deixar a raiva ir, porque é mesmo o que precisas de fazer.

«Let go, let go, let go, let go, let go, let go, let go, let go, let go»



Sentes raiva? Não sabes o que é raiva. Raiva é saber que pelo mundo fora, neste momento, milhares de crianças morrem por não terem sequer água para beber. Porque têm de comer raízes do chão. Porque são exploradas todos os dias para tentar sustentar os sete irmãos.
Vês injustiça? Não sabes o que é injustiça. Ricos que não sabem o que fazer ao dinheiro, gastando-o em coleiras de diamantes para os cães, enquanto que a percentagem de pobreza no mundo é mais de 50%.
Pensas que sabes o que é dor? Porque não sabes. Seres vendido como mercadoria, prostituires-te aos nove anos de idade, apanhares HIV, malária, ébola, dengue, gripe amarela, cólera, tuberculose, desinteria. Na idade em que devias ser inocente e protegido, vês todo o mal do mundo com os teus próprios olhos. À tua frente, uma verdade impossível de negar. Porem-te uma metralhadora nas mãos e teres como objectivo entrar num campo de batalha, para matares pessoas. Não é uma brincadeira. Acabares mesmo com a vida de uma pessoa. Como podes recuperar disso?
Sentes pena de ti próprio? Pensas que não tens sorte na vida porque não te carregam o telemóvel ou porque não te dão dinheiro para comprares ténis de marca? Não sintas. Há quem tenha de dormir ao relento. No chão. Há quem tenha de viver sem condições minimamente básicas, sem cuidados médicos, sem esperança de poder dar uma vida minimamente digna aos filhos.
Somos todos privilegiados por termos um tecto, comida, roupas, educação. E não lhes damos valor. Que maior hipócrisia há? Só a da santa igreja, que dá apoio aos pobres, ajuda-os, mas no entanto não faz aquilo que devia. Para começar devia doar um terço da sua riqueza. Só um terço chegava. Dispam os colares de ouro, vendam os quadros caríssimos! Destruam as estátuas se for preciso! Mas façam qualquer coisa para ajudar! Não finjam que ajudam, ajudem mesmo!

«I need to watch things die, from a good safe distance»


Sabes o que me corta a respiração? Saber que pelo mundo fora existem pessoas que discriminam outras pessoas por terem uma cor de pele diferente, por terem uma orientação sexual diferente, ou uma religião diferente da sua. Mais mente fechada é impossível. Quer dizer, somos todos iguais por dentro! Carne, sangue e ossos.
Cada um tens os seus princípios e ideais, os seus gostos e não devemos ser julgados por isso. Devemos ser louvados por termos livre arbírtrio e por pensarmos por nós próprios. Racismo é a pior coisa que existe no mundo. Maltratarem, matarem, abusarem de pessoas de cor, só por isso mesmo, a sua cor é inaceitável. É ridículo. Não tem fundamentos lógicos. É tão retrógado. Qual é o mal de seres homossexual? É só uma questão. Há piores coisas para julgares. Não faz de ti pior pessoa. Não faz de ti menos pessoa, sequer. És como nós, carne, osso e sangue. «Dust to dust, ashes to ashes.»
És meu amigo, meu vizinho, és boa pessoa. És como os outros. És judeu, és cristão, és ateu. Não nos podemos dar bem porque discordamos de alguns assuntos? Cresçam! Lidem com as coisas civilizadamente. Sem violência, sem guerra. Usem as palavras.

«Imagine all the people, sharing all the world»


Não querendo ser discriminadora, esterotipadora ou preconceituosa, corro o risco de dizer que o nazismo é uma das piores “filosofias” que já reinaram no mundo. Desde quando é que ter um homem sem escrúpulos a comandar-te é bom? Sem pensares pela tua própria cabeça. Cumprires ordens sem questionares. Cometeres actos grotescos como matares alguém. Adorares símbolos que deviam ter um valor, mas que para ti têm outro. Porque não acreditas plenamente nessas tretas todas. Fazes isso porque alguém te incitou, porque alguém te disse 20, 30 , 40 vezes que era isso que devias fazer, sentir ou pensar...
Adoras um homem que acredita que um holocausto pode purificar a raça humana? Toda a gente tem direito à vida. Quem é ele para determinar que não? Tanta destruição que ocorreu, tanto sangue derramado, tanta injustiça, e tortura. Mais de seis mil pessoas mortas, todos os dias em campos de concentração, em câmaras de gás. E tudo isso com que fim? Que bem trouxe isso ao mundo?
Tens de perguntar a ti mesmo:”Tudo o que fiz tornou a minha vida melhor?”. E aí tens a resposta para saber se tudo valeu a pena. Porque tens estado a fazer as perguntas erradas. Dá um passo em frente e experimenta pensar po ti próprio de vez em quando.

«Never thought to question why»


Tentas acabar com a tua vida. Pensas nisso, todos os dias durante toda a tua vida. Vives perseguido pela ideia que com a morte, podes acabar com todos os teus problemas. A pressão do trabalho, o stress diário, os conflictos com as pessoas que te rodeiam. Se assim é, qual é a tua pressa? Há gente em camas de hospital a lutar pela sua vida. Todos os dias podem ser o último, mas ele lutam para ficar por cá. Todos os dias em vários países em desenvolvimento há gente a ver os irmãos e os pais a morrerem nos seus braços. Achas que tens problemas? Achas que a tua vida devia acabar? Não tenhas pressa. Há tanto que podes fazer! Melhora a tua vida, e depois melhora a de muitas pessoas. Não sejas dessas pessoas que desistem de viver. Que não fazem nada, que ficam de braços cruzados a ver os outros a combater, a lutar. A vida é uma grande batalha. Ganhas algumas lutas, perdes outras, mas só acaba, quando parares de lutar. Não tenhas pressa, há muito para fazeres, ainda. E um dia encontras o descanso eterno, porque todos nós vamos morrer.

«What’s your rush, everyone will have his day to die»

Sombra

Sobes ao palco. Agora é o teu momento.
Dizes tudo, dizes nada, dizer qualquer coisa.
Então nesse momento, a tua sombra trai-te. Logo a tua sombra!
Começas a diminuir, a desvanecer até desaparecer.
E assim outra face tua aparece. Ela grita: PORQUÊ?
Ninguém te responde. Talvez porque não saibam a resposta,
Ou talvez porque te quererem manter na ignorância.
Diminuis outra vez, e uma nova face aparece.
Desta vez ela pergunta:QUAL É A RAZÃO?
Eles ignoram-te por completo.
Ficam só ali a olhar para ti, a sorrir serenamente.
Desces do palco diriges-te à plateia e gritas-lhes aos ouvidos:
Eu sei que me ouvem!
Abana-los, esbofeteia-los. A passividade perturba-te de uma
Maneira incrível. Como é possível serem assim?
Deixarem-se ficar...Tens de sair daí, estás a sufocar.
Podias dizer coisas atrozes, mesmo assim eles não pestanejariam, sequer.
Decides que não vale a pena gastares o teu precioso tempo. Não com essas pessoas. Essas pessoas que te desiludem uma, duas, três vezes. Decides que não são dignos de tentares mais uma vez.
Dás meia volta e vais-te embora.
Não és do género de pessoa que se afasta, que vira costas ao problemas, mas nesse caso tem de ser assim.
Tem de ser assim!

22 agosto, 2009

No Topo do Mundo

Experimenta subir a um monte.
Grita bem alto e ouve o que o teu
Eco te responde.
Respondeu o que querias ouvir?
Respondeu o que querias saber?
Olhas em frente, e vês vazio.
Sentas-te a apreciá-lo. Nem que seja uma ponte,
uma estrada, prédios, carros...
Sentas-te e ouves o silêncio.
Ouves o vento e as árvores.
Ouves tudo isso e ainda consegues ouvir a tua voz interior.
Fechas os olhos. Deixas que tudo te passe ao lado.
Estás aí em cima, no topo do mundo. Nada te pode perturbar.
Estás plenamente feliz, livre.
Não sentes mais nada.
Não deixas que nada te estrague o momento.
À tua volta as formigas continuam a trabalhar.
As abelhas continuam a tirar o polén às flores;
O mundo continua a girar.
Mas não importa, porque tu, estás no topo do mundo.

The Crown

Já ouço os tambores.
Está na hora de tomares a tua decisão.
Não te apresses. É algo importante.
Tens de ter muito em conta.
Será que vais fazer a escolha certa?

Já ouço os tambores.
Está na hora de te levantares.
De te ergueres perante uma plateia enorme.
Para comunicares o que decidiste.
A partir daí, tudo vai mudar.
Será que vais ter arrependimentos?

Já ouço os tambores.
Está na altura de falares.
Olhas para a multidão à tua volta.
Quase podemos sentir o teu medo, nos teus olhos.
Sabes que tens algo a dizer.
Mas também sabes o que todos eles pensam.
Pensam que tens muito de nada para dizer.
Por que razão estão aí a ouvir-te? Pensas tu.
Não querem saber o que dizes...

Então aí percebes.
Que os tambores já estão a tocar.
É a tua hora de liderar. Mesmo que te obedeçam cegamente,
são o teu povo.
E o que vos separa, por pouco, são os tambores.
São tocados somente para ti. Para conduzires, para reinares.