14 janeiro, 2012

Ceremonials

«I was dead when I woke up this morning and I'll be dead before the day is done»


A constatação da realidade pode ser, por vezes, um alívio. Um começo.
O cordão que nos agarra ao outrora pode assumir um peso terrível, que nos vai afundando rapidamente até já não vermos a superfície. A tarefa de nadar na ilusão pode ser um fardo tão pesado como talvez o de carregar o mundo nos nossos ombros, infinitamente.
Se me avistar ao longe percebo claramente o que falta, o que não está cá; o espectro ganhou a forma do que costumava haver e segue o meu caminho, por mim. A aparição surgiu e ficou por aqui, pairando sempre que eu baixava a minha defesa, querendo tomar o meu lugar. As sombras ganharam...
No último quarto crescente da lua, mergulhada na escuridão tão apreciada da noite, o vento calou-se, o mundo parou de girar e eu encontrei talvez uma aguardada saída. Eu compreendi algo que até ontem não tinha sido possível apreender. Saí do meu corpo e fiquei a ver-me. Durante um momento, no meio do ruído, eu contei os danos visíveis; os que não se vêem são irreparáveis, para já.
Não creiam já que com esta verificação do que falta eu pretendo já a reparação tão necessária. Não...pelo contrário. Esse momento, bem como este texto, servem apenas para a minha quase-libertação, para o inalar preso há tanto tempo (e nem me tinha apercebido que estava a conter a respiração!). Agora uma nova parte pode começar, pode haver um novo caminho, já que o antigo foi tantas vezes perdido e encontrado que já não tem qualquer valor.
Recuso a absolvição da minha alma, não procuro o perdão por toda a negligência, pela falta de interesse. Eu sei que tudo isso foi culpa minha, eu sei que isso não passou de um mecanismo para sobreviver ao deserto onde desembarquei. Mas agora sei o caminho, nem que seja pelo menos o seu princípio...Eu sei, agora, que não tem mal enterrar uma parte de nós que, momentaneamente, está morta. Sei, neste segundo, que o mal foi não querer aceitar isso.
A loucura estava em querer agarrar-me a esse fantasma do que foi; tenho-me agarrado tanto àquilo que fui, que me esqueci de perceber quem sou agora. Há espaço para recriar, há espaço para explorar finalmente. Posso sair da forca já desenlaçada à qual ainda tentava estar presa, pelo passado.
Um ciclo acaba, porque outro tem obrigatoriamente de começar: aqui está o ritual de passagem que tinha de acontecer mais cedo ou mais tarde. Agora sou livre (novo capítulo).

Aqui jaz Joana Henriques, pessoa que tinha o dom de nunca perder a esperança, que tinha a capacidade de sonhar, que gostava de acreditar no melhor das pessoas, independentemente do que estas faziam para lhe provar o contrário. A sua alegria constante e a capacidade de ver o próximo dia como um melhor do que o presente eram das suas melhores qualidades.

Agora surge outra...Uma que não tenha de passar os dias a olhar para trás, sabendo o que se perdeu (primeiro pedaço de verdadeira esperança que me apareceu em meses). Uma que esteja viva.

«Oh my love don't forsake me, I let the water take me...»

1 comentário:

Sofia disse...

Isto faz mais sentido para mim do que possas imaginar.

Mas nunca deixes o sonho... Sem ele, alimentas-te de quê?

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