Pediram-me para desenhar a tristeza.
Pediram-me para parar de fingir, pediram
Que esquecesse tudo, para conseguir chegar
Ao fundo, ao que realmente interessa.
Ao que está cá dentro a magoar-me.
Já a olhei nos olhos várias vezes, já a
Senti a encher-me como uma onda
Demasiado forte para ser travada.
Já me esfaqueou vezes sem conta, mas
Continuo sem saber como ela é.
Estranhamente, hoje vou obrigar-me.
Vou calar-me de vez para ouvir a minha
Dor. Ando a evitar o silêncio porque ele
Diz-me o que não quero ouvir. Nem saber.
Não vou cantar o mais alto possível...
Já ando a caminhar pelas paredes, já não
Reconheço neste sítio aquele conforto; como
Se nada me pudesse fazer mal aqui, como se
Nada me magoasse. É demasiado tarde, já nem
As paredes me servem. A mágoa está cá.
Os fantasmas chegam para me assombrar, mas
Na verdade, acho que nunca daqui saíram.
Estiveram sempre comigo, matando o muito pouco
Que ainda resta, milagrosamente. Olho à volta e
Nada sobrou. Nada antigo ainda reside por aqui.
Escutei o que está cá dentro e mesmo assim
Não arredei pé; fiquei, com arrependimento
E revolta, mas fiquei. Estou à procura daquele
Estado onde os sentimentos são crus e reais;
A vulnerabilidade da música, das lágrimas...
Do que sinto... Não posso fugir, estou estilhaçada
27 setembro, 2011
23 setembro, 2011
Equinócio
Adormeci antes do Verão chegar, acordei no Outono. Fui à janela e vi que algo indefinido paira no ar; um aroma que não cheiro, uma brisa que não sinto, uma nova luz que não vejo.
Tento pensar que algo está de facto mudado, diferente, para além de mim. Há quase um sentimento palpável de antecipação e incredulidade no ar.
Uma folha verde aterra levemente no meu parapeito e eu atrevo-me a sentir algo que não me atrevia a sentir há muito tempo - esperança. Nessa pequena folha, magoada pelo vento, vi a alegria de voltar a acreditar em algo, a vontade de deixar as minhas lágrimas a secar sob o sol que torra, mas não queima, imprimindo em mim um sentimento de calma acolhedora...
Tudo cá fora grita silêncio, revolução; inacreditável. As ruas mostram-se revolvidas, a confusão é geral e pacificamente caótica. O lixo preenche a paisagem como um sinal: o pior já passou.
Veio a guerra, veio a miséria e o ódio e tu sobreviveste; tu ainda aqui estás.
O ar encheu-se de qualquer coisa invisível que, sem eu dar conta, se apoderou de mim, deixando-me neste estado de agitação incontrolável (frenética). Senti uma segunda oportunidade a aproximar-se e decidi agarrá-la com toda a força que restou nos escombros caídos.
Mas como todas as bonanças ao longo da vida, esta quietude não veio para ficar. Rapidamente, antes que me acostumasse à paz, voltaram os pesadelos. Foi-se a alegria, voltou a revolta, o medo, a incapacidade de respirar, rodeada pelos estilhaços de conceitos ou ideias que nunca viveste.
Deram-me um pedaço do céu brilhantemente azul, só para agora, momentos passados, o tirarem. Sem céu nem sol, sem lua ou estrelas, nada me indica o caminho. Nada me dá luz...
Fiquei sem esperança de voltar a ver a felicidade que me encheu tão temporariamente que doeu; fiquei a saber que fui ingénua em acreditar que aqui podia voltar a luz da harmonia.
Adormeci antes do Verão para não sentir, para me adormecer, mas tudo acabou por me atingir à mesma; tudo acabou por me ferir, por me queimar até à minha essência mais primal. Tudo acabou por causar cortes maiores do que a minha capacidade de os sarar; golpes que me engoliram por inteiro.
Agora acordo no Outono à espera de algo que, como a maré, leve tudo embora.
Tento pensar que algo está de facto mudado, diferente, para além de mim. Há quase um sentimento palpável de antecipação e incredulidade no ar.
Uma folha verde aterra levemente no meu parapeito e eu atrevo-me a sentir algo que não me atrevia a sentir há muito tempo - esperança. Nessa pequena folha, magoada pelo vento, vi a alegria de voltar a acreditar em algo, a vontade de deixar as minhas lágrimas a secar sob o sol que torra, mas não queima, imprimindo em mim um sentimento de calma acolhedora...
Tudo cá fora grita silêncio, revolução; inacreditável. As ruas mostram-se revolvidas, a confusão é geral e pacificamente caótica. O lixo preenche a paisagem como um sinal: o pior já passou.
Veio a guerra, veio a miséria e o ódio e tu sobreviveste; tu ainda aqui estás.
O ar encheu-se de qualquer coisa invisível que, sem eu dar conta, se apoderou de mim, deixando-me neste estado de agitação incontrolável (frenética). Senti uma segunda oportunidade a aproximar-se e decidi agarrá-la com toda a força que restou nos escombros caídos.
Mas como todas as bonanças ao longo da vida, esta quietude não veio para ficar. Rapidamente, antes que me acostumasse à paz, voltaram os pesadelos. Foi-se a alegria, voltou a revolta, o medo, a incapacidade de respirar, rodeada pelos estilhaços de conceitos ou ideias que nunca viveste.
Deram-me um pedaço do céu brilhantemente azul, só para agora, momentos passados, o tirarem. Sem céu nem sol, sem lua ou estrelas, nada me indica o caminho. Nada me dá luz...
Fiquei sem esperança de voltar a ver a felicidade que me encheu tão temporariamente que doeu; fiquei a saber que fui ingénua em acreditar que aqui podia voltar a luz da harmonia.
Adormeci antes do Verão para não sentir, para me adormecer, mas tudo acabou por me atingir à mesma; tudo acabou por me ferir, por me queimar até à minha essência mais primal. Tudo acabou por causar cortes maiores do que a minha capacidade de os sarar; golpes que me engoliram por inteiro.
Agora acordo no Outono à espera de algo que, como a maré, leve tudo embora.
31 agosto, 2011
Melodia
Há muito tempo atrás tive um sonho.
Quando sonhei, senti algo diferente
Senti que finalmente tudo fazia sentido;
Sonhei um sonho meu.
Este céu que jaz enterrado acima da
Minha cabeça encontra-se dividido.
Está preso entre escolhas, nem achado
Nem perdido. Está por aqui apenas.
Se fechar os olhos e sentir estas gotas
Claras e frias, percebo que me acalmam.
A chuva foi feita para mim, para eu existir;
O cheiro que paira no ar é quente, é puro,
É meu. É inevitável.
Há muito tempo atrás vivi uma história;
Ela não foi real, pareceu sonhada. Pareceu
Invenção de alguém assustado. Foi só um
Pretexto para manter aquela memória intacta.
Preservada para sempre dentro desta caixa.
Dentro deste cofre que carrego junto ao coração;
Já não sinto aquele sentimento indefinido, agora
É outro tipo de desconhecido; é algo novo.
E quando é novo, é bom. Significa que este chão
Por baixo dos meus pés cansados não vai ruir.
Respiro fundo, só por instantes... Já me é impossível
Definir o que quer que seja, já nem sei perceber
Sequer o me leva a agir. A continuar esta tarefa.
Há algum tempo atrás um homem ensinou-me
A voar, disse-me tudo o que precisava de saber.
Mostrou-me como levantar vôo e como distinguir
A altura de partir e a altura de chegar.
Mais tarde, conheci alguém que me mostrou como
Se pode sonhar, como se pode viver sem ter de
Seguir esses mesmos caminhos já pisados.
A gravidade não se impede nem se finge; não
Podemos evitar quem somos indefinidamente.
Não podemos evitar as respostas, não podemos
Ter medo do escuro da vida, por muito assustador
Que ele seja. Por muito tentador que seja não saber
A verdade. As respostas... Um dia chegará a altura.
Há muito tempo atrás tive um sonho, mas não me
Lembro bem dele.
Foi maravilhoso e inesquecível, contudo, esqueci-me
Do que me fez sentir assim. Quando estiver preparada,
Ele voltará para mim.
25 agosto, 2011
The Departed
«How do you say goodbye to someone you can't imagine living without?»
Primeiro num soluço abafado, contido. Isto não é possível...
Depois como um choque profundo, a dor vem em ondas consecutivas que destroem o meu coração, quebrando-o em pedaços pequenos. O desespero apodera-se e subitamente já nem sei quem sou sem ti. Já não sei como imaginar a minha vida sem ti nela, constantemente.
Não há nada que não fizesse; mentia, roubava, esquecia-me da vida. Humilhava-me, caía de joelhos no meio da rua, se fosse preciso para te provar que isto que sinto é mesmo amor verdadeiro.
Posso por vezes não conseguir respirar, posso estar exausta, posso estar furiosa e querer apenas fugir disto tudo. Posso até perguntar se vale a pena, pergunto até como é que é possível. Mas sei que é. E basta.
Porque sei que, quando menos esperar, a resposta chega não anunciada. De repente, todas as dúvidas, toda a mágoa e cansaço evaporam-se da minha mente; só há espaço para certezas.
Só há espaço para sonhar, para rir, para falar até o silêncio se impôr, já repousado. De repente tudo faz sentido neste nosso mundo e eu compreendo que por muito que pareça impossível, isto é a coisa mais natural de todas. É-me tão necessário como respirar. É tão essencial como sentir o coração a bater, sempre.
Quando fecho os olhos vejo uma eternidade de momentos, vejo uma vida criada que nos tornou prisioneiros. Sem ti, já não sei viver. Já não sei como sou, sem a tua presença como parte de mim.
Dizem-me que o amor verdadeiro, aquele que não se finge, é capaz de nos tornar vulneráveis, é capaz de nos fazer querer perder o controlo. É mesmo capaz de nos obrigar a querer fazer loucuras e por vezes actos irreparáveis, para demonstrar o quão infindável ele é. Nunca senti isso... Nunca senti esta capacidade de me tornar ridícula, nunca senti este sentimento tão avassalador por ninguém, como por ti. Apenas e somente porque és a única excepção...A minha excepção.
Quando tudo parece acabado, quando tudo se desmorona à nossa volta, as ruínas tornam-se o nosso abrigo e, em conjunto, voltamos a sorrir. Voltamos a respirar, sem olhar para trás.
Não tenho sombra de dúvidas, nem por um momento sequer, de que nada se pode atravessar entre nós, excepto a vida. Quando algo algo assim acontece, costuma dizer-se que o que aconteceu foi a vida; ela mete-se onde não deve e onde não é esperada. Tirando a sua presença, sei com toda a minha alma que nunca vamos acabar em ruínas como as nossas vidas. Como as nossas esperanças...
Agora deixo as lágrimas correrem, já não as tento evitar. A mágoa é inevitável, mas toda a felicidade compensa-a.
Não há nada que não fizesse por ti...Nada que não fizesse para te demonstrar o meu amor... Mas isso, tu já sabes, por agora.
Primeiro num soluço abafado, contido. Isto não é possível...
Depois como um choque profundo, a dor vem em ondas consecutivas que destroem o meu coração, quebrando-o em pedaços pequenos. O desespero apodera-se e subitamente já nem sei quem sou sem ti. Já não sei como imaginar a minha vida sem ti nela, constantemente.
Não há nada que não fizesse; mentia, roubava, esquecia-me da vida. Humilhava-me, caía de joelhos no meio da rua, se fosse preciso para te provar que isto que sinto é mesmo amor verdadeiro.
Posso por vezes não conseguir respirar, posso estar exausta, posso estar furiosa e querer apenas fugir disto tudo. Posso até perguntar se vale a pena, pergunto até como é que é possível. Mas sei que é. E basta.
Porque sei que, quando menos esperar, a resposta chega não anunciada. De repente, todas as dúvidas, toda a mágoa e cansaço evaporam-se da minha mente; só há espaço para certezas.
Só há espaço para sonhar, para rir, para falar até o silêncio se impôr, já repousado. De repente tudo faz sentido neste nosso mundo e eu compreendo que por muito que pareça impossível, isto é a coisa mais natural de todas. É-me tão necessário como respirar. É tão essencial como sentir o coração a bater, sempre.
Quando fecho os olhos vejo uma eternidade de momentos, vejo uma vida criada que nos tornou prisioneiros. Sem ti, já não sei viver. Já não sei como sou, sem a tua presença como parte de mim.
Dizem-me que o amor verdadeiro, aquele que não se finge, é capaz de nos tornar vulneráveis, é capaz de nos fazer querer perder o controlo. É mesmo capaz de nos obrigar a querer fazer loucuras e por vezes actos irreparáveis, para demonstrar o quão infindável ele é. Nunca senti isso... Nunca senti esta capacidade de me tornar ridícula, nunca senti este sentimento tão avassalador por ninguém, como por ti. Apenas e somente porque és a única excepção...A minha excepção.
Quando tudo parece acabado, quando tudo se desmorona à nossa volta, as ruínas tornam-se o nosso abrigo e, em conjunto, voltamos a sorrir. Voltamos a respirar, sem olhar para trás.
Não tenho sombra de dúvidas, nem por um momento sequer, de que nada se pode atravessar entre nós, excepto a vida. Quando algo algo assim acontece, costuma dizer-se que o que aconteceu foi a vida; ela mete-se onde não deve e onde não é esperada. Tirando a sua presença, sei com toda a minha alma que nunca vamos acabar em ruínas como as nossas vidas. Como as nossas esperanças...
Agora deixo as lágrimas correrem, já não as tento evitar. A mágoa é inevitável, mas toda a felicidade compensa-a.
Não há nada que não fizesse por ti...Nada que não fizesse para te demonstrar o meu amor... Mas isso, tu já sabes, por agora.
18 agosto, 2011
Fazes-me falta
Dizes-me que sentes falta do que tinhas, que sentes falta de como te faziam sentir. Dizes-me que, apesar de tudo, o bom valia a pena; a felicidade compensava as horas pesarosas que passavas em desespero, a questionar-te. As desilusões.
Sinto pena, sobretudo por ver que antes irradiavas algo que por agora está morto. Nos agora olhos baços havia um brilho de esperança. Acreditavas.
Como podes sentir falta de algo que nunca tiveste? Como podes sentir saudade de algo que nunca te pertenceu? Tu não o perdeste, porque de facto, nunca o ganhaste.
Sentes talvez falta da ilusão, da possibilidade de voltar a acreditar em algo que não fosse desolador.
E mesmo após toda a dor, todo o remorso e culpa, tu ficaste. Não arredaste pé; acreditaste que serias feliz. Querias ser feliz.
A plateia já se foi embora, deixaram-te sozinha com a tua não dor, com o teu não arrependimento de algo que nuca aconteceu.
As luzes apagaram-se aos poucos e só sobraste tu, a tentar perceber como pudeste sofrer por algo que não existiu. Como pudeste viver algo que não foi real...
Digo-te que a culpa não foi tua: tento aliviar o teu já pesado fardo.
Digo que com tempo tudo cura, tudo passa. Tudo vai parecer um sonho pouco nítido.
Não vai restar nada dessa ilusão que te aprisionou durante tanto tempo. Em breve...
Sinto pena, sobretudo por ver que antes irradiavas algo que por agora está morto. Nos agora olhos baços havia um brilho de esperança. Acreditavas.
Como podes sentir falta de algo que nunca tiveste? Como podes sentir saudade de algo que nunca te pertenceu? Tu não o perdeste, porque de facto, nunca o ganhaste.
Sentes talvez falta da ilusão, da possibilidade de voltar a acreditar em algo que não fosse desolador.
E mesmo após toda a dor, todo o remorso e culpa, tu ficaste. Não arredaste pé; acreditaste que serias feliz. Querias ser feliz.
A plateia já se foi embora, deixaram-te sozinha com a tua não dor, com o teu não arrependimento de algo que nuca aconteceu.
As luzes apagaram-se aos poucos e só sobraste tu, a tentar perceber como pudeste sofrer por algo que não existiu. Como pudeste viver algo que não foi real...
Digo-te que a culpa não foi tua: tento aliviar o teu já pesado fardo.
Digo que com tempo tudo cura, tudo passa. Tudo vai parecer um sonho pouco nítido.
Não vai restar nada dessa ilusão que te aprisionou durante tanto tempo. Em breve...
16 agosto, 2011
Inquietação
«Eu só conheço esse caminho do paraíso»
O ranger calmo da porta indica-me que saíste. A casa está vazia e eu sem ti aqui não sei o que fazer.
Sinto-me irrequieta, como se só tu me soubesses acalmar.
Nas traseiras tudo está calmo - nem a brisa se atrave a aparecer.
Nem o sol se atreve a brilhar, com medo de espantar as poucas almas que se encontram à janela.
O ar gelado da manhã causa-me um arrepio desde a ponta dos pés até me percorrer a coluna, como um choque sereno. Aqui ainda consigo ouvir algum barulho citadino; o despertar das próprias ruas da cidade, mas o som infindável que as ondas do mar causam é mais audível e atrai-me com uma força fora do comum.
Dirijo-me à porta da frente, para descobrir apenas que o vento aqui não tem receio de soprar. Incentivado pela fúria do mar, o vento sopra de uma maneira destemida e cruel, dificultando a vida aos ainda crentes que passeiam por ali.
Talvez seja estranho pensar no mar como uma entidade...Mas ele é tão complexo e pensador que sinto que ganha vontade própria. Vida. É tão profundo e misterioso, tão apaziguador e vingativo que julgo nunca o conhecer por completo. Julgo que ninguém consiga.
A maré está baixa e o lodo alastra-se pelo areal à minha frente; um cheiro pungente a maresia faz-me estremecer e acorda-me desta nostalgia temporária. Sinto até um forte sabor a sal nos meus lábios, embora não tenha saído da ombreira da porta.
Um formigueiro intenso vem confirmar o que já suspeitava - demorei demasiado tempo aqui fora e como consequência sinto as pernas dormentes. Recolho-me para dentro de casa, para o abrigo acolhedor do silêncio e do calor.
À semelhança da maré, não me sinto propriamente vazia, mas incompleta, como se também eu deixasse um pedaço do meu mar em terra firme. Em ti.
Faltas-me tu; não demores.
O ranger calmo da porta indica-me que saíste. A casa está vazia e eu sem ti aqui não sei o que fazer.
Sinto-me irrequieta, como se só tu me soubesses acalmar.
Nas traseiras tudo está calmo - nem a brisa se atrave a aparecer.
Nem o sol se atreve a brilhar, com medo de espantar as poucas almas que se encontram à janela.
O ar gelado da manhã causa-me um arrepio desde a ponta dos pés até me percorrer a coluna, como um choque sereno. Aqui ainda consigo ouvir algum barulho citadino; o despertar das próprias ruas da cidade, mas o som infindável que as ondas do mar causam é mais audível e atrai-me com uma força fora do comum.
Dirijo-me à porta da frente, para descobrir apenas que o vento aqui não tem receio de soprar. Incentivado pela fúria do mar, o vento sopra de uma maneira destemida e cruel, dificultando a vida aos ainda crentes que passeiam por ali.
Talvez seja estranho pensar no mar como uma entidade...Mas ele é tão complexo e pensador que sinto que ganha vontade própria. Vida. É tão profundo e misterioso, tão apaziguador e vingativo que julgo nunca o conhecer por completo. Julgo que ninguém consiga.
A maré está baixa e o lodo alastra-se pelo areal à minha frente; um cheiro pungente a maresia faz-me estremecer e acorda-me desta nostalgia temporária. Sinto até um forte sabor a sal nos meus lábios, embora não tenha saído da ombreira da porta.
Um formigueiro intenso vem confirmar o que já suspeitava - demorei demasiado tempo aqui fora e como consequência sinto as pernas dormentes. Recolho-me para dentro de casa, para o abrigo acolhedor do silêncio e do calor.
À semelhança da maré, não me sinto propriamente vazia, mas incompleta, como se também eu deixasse um pedaço do meu mar em terra firme. Em ti.
Faltas-me tu; não demores.
15 agosto, 2011
Diary of a mad
«Dear diary, I'm here to stay...»,
Este calor levou-me à exaustão e esta solidão duradoura levou-me à loucura.
Nestas páginas secretas e escondidas do mundo eu desabo e volto a nascer. Eu morro, só para viver outra vez.
A esta hora tardia do que será em breve um novo dia, eu sonho acordada e percebo que a vida não é mais do que esta ilusão que nos ensinam. Eles fazem-nos acreditar.
Estou no escuro, na insanidade, totalmente sozinha. Totalmente adormecida.
Já escapei quando pude à prisão que me mantinha controlada. Que mantinha os meus pés assentes na terra e a minha cabeça perdida nas nuvens.
Estou mais lúcida que nunca, febril nesta certeza de que nestas simples páginas deste diário, alguém acreditará em mim. Alguém poderá corroborar a minha sanidade. Eu sei que a tenho. Tenho-a.
E as vozes? Elas dizem-me que não estou louca; as figuras à minha volta dizem que não estou doente. Talvez demasiado sóbria, atenta.
A realidade nunca me foi tão nítida, nunca esteve tão próxima... Mas preciso de ser ouvida, preciso de crença; preciso da fé de alguém.
Os anjos cantam lá bem no alto, no topo do mundo e eu continuo a sentir que ninguém me vê.
Eu grito a plenos pulmões e vocês só pensam que já não tenho cura possível, que estou para além da ajuda humana. Dizem-me que o que sobra é a compaixão divina...
Rio-me bem alto (nem sei porquê); a ligação à vida há muito que deixou de fazer sentido. Nunca a compreendi, porque durante todo o tempo em que aqui estive, senti que ninguém me percebia. Que ninguém via o mundo da mesma maneira distorcida. Que ironia é essa? Que sorte infernal me calhou?
Choro. Porque como uma lâmina que me arrasa o coração, eu percebo que ninguém está aqui para me fazer rir.
Estas grades (que me enjaulam) só servem para impedir o meu auto-flagelo iminente.
A loucura é real, o resto não existe fora de mim...
Este calor levou-me à exaustão e esta solidão duradoura levou-me à loucura.
Nestas páginas secretas e escondidas do mundo eu desabo e volto a nascer. Eu morro, só para viver outra vez.
A esta hora tardia do que será em breve um novo dia, eu sonho acordada e percebo que a vida não é mais do que esta ilusão que nos ensinam. Eles fazem-nos acreditar.
Estou no escuro, na insanidade, totalmente sozinha. Totalmente adormecida.
Já escapei quando pude à prisão que me mantinha controlada. Que mantinha os meus pés assentes na terra e a minha cabeça perdida nas nuvens.
Estou mais lúcida que nunca, febril nesta certeza de que nestas simples páginas deste diário, alguém acreditará em mim. Alguém poderá corroborar a minha sanidade. Eu sei que a tenho. Tenho-a.
E as vozes? Elas dizem-me que não estou louca; as figuras à minha volta dizem que não estou doente. Talvez demasiado sóbria, atenta.
A realidade nunca me foi tão nítida, nunca esteve tão próxima... Mas preciso de ser ouvida, preciso de crença; preciso da fé de alguém.
Os anjos cantam lá bem no alto, no topo do mundo e eu continuo a sentir que ninguém me vê.
Eu grito a plenos pulmões e vocês só pensam que já não tenho cura possível, que estou para além da ajuda humana. Dizem-me que o que sobra é a compaixão divina...
Rio-me bem alto (nem sei porquê); a ligação à vida há muito que deixou de fazer sentido. Nunca a compreendi, porque durante todo o tempo em que aqui estive, senti que ninguém me percebia. Que ninguém via o mundo da mesma maneira distorcida. Que ironia é essa? Que sorte infernal me calhou?
Choro. Porque como uma lâmina que me arrasa o coração, eu percebo que ninguém está aqui para me fazer rir.
Estas grades (que me enjaulam) só servem para impedir o meu auto-flagelo iminente.
A loucura é real, o resto não existe fora de mim...
«Endless price I'll have to pay»
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