24 outubro, 2010

Tarde de outono

Um manto de folhas castanhas na calçada.
Leve brisa que leva este calor para longe de mim.
O sol está a pôr-se e o momento não podia ser mais mágico.
Fecho os olhos com força, e embora deseje estar bem longe,
Sinto-me feliz por estar aqui, agora mesmo.

Dentro de mim cresce uma onda cristalina de tristeza
Que rebenta, deixando uma orla de esperança pura.
Há a exaltação de um sonho antigo e eu acredito,
Neste preciso segundo de que um dia, o vou concretizar.
Sei que sim, com todo o meu coração.

A esperança dá lugar à felicidade que me enche.
Só por ser outono já me sinto realizada.
Só por ser fim de tarde, esse acontecimento lindo,
Sinto que tudo vai ficar bem.

Sorrio levemente. A vida é confusa.
O mundo dá muitas voltas e quando
Pareço mais perdida, tudo volta a fazer sentido.
O mundo volta a girar no sítio certo.

Fico aqui com a lembrança do que já passou,
Com o sentimento do presente e com a vontade
Do que virá, a ouvir este silêncio tão cheio de sentido.

Foi hoje que prometi a mim mesma que,
Dependendo da minha pessoa, nunca mais irei
Fugir ao inevitável, nunca mais vou fugir da felicidade
E dos meus sonhos, mesmo os mais impossíveis.

E foi nesta tarde de outono que percebi que já estou no meu caminho para acreditar.

12 outubro, 2010

How to save a life?

Ao ouvir o que já me trouxe uma espécie de conforto misturado com dúvida sinto um turbilhão de emoções.
Vejo mil imagens, sinto cheiros, algo se apodera de mim. Algo superior a mim.
Os meus olhos encheram-se de água e subitamente só consegui pensar em tudo o que ficou por dizer, em tudo o que ficou por fazer.
Em tudo o que podia ter feito. Nos caminhos cruzados onde fiz uma escolha que não deveria ter feito.
Porquê? Porque é que esta é a pergunta que mais custa? A que mais dor trás, a pergunta que eternamente não vai ter resposta...
Sei que na altura, naquele segundo senti um baque no coração, senti o meu mundo parar de girar. Deixei de respirar simplesmente. Os mesmos olhos que agora choram por ti, inundaram-se de dor e tristeza. Incerteza, e uma ponta de revolta.
Porquê? Dêem-me o porquê que eu quero. Pelo qual eu ansiei, e passei a fundo momentos e conversas, vezes e vezes sem conta na minha cabeça.
Hoje sinto falta do que houve, mas sobretudo do que podia ter havido.
E sinto pena de muita coisa, sinto revolta, sim ainda sinto. Pouca, mas sinto. Sinto rancor de quem não te ajudou, sinto raiva de mim própria. Sinto tudo isto quando fecho os olhos e te vejo lá, à minha espera, todos os dias.
Sinto esse turbilhão, essa espiral de sentimentos quando ouço estas notas musicais que me levam a esses dias negros que levaram um pedaço de mim. Sinto isso quando os vejo, devastados, unidos como nunca, para sempre.
Sinto isso, quando te recordo, quando penso em como tudo mudou a partir daí.

Nunca te esquecerei, adoro-te!

08 outubro, 2010

Inanimada

Como algo morto, inanimado, volto a respirar.
Volto a abrir os olhos, volto a viver.
Voltei à vida, e agora? Viver será difícil?
Ou seremos nós que tornamos tudo complicado?
Nem sei onde estou. Alguém me pode ajudar?
Não estou habituada a estar aqui, já não me lembro de como eu era.
O que faço aqui parada, a olhar à minha volta, para estas paredes de vidro que me encurralam?
Os grilhões foram-me abertos mas encontro-me noutro tipo de prisão. Uma de onde não consigo escapar.
Voltei a viver. Voltei a ser eu. Deixei de estar amarrada, asfixiada até o último sopro de vento ser afastado de mim à força.
Voltei a mim! Voltei! Mas e agora? Voltarei a ser a mesma? Conseguirei ignorar que tudo isto aconteceu? Não levou um pedaço de mim?
Eles tinham razão, quando me avisaram. Disseram que estava a brincar com o fogo. E como sempre, quem brinca com o fogo, queima-se.
Mas a minha queimadura não se vê. É bem pior que isso, é demasiado má para ser visível ao olho humano.
A minha está cá dentro e sempre que me esqueço dela, ela faz-me o favor de arder para me lembrar de que ainda lá está. Ainda lá está...
Tento encontrar uma saída possível daqui para fora mas estas paredes são as mais sólidas que alguma vez vi. Estão no meu caminho para ser livre, estão a impedir-me de continuar.
Não deviam estar todos aqui para mim? Não deviam estar prontos, do outro lado da porta para me abraçar, para me felicitar por ter voltado ao mundo dos vivos? Eu voltei a viver!
Será que enquanto fui morta à vossa frente não repararam? Será que não viram o que os olhos não podiam ver?
Os tambores começam a bater dentro da minha cabeça. A chuva começa a cair abundantemente. Sei que o momento chegou.
Chegou a hora da chuva levar todo o mal que habitou em mim, chegou a hora da minha purificação, da minha alma ser transformada em algo novo.
Aquele tempo acabou. Aquela que não era eu morreu e hoje nasci outra vez.
Abro os braços, fecho os olhos e sinto a chuva à medida que os tambores soam cada vez mais alto, na minha cabeça anunciando o fim próximo da minha ressurreição.
Que sítio era aquele de onde vim? Como fui lá parar?
Num dia era eu, e no outro deixei de ser. Fui-me deixando para trás, até me ter perdido por completo.
Esse tempo acabou. Agora não há mais fingimento, agora não há mais agonia, agora já não existe essa parte de mim que me dava vómitos.
Agora sou só eu, mais lavada de mim do que nunca. Aqui, nesta jaula de vidro, enquanto pessoas que não conheço me observam pacificamente.
Eu olho-as mas não me mexo, não ouso respirar, não tento pestanejar. Fico só aqui à chuva a vê-las, a tentar esquecer-me do mundo, para voltar a ser eu.
Esta água nunca mais acaba e o nível começa a subir.
Os tambores soam, ensurdecedores, alto, mais alto, cada vez mais alto. E a água sobe, e vai subindo até encher a sala, até chegar ao tecto.
E os tambores sobem de tom até já não terem mais espaço para aumentar e a água enche tudo o que existe aqui dentro.
A água sobe e eu continuo aqui, feliz por estar viva finalmente.
Feliz por ter voltado.
Fechos os olhos, e sorrio.

30 setembro, 2010

Papel Principal

Tive a atitude certa.
Tive a coragem de chegar até aqui.
Mas no segundo em que piso a linha, uma voz começa a soar na minha cabeça.
Ensurdecedora. Uma voz que me grita para voltar atrás.
Uma voz que me diz que não devo fazer isso, que não devo arriscar mais nada.
Essa voz faz-me repensar tudo o que decidi fazer. Faz-me querer dar um passo atrás e deitar tudo a perder.
Decido ignorar os meus medos e receios, decido calar essa voz que me persegue nos confins de mim. Decido calar essa razão inconformável e dou um passo, e outro e outro depois de passar a linha.
Aqui estou. Aqui me queriam, e agora?
Estou à vossa mercê. Estou no meio deste palco gigantesco, escuro, com um foco de luz brilhante apontado à minha pequena figura, enquanto todos vocês me observam.
O que querem que faça? Que ponha em prática a personagem que desejam? Que vista esse papel que não é o meu?
O que acontecerá se eu cair no vazio sem fim, neste buraco negro que está a meio do palco? Neste espaço em branco que está dentro de mim. O que me acontecerá então?
Vão-me deixar ficar perdida a cair para sempre ou vão-me erguer, levantar-me e ajudar-me a levantar voo até ao sítio onde pertenço?
À medida que me habituo a este espaço que agora é o meu lar, vou-me acostumando à fragilidade que ele trás. Vou-me habituando às luzes que me abrem os portões dourados para os sonhos.
Será aqui que eu pertenço? Não sei.
Fecho os olhos e olho para dentro de mim. Precisava de fazer esta viagem há muito tempo. Mas estarei pronta para fazê-la com todos vocês a estudarem-me? Não. Não estou.
É que esta voz que consegui silenciar brevemente voltou com ainda mais força para me atormentar.
Sai daí, corre e nunca mais voltes; diz-me ela sem parar, uma e outra vez a soar na minha cabeça como um eco que devo seguir.
Porquê? Sei que é sempre assim. Quando consigo dar um passo em frente o abismo à minha frente também avança na minha direcção pondo-me em cheque.
Decido não lhe dar importância e dou outro passo. De um lado para o outro ando no palco, agora eu assumindo o controlo, estudando-vos a vocês. Cada pegada de ar que deixo torna-me mais confiante e em breve já terei deixado o meu corpo. Em breve estarei num estado líquido que se apodera de mim e que me faz perder todo o medo. Que me faz perder todo o receio de me afogar em vergonha, de me elevar nesta espiral.
Esta noite decidi calar a voz para sempre. Decidi que neste palco quem vai comandar as minhas emoções sou eu, e não outra pessoa qualquer.
Vou-me desfazer em pedaços até voltar a ser inteira, vou tornar-me em neblina de fumo e vou conseguir criar um eclipse de toda a luz deste palco que me dá vida.
Vou chegar até onde quiser, sem ter de fingir, sem ter de me esconder.
Tenho de voar, tenho de tentar pelo menos uma vez, tento de experimentar, tenho de não ter medo de viver.
Tenho de dar tudo por tudo, demonstrar o que valho, mesmo que não consiga alcançar nada.
Tenho de criar, tenho de inventar mundos, tenho de tornar tudo possível, até ao pano de fundo descer.

24 setembro, 2010

Cold Silence

A raiva voltou. A revolta também. Agora, só falta o ódio. Onde é que queres chegar com isto? Até onde é que a tua tirania te vai levar, até onde vais levar a tua obsessão? Estás tão cego que já pensas que a verdade é o que tu inventas. Não ouves ninguém; estão todos errados. Para quê perder tempo com pessoas imperfeitas, se tu estás sempre certo? Fazes-me rir. Estás tão focado na tua própria sombra que já nem ouves os teus passos. Já nem consegues ver as consequências dos teus actos. Estás tão focado no teu reflexo, afogado num mar de vaidade e egocentrismo, que nem te apercebes que a a imagem que vês reflectida se vai degradando rapidamente. Será que o mundo é teu e eu não me apercebi? Estarei assim tão errada, tão fora da realidade que não consigo ver? É que usas a tua coroa tão alta e tão confiante que fico espantada. Tu ainda me surpreendes! É incrível. Pensei que não me podias magoar de maneira nenhuma, pensei que nunca mais me podias causar estas lágrimas de sangue, mas enganei-me. Já não as sinto a cair... Não. Já estou mais do que dormente perante a tua arrogância. Perante a maneira como olhas para todos de cima, no teu trono de hipocrisia e presunção. A raiva voltou. A revolta também. Agora, só falta o ódio. Mas apesar de toda a raiva, de toda a revolta, Não deixo de ser quem sou. Foi um caminho que trilhei, que fui construindo, E construí-me. E agora espero o ódio. Esse ódio que se apodera de mim e me dá alma, me dá vida, que me ilumina de forma estranha para ver com os meus próprios olhos cor-de-raiva que nem tudo é o que parece, que neste mundo morre muita prece em vão, que o nosso esforço nem sempre acontece. Mas mesmo esperando por esse ódio que vem sozinho ou por nós puxado sei que prefiro viver apenas um dia defendendo a luz, o bem, a verdade, que uma vida eterna na escuridão, espalhando o mal, criando e alimentando a mentira. E falo, e canto e grito, e escrevo, e mostro-me!, não me entreguem silêncios, não me entreguem ao silêncio, não me entreguem o silêncio, Quero mais, mais de tudo um pouco para não ser frio, ser-me indiferente, Quero ódio na medida certa, na medida a mais se for para ser mais atento, mais forte, mais espiral. Não nasci revoltada com a vida, nasci com o coração aberto a todos, e a alma faminta, E se consigo gritar então grito mais um pouco, E grito com a mesma força que uma criança a nascer. Não mato esta solidão acompanhada porque o ódio ainda tem muito para me modificar. E quero aprender. Quero ensinar. E quero amar com a mesma força que já odeio.
Porque o ódio é sempre fácil. Ele cresce numa pequena semente e a partir daí, ninguém a pode parar. Cresce, vai crescendo e quando dou por mim, odeio tudo o que me acontece, tudo o que me está a acontecer. Não é a verdade que me revolta. Não. Nem tampouco é a ideia que a verdade trouxe. É somente a mudança negativa que veio para ficar, é a ideia de que tudo podia ser melhor se um dia o Homem o tivesse querido.
É este silêncio que me gela as veias, que chega à minha cabeça e ao meu coração, parando-os num só bater. Tornando-me cega a algo que já nem eu consigo ver.
Este silêncio funcionou como um despertar de sentimentos, de coisas escondidas, de algo que está seguro por apenas ruínas do que já foi belo. Foi esse silêncio acumulado que destruiu todos os caminhos que levavam à compaixão, todos os caminhos que levavam a algum lado. E agora? Agora... Agora já não resta nada para além de pedaços de madeira queimados. Eu própria ateei o fogo e vi-os arderem, no reflexo dos teus olhos. Os mesmos olhos que se não estivessem tão ocupados com o seu reflexo, veriam o que estava a acontecer mesmo à sua frente. Tudo o que alguma vez existiu, já foi queimado. Só restam cinzas. Cinzas de nós, cinzas de infâncias esmorecidas, cinzas de amor de ódio que violentamente abrem as feridas do meu coração e que ardem como sal. Passou tudo por ti. Não te apercebeste? Esteve sempre à tua frente, de todas as vezes em que chorei até adormecer, de todas as vezes em que a tua injustiça me deixou sem ar, de todas as vezes em que te recusaste a ouvir através dessa barreira que te impede de dar razão a alguém que não sejas tu. E para que me importam agora as tuas lágrimas? Onde estavas tu para limpar as minhas quando precisei? Estavas ocupado a construir e a aperfeiçoar o teu ser. Estavas tão centrado em ser eterno que não reparaste que as paredes começaram a ruir, até ficarem amontoadas no chão, à minha frente.
Para que me importa agora que fiques triste ao reparar que eu não vou olhar para trás, nunca mais? Deixa-me simplesmente morrer aqui, derreter ao sol, ao lado das chamas que eu criei para te apagar. Ao lado das memórias que tinham de ser soltas, para viajarem pelo vento.
Deixa-me aqui, na escuridão, onde ninguém possa ver as lágrimas de sangue que de tanto correrem, ficaram marcadas no silêncio dos meus olhos.
A minha sobrevivência está nas mãos do meu eu criador, do meu eu sofredor, está dentro da minha alma a capacidade de me mover acima do materialismo, do cinismo, da vossa capacidade arrogante de se considerarem superiores. Não conquistei um trono, nem conquistarei. Quero encontrar a verdade e nela me apoiar, quero viver um caminho por mim guiado, e guiar todo aquele que vê nos meus passos sensatez, e vontade de fazer deste mundo melhor.
As minhas lágrimas secarão...Deixarão marca. Mas acabarão por desaparecer sobre a pele, e eu, consciente da minha razão, daquilo em que acredito, triunfarei na minha verdade, na Verdade que quero atingir. Não preciso que me coloquem véus negros à volta dos meus olhos, nem que construam paredes que me frustrem os movimentos...Não somos uma ilha, mas não queremos ninguém que nos fira com falsas luzes, falsas crenças, e não toleramos hipocrisia. Somos humildes de alma, capazes de sentir e viver como filósofos que viveram apenas da vida...E não toleramos cegos aperfeiçoados. Não toleramos a mentira. Não toleramos que sejam o vosso pior eu. O que queremos está dentro da espiral que ruge nos nossos corações...Não tememos ser monstros...Tememos sim, monstros que se julgam melhores que todos os outros, e que esses sim!, são capazes das piores catástrofes. A todos vocês, que brilham de contentamento nesse vosso silêncio frio, a mensagem que deixamos é só uma:
Façam o esforço de aprender connosco, porque nós já muito aprendemos convosco.


[Agradecimento muito especial ao Diogo Garcia, meu querido irmão por me dar mais uma vez a honra de criar arte ao seu lado. É sempre uma honra!]

07 setembro, 2010

Se me pudesses ver agora...

Aqui estou eu. Mais uma vez.
À minha frente, até perder de vista, está esta familiar estrada.
A estrada que não tem nome porque todos a esquecem.
O caminho que ninguém quer lembrar ter percorrido.
As mesmas árvores que parecem esperar longamente por alguém que não chega,
As mesmas pedras da calçada que choram de tanta gente as ter pisado, sem qualquer lembrança.
E após um caminho sinuoso e torturante para quem quer alcançar algo, chegamos a casa.
A casa, velha e cansada. A casa que por fora não saúda ninguém, a casa que, já farta de sofrer, desistiu há muito de tentar.
E claro, antes de entrar no jardim temos o portão enferrujado, que um dia foi vermelho vivo e que agora se encontra despido de qualquer cor ou vida.
Esse portão range ao abrir, e o vento muitas vezes adorava enganar-me, fazendo-o ranger sem ninguém entrar.
Ao passar a ombreira da porta sinto um silêncio mortal a invadir-me. É-me familiar.
Consigo ouvir todas as palavras ditas e todas as palavras que ficaram por dizer.
Consigo ouvir os momentos que aconteceram e sobretudo os que ficaram por acontecer.
Que raio de vida foi esta? As memórias estão fragmentadas, soltas e perdidas no tempo.
Será que o que recordo foi real ou será que sonho após sonho eu inventei a vida que queria ter tido?
Será que os montes e serras verdejantes estão só na minha cabeça? Será que as canas de açúcar, altas e orgulhosas não passaram de um delírio?
Será que todas as noites de estrelas cadentes e cometas, vistas do telhado foram criadas por mim?
A tempestade nasce dentro de mim. As ondas das memórias colidem com as ondas de solidão, de mágoa, de felicidade e de raiva. Crescem e colidem, criando esta maré que me atormenta.
Subo as escadas lentamente, lembrando-me do sentimento que outrora sentia ao subi-las todos os dias.
Lembro-me que a cada degrau a minha esperança aumentava. Talvez quando chegasse à porta, alguém viesse por mim. Talvez alguém se lembrasse e me viesse salvar deste túmulo.
Claro que isso nunca aconteceu, nunca ninguém veio. Nem por mim, nem por motivo nenhum.
Ninguém me salvou. E tive de ser eu a salvar-me. Tive de impedir-me de me afogar. Tive de ser eu a abrir a porta e ir-me embora, sem olhar para trás.
Mas essa estrada que ninguém recorda é tão traiçoeira que mesmo quando estamos a ir embora, parece não ter fim.
Curva atrás de curva, atrás de curva ela parece nunca acabar.
Agora, sentada neste banco no que foi há muito muito tempo o meu refúgio, sinto-me esvaziada. Sinto que só através das recordações, a casa e a estrada conseguiram sugar toda a vida de mim.
Corro pela escada abaixo e abro a porta. O vento arrepia-me, por ser tão frio, mas respiro aliviada por não sentir mais aquele ar abafado e venenoso.
Olho uma vez mais para a entrada sombria da casa, e sem pensar duas vezes fecho a porta com um estrondo, para sempre.
À minha frente, pela última vez, a estrada que nunca ninguém recorda. Para quê? Para quê recordar uma estrada que não leva a lado nenhum? Que não leva a nada.

De coração mais leve que nunca, os meus pés parecem flutuar e a estrada que nunca ninguém lembra chega ao fim, sem eu dar por isso.
Foi a última vez que entrei naquela casa abandonada, foi a última vez que toquei naquele portão enganador e foi a última vez que percorri esta estrada esquecida.
Desta vez é que foi. Confrontei os meus demónios escondidos numa gaveta poeirenta, e não pretendo voltar a tirá-los de lá.
Se me pudesses ver agora, aqui a enfrentar os meus medos, a reviver o que sempre tentei esquecer, não acreditarias.
Eu, a voltar aqui, a este sítio, a esta prisão que só me desgastou anos a fio. Seria impossível convencer-te que estava aqui de livre vontade.
Se soubesses tudo o que quis voltar atrás e fazer de novo, tudo o quis dizer, mas que não pude, todas as coisas de que me arrependi, não pensarias o mesmo. Tive de voltar aqui, não por escolha, mas porque teve de ser, para poder continuar.
E se me pudesses ver agora...

06 setembro, 2010

O correr do rio

Ouvi os sinos tocar bem alto.

Gritavam o que mais ninguém conseguia ouvir, para além de mim.

Simbolizavam o tempo de mudança repentino que me invadiu,

Simbolizavam a minha metamorfose desejada.

Ao lado, o rio corria e eu deixei-me ir com ele.

O vento revolveu-me o cabelo e por breves momentos deixei de existir.

Parada, a minha existência entre o correr do rio e o próprio vento.

Até o ar que respiro consiste em moléculas da mudança em si, o que posso eu fazer?

É algo que se embrenhou no meu ser, talvez conscientemente. Ou talvez não.

Quem diria... Eu, a pessoa comum que odiava mudança.

Já não odeio? Acho que não. Não na maioria.

Mudei-me. Consegui tornar-me diferente sem me anular e agora estou por toda a parte onde o vento sopra, onde um rio corre, onde os sinos tocam.

Em torres bem altas, por cima de igrejas, em jardins, em praias, em cidades.

Em ruínas do que já foi outrora colossal.

E até em ruínas do que costumavam ser pessoas.

Fecho os meus olhos e vejo o que não está lá. Eu continuo a ver.

Vejo pedaços de vidas que não me pertencem, vejo memórias que não são minhas.

Vejo a realidade e a fantasia, vejo o terror e o extâse.

Vejo sorrisos, vejo felicidade, vejo magia, vejo momentos.

Composta por intervalos, vírgulas e capítulos, vidas passadas e futuras.

Vidas alheias e a minha vida.

Penso e sei, experimento e arrisco.

Arrisco e dou o salto para o outro lado. Será que vale a pena?

Percorro galáxias, a voar pelo espaço, perto de estrelas e da lua e do sol, mais perto do que ninguém.

Renovo-me quando me desfaço em cinzas, mas renasço sempre. Dia após dia, dor após dor, queimadura após queimadura.

E ouço os sinos a tocar, bem alto, causando em mim uma mistura de melancolia com esperança que me enche de energia.

Vejo o rio correr, lenta e suavemente, causando um som que me embala até me tornar parte dele.

Vejo o rio correr, e eu, corro com ele.