Aperto no estômago, coração acelerado. A cada metro de estrada sinto-me a ficar cada vez mais pequena.
A hora aproxima-se mas a distância e o tempo levam a melhor sobre mim. O que devo fazer, o que devo dizer? São estes momentos não planeados que me fazem agir segundo os meus impulsos biológicos e os meus mais íntimos sentimentos como ser humano.
À chegada acalmo os nervos enquanto dou passos pequenos e incertos. E agora, como vai ser? O que vou ver ao certo? Vou entrando às cegas, sem saber para o que me hei de preparar. Subo as escadas e sinto um nó que me enche as entranhas de incerteza nervosa. Nunca gostei destes locais que se mascaram com jardins floridos e portadas alegres, mas que por dentro encerram tristeza, solidão, maus tratos e morte.
Subo os degraus mas ainda tenho mais alguns minutos para gastar nesta espera silenciosa que me tranca as cordas vocais impedindo-me de falar ou de rir perante alguma piada.
E então avisam-me que a espera acabou, que a porta se irá abrir. O que devo esperar?
Caminho mais confusa do que confiante e deparo-me com uma visão não muito inesperada. Mas o pior não foi o sentimento de tristeza que me poderia ter preenchido. Não, foi a luz que a minha simples presença causou naquele ser. Eu fui uma visão de outro mundo antigo cheio de vida, eu fui a própria vida encarnada num passado que parece ter acontecido há milhões de anos. Todo o meu ser ficou estático por segundos e depois disso tive de avançar para quem me contemplava como se tivesse algo de divino.
Nesse momento senti pela primeira vez na vida algo que nunca tinha sentido: razão de viver. Razão de existir neste mundo. Porque esse olhar valeu por todas as palavras existentes no universo.
Seguiu-se uma hora onde o meu cérebro trabalhava a mil à hora, pensando em todas as tardes passadas a cantar e a conversar com essa pessoa que agora me estava grata só por existir. Só por existir! Conseguirá alguém imaginar o que é ler pura gratidão no brilho dos olhos de outrém só por respirarmos?
Foi o sentimento mais avassalador de toda a minha curta vida. Foi uma nova perspectiva que me inundou a alma de uma mistura súbita de rancor, de tristeza, melancolia, saudade e felicidade só por estar ali. Revoltou-me sentir que apesar de vista e ligeiramente acompanhada essa pessoa estava mais só que muitos. Estava sozinha e só conseguia pensar na sua antiga vida, nas antigas pessoas que costumava ver e amar e naquilo que já tinha perdido de maneira injusta e trágica.
Porquê? Porque é que isto acontece sempre a quem menos merece?
Acho que fundo saí de lá a sentir-me extremamente impotente, triste por não poder fazer mais nada a não ser inspirar e expirar ar, que de certa forma já era satisfatório para quem quase não podia.
Senti aqueles abraços, aquelas mãos cansadas da vida a apertar-me com toda a sua força para me memorizar, para me tentar marcar, para sempre. Senti aquelas lágrimas como facadas directamente no peito e nesse momento morri um pouco por dentro. Derramei lágrimas interiores e senti o meu mundo a desviar-se lentamente da sua órbita usual.
Entrei dentro do carro e vislumbrei o ser que me acenava adeus como se acenasse um olá à morte. Vislumbrei quem por uma mera hora da minha vida foi feliz a relembrar o que um dia foi.
Se pudesse, dava-lhe dias inteiros de mim, só para ver esse contentamento nessa cara que um dia já me foi quotidiana, que me deu tecto provisório, que me forneceu comida e sobretudo alguém com quem falar.
Nunca me esquecerei dessa tarde e do que me apercebi nesse dia: por mais inúteis que nos possamos sentir, somos sempre úteis para alguém que pode nem saber que existimos, mas se estamos nesta vida, é certamente para a mudar.
Obrigada
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