«Aquele que voa tem de poisar em algum lugar:
Isso é partir e não voltar»
Ela gostaria de saber o que isso era. Gostava de conseguir encarar essa âncora esmagadora de ir. Mas não voltar.
Ela caminhou pelas chamas, pela neve que queima - ela percorreu as léguas do seu próprio inferno e encontrou uma saída. Deixou para trás a dor (o início, porque ela nunca fica), pôs a sua vida num compartimento e foi. Foi simplesmente.
Nunca soubera como seria fazê-lo. Ter tanta certeza, tanta confiança nisso, que a cidade à sua volta parecia encolher. Ela sabia finalmente.
Não teve medo de encarar o desconhecido, o escuro temível (talvez sim, uma parte de si); não receou desistir do que tinha (o mais precioso). Algo estaria a começar, mas outro algo pereceu. Mas só em parte, porque nunca nada acaba totalmente.
Quando se vai, corre-se sempre o risco de perceber que toda a esperança de um futuro menos assombrado era uma mera miragem. Que esse local mágico era apenas uma fonte de luz que guiava a vontade e mitigava a tristeza.
Claro que ela temia isso. Por muita necessidade que tivesse de ir, o assustador caminho, rodeado dos espectros de saudade impedia-a de respirar. Tinha de ser - ela não sabia como ir, nem como ficar. Estava encurralada pela angústia desses dois mundos tão diferentes, tão derradeiros.
O momento chegou, porque ela sabia que ele tinha de chegar. E ela também sabia que alguns de nós irão sempre ficar para trás. Sabia que não podia ser ela, desta vez não. Nunca ela. Se ela ficasse, isso seria devastador, acabaria por fazê-la ruir - as paredes do seu ser foram erguidas nessa certeza de partir, um dia. Pelos vistos, esse dia não tardou em chegar, embora o tempo tenha demorado a passar.
Desta vez, ela não irá ficar para trás, como de tantas outras vezes, em que teve de ficar em terra, a ver todos os outros seguirem em frente, de uma maneira ou de outra. Desta vez, não vou ficar.
Hoje, falo em ir.
1 comentário:
É sempre uma surpresa ver-te escrever! Para começar, não fazia ideia de que era/é um marco (por assim dizer) importante na tua vida.
Ainda bem que o é, pois acho que escreves muito bem. Constróis uma história que rodeia e cativas - duas coisas essenciais. Vê-se que é parte de ti. Muito bom! Continua - pessoas que tem dom para a escrita jamais devem parar!
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